Drags 50+ atravessam gerações e contam como a arte ganhou novos palcos
Divulgação
São Paulo - A cena drag brasileira mudou de espaço, linguagem e público nas últimas décadas. Artistas que começaram a carreira quando as apresentações estavam concentradas principalmente em boates, bares e outros ambientes noturnos hoje acompanham uma nova geração ocupar teatros, programas de televisão, como Drag Race Brasil e Caravana das Drags, festivais, como o Realness, e eventos realizados durante o dia.
Para drag queens com mais de 50 anos, essa transformação também representa a possibilidade de continuar trabalhando e transmitindo conhecimento depois de décadas de carreira. O VIVA conversou com as artistas Silvetty Montilla, Thália Bombinha e Tchaka Drag Queen para entender o momento atual da cultura drag no País.
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'Amo o que eu faço'
Silvetty Montilla construiu uma trajetória de décadas na cultura transformista e também se tornou referência para artistas que vieram depois. À frente do programa Academia das Drags, ela acompanhou a formação de nomes como Rita von Hunty, Gysella Popovick e Sasha Zimmer.
Para a artista, a presença de drags veteranas ao lado das novas gerações têm relação direta com a própria história da categoria. Antes de ocupar os espaços atuais, outras artistas precisaram criar caminhos para que essa expansão fosse possível.
Fico super feliz e acho que faz parte, porque nós abrimos esse espaço, como teve pessoas que abriram para eu estar aqui hoje", disse a artista em entrevista ao VIVA durante o Realness Festival.
Silvetty também destaca a mudança na quantidade e no tipo de espaço disponível para as drags. Segundo ela, durante parte de sua carreira, as apresentações estavam mais restritas a ambientes voltados ao público LGBTQIA+.
“Antigamente ficávamos restritos só às casas gays, boates, saunas, bares. Hoje a gente pode estar em tudo quanto é lugar, festas, brunchs, eventos, TV, cinema, teatro", relata.
A artista completa 40 anos de atuação e 60 anos de idade em 2027. Para ela, permanecer no palco permite acompanhar e participar da formação de novas gerações. A relação com a profissão é apontada por Silvetty como um dos fatores que sustentam sua permanência. “Eu amo o que eu faço”, resume.
'Ensino e aprendo com a nova geração'
Thália Bombinha começou a carreira ainda jovem, com 22 anos, e chegou aos 55 anos mantendo trabalhos ligados ao humor, ao teatro, ao stand-up e aos shows. Diferentemente de performances concentradas em dança, dublagem ou movimentos físicos, sua atuação também depende da comunicação direta com a plateia.
A artista afirma que não costuma sentir a idade como uma barreira para seu trabalho. Para ela, a experiência acumulada ao longo dos anos permite continuar desenvolvendo a mesma relação com o público, ainda que algumas exigências físicas tenham mudado. “Eu não me sinto 50+. Eu ainda sou a Thália Bombinha de antes”, afirma.
Ao mesmo tempo, Thália reconhece que a carreira muda com o passar dos anos. O corpo pode impor limites diferentes, enquanto a experiência permite incorporar novas referências.
A troca entre gerações aparece como parte importante de sua trajetória, conta Thália. “No começo, algumas aprendem comigo. Agora eu aprendo com elas também. Isso é inovação", ressalta.
As artistas mais novas, especialmente drags que trabalham com humor, já procuraram sua orientação. Para ela, compartilhar conhecimento é uma maneira de devolver a ajuda que recebeu no início da carreira.
Outro ponto observado por Thália é que o número de artistas trabalhando com comédia é menor em comparação com outras formas de performance. Por isso, considera importante que as novas drags desenvolvam suas próprias características sem desvalorizar estilos diferentes.
A drag afirma que a carreira também depende de fatores que vão além do talento artístico. Entre eles estão a humildade, a disposição para aprender e a capacidade de estabelecer relações profissionais.
Você tem que gostar, você tem que ter o dom. E, quando você começa, tem que ser humilde. Humildade é tudo. Se você começar dando close, ‘Ai, eu sou a melhor’, você não vai muito longe, não.”
'Envelhecer não deveria significar desaparecer'
A discussão sobre longevidade na arte drag também aparece na trajetória de Valder Bastos, de 56 anos, conhecido pela personagem TchaKa Drag Queen.
