Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Conheça o sentido religioso da festa junina e como ela chegou ao Brasil

Adobe Stock

O fogo servia para afastar pestes e purificar o solo - Adobe Stock
O fogo servia para afastar pestes e purificar o solo
Por Alessandra Taraborelli

03/06/2026 | 08h14

São Paulo - O mês de junho chegou e junto com ele as festas juninas, as quadrilhas, comidas e bebidas típicas, que nos acompanham por todo o mês e, em alguns lugares, se estende para o mês de julho. A data, no entanto, não surgiu no Brasil. A origem das celebrações juninas vem do Hemisfério Norte, muito antes da era cristã. Povos tradicionais como celtas e romanos realizavam grandes festividades no mês de junho para celebrar o solstício de verão.

De acordo com o professor de filosofia e estudos comunicacionais da ESPM, Andrey Albuquerque Mendonça, era um momento de agradecimento pela fertilidade da terra, fartura das colheitas e pelo início do período de plantio. O fogo, as danças e a partilha dos alimentos colhidos eram os elementos centrais dessas manifestações agrárias tradicionais.

Ele explica que, durante o processo de expansão do Cristianismo na Europa medieval, a igreja adotou uma estratégia conhecida como inculturação. Em vez de extinguir as festas agrárias e solsticiais, já enraizadas na cultura dos povos, a igreja ressignificou esses rituais cristianizando-os. O fogo, que antes saudava o sol, passou a simbolizar a luz de Cristo; as datas das colheitas foram associadas ao nascimento e martírio dos santos.

Ao chegar ao Brasil com os colonizadores portugueses, a festa se fundiu às tradições indígenas e africanas, tornando-se a rica expressão sincrética que conhecemos hoje.”

No Brasil, a comemoração concentra as memórias de três pilares da fé católica, cujas trajetórias dialogam diretamente com a comunidade e a devoção popular:

- Santo Antônio (13 de junho): Teólogo e doutor da Igreja, sua devoção no Brasil é marcada pelo caráter social. O simbolismo dos pães de Santo Antônio remete à caridade e à providência divina. Seu forte apelo "casamenteiro" reflete o valor teológico da família e a santificação dos laços afetivos.

- São João Batista (24 de junho): É o único santo, além da Virgem Maria, de quem a Igreja celebra o nascimento e não o martírio. João é a “voz que clama no deserto", o precursor que aponta para Jesus. Seu simbolismo está ligado à água do batismo e ao fogo da profecia.

- São Pedro (29 de junho): Considerado o primeiro Papa, o pescador de homens a quem Cristo confiou as chaves do Reino dos Céus. Pedro simboliza a rocha da igreja, a autoridade e a unidade. Por sua ligação com a pesca e as chaves, o povo do campo também recorre a ele para pedir a proteção do clima e das chuvas necessárias à lavoura.

Pular a fogueira

O professor lembra que, historicamente, o fogo servia para afastar pestes e purificar o solo. Na teologia cristã, o fogo ganha uma dimensão de renovação espiritual, é o Espírito Santo que purifica e inflama os corações.

O tradicional batismo de fogo ou o pacto de pular a fogueira juntos cria o laço de compadrio (ser padrinho ou madrinha de fogueira). Esse ato eleva um elemento folclórico a um compromisso quase sagrado de fraternidade mútua, onde as pessoas juram fidelidade e apoio mútuo diante de Deus e das testemunhas, unindo o misticismo da terra à promessa de amor cristão.

O mastro junino, outro elemento muito característico das festas, funciona como um eixo sagrado que conecta a terra ao céu. Ao erguer o tronco adornado com as imagens dos santos e com as frutas e fitas, a comunidade faz um gesto vertical de oferenda: reconhece que a fartura da terra provém da graça divina.

A benção das bandeiras é um ato litúrgico popular de consagração da vida cotidiana. Ver a bandeira do santo no topo do mastro renova a certeza de que aquele território e aquelas famílias estão sob o patrocínio e a proteção do céu.

Já as quadrilhas, embora tenham origem coreográfica nas danças da corte francesa (quadrille), no Brasil elas ganharam alma comunitária. Elas transcendem o mero entretenimento social. Espiritualmente, a quadrilha celebra a comunhão e a harmonia.

A dança exige o passo sintonizado com o outro, o olhar nos olhos, a celebração do par e o respeito ao coletivo. Em uma perspectiva teológica da festa, a alegria partilhada, o folguedo e o sorriso das pessoas reunidas no pátio da igreja são, sim, uma forma legítima de louvor e gratidão.”

Mendonça explica ainda que o traje remendado e a estética da roça representam a celebração da humildade e da resiliência do povo do campo. Ele lembra que o que hoje parece fantasia para o ambiente urbano é, na verdade, a exaltação da dignidade do trabalhador rural. As roupas remendadas e os chapéus de palha remetem à simplicidade.

Teologicamente, essa estética valoriza a teologia da criação e do trabalho: a resiliência do sertanejo e do caipira que, mesmo diante da seca ou das intempéries econômicas, não perde a esperança e a capacidade de festejar

O professor explica ainda que a igreja enxerga as festas juninas como um dos maiores patrimônios da sua Pastoral da Cultura. De acordo com ele, o papa João Paulo II e, mais recentemente, o papa Francisco, enfatizaram que a piedade popular é o "sistema imunológico" da fé de um povo.

O sincretismo e o catolicismo popular presentes no mês de junho não são vistos como desvios doutrinários, mas como portas de entrada para a evangelização.

“Ao acolher a culinária, a música e a dança, a igreja incorpora a cultura local. A festa junina demostra que as dimensões do sagrado e profano convivem juntas; e a partir da cultura, a igreja alimenta a fé e a devoção de seus membros”, conclui.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Últimas Notícias