Seus 30 anos de carreira lhe deram um repertório amplo.
O artista destaca que esse acúmulo não deveria ser tratado como "um prazo de validade" ou sinal de afastamento da profissão. “Experiência não envelhece. Experiência dá repertório", diz.
A permanência de artistas LGBTQIA+ maduros nos palcos, segundo Bastos, também enfrenta o preconceito etário. Ele afirma que ainda existe uma expectativa de que esses artistas estejam associados à juventude.
Existe uma pressão enorme para que artistas LGBTQIA+ estejam sempre jovens, perfeitos, desejáveis e absolutamente impecáveis.”
A questão, para ele, não está apenas na aparência. Figurinos, maquiagem, saltos, viagens e noites de trabalho também podem exigir mais do corpo com o passar dos anos.
“Depois dos 50, eu não tenho mais a obrigação de provar que consigo fazer alguma coisa. Eu tenho é a responsabilidade de fazer bem", explica. Para Bastos, a experiência adquirida deve ser vista como parte do presente da cultura drag, e não apenas como memória.
Eu tenho histórias, cicatrizes, conquistas, fracassos, experiências e muito repertório para colocar em cena. Envelhecer não deveria significar desaparecer".
"Eu quero ver mais artistas LGBTQIA+ maduros trabalhando, protagonizando histórias, dirigindo, escrevendo, produzindo e ocupando espaços. Não quero que a nossa experiência seja vista apenas como memória. Nós também somos presente", complementou o artista.
Para Tchaka, uma carreira artística exige conhecimento sobre comunicação, produção, contratos, direitos autorais, redes sociais e marketing. “Talento é importante, mas talento sozinho não paga conta, não sustenta carreira e não constrói reputação", pontua.
O artista também destaca atitudes relacionadas ao cotidiano profissional, como cumprir horários, contratos e acordos com equipes. “Eu aprendi que chegar no horário é talento. Cumprir um contrato é talento. Respeitar equipe é talento.”
Para as novas drags, ele também considera importante construir uma identidade própria. A facilidade atual de produzir conteúdo para redes sociais, segundo Bastos, não substitui a necessidade de desenvolver repertório.
Cultura construída ao longo dos anos
A história das drags que começaram nos anos 1980 e 1990, ou bem antes, se mistura à transformação da própria cena brasileira. Naquele período, o termo internacional “drag queen” ainda estava se popularizando no País, enquanto “transformista” era uma denominação comum para artistas que desenvolviam trabalhos de transformação e performance.
Sem internet e redes sociais, a divulgação das artistas era limitada. A cena se concentrava principalmente em espaços noturnos e ambientes específicos. Artistas como Tânia Star, Silvetty Montilla e Márcia Pantera ajudaram a consolidar essa cultura e abrir espaço para outras gerações.
Décadas depois, novas artistas encontram um mercado diferente, com mais oportunidades de trabalho. “Batalhamos tanto para chegar nesse momento, então hoje nós podemos estar em tudo quanto é lugar. Isso é gratificante, a quem está, as que estão chegando e para as que vão chegar", afirma Silvetty.
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A mudança não eliminou os desafios e o preconceito, mas ampliou as possibilidades de construir uma carreira na área e ter mais contato com o público.
Hoje é profissão. Antigamente era muito mais difícil. Era uma coisa de: ‘Aí, apareci. Quando é que eu vou ganhar um cachê?’ Hoje em dia, não. Você é boa, você aparece nesse lugar e você ganha cachê", ressalta Thália Bombinha.
Para as drags ouvidas pelo VIVA, a relação entre artistas de diferentes idades segue como uma via de mão dupla. As veteranas transmitem experiências acumuladas durante décadas, enquanto as novas drags apresentam referências, técnicas e linguagens que também podem ser incorporadas pelas artistas mais antigas.
É nessa troca que a cultura drag continua se transformando. Para quem atravessou cinco, seis ou mais décadas de vida, permanecer em cena também significa mostrar que a carreira artística não precisa terminar com a juventude.
“Leiam, estudem, observem o mundo e respeitem as drag queens que vieram antes. Conheçam teatro, cinema, música, literatura, história, política, comportamento. Não tenham medo de estudar. A peruca pode chamar atenção, o salto pode fazer barulho, o close pode viralizar, mas é o conteúdo que constrói uma carreira", conclui Tchaka.
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