Fisiculturismo 60+ ganha espaço entre a geração que redefine o envelhecimento
Arquivo pessoal
São Paulo - O fisiculturismo tem atraído cada vez mais praticantes com mais de 60 anos, impulsionado pela busca por saúde, qualidade de vida e envelhecimento saudável.
Se antes a modalidade era associada principalmente à estética e ao alto rendimento entre atletas jovens, hoje ela reúne um número crescente de homens e mulheres que encontram na musculação uma forma de preservar a força, a autonomia e o bem-estar físico e mental.
As categorias Master, destinadas aos competidores acima dos 45, 50 e 60 anos, também refletem esse movimento. Fisiculturistas ouvidos pelo VIVA avaliam que competir é apenas uma consequência de um estilo de vida baseado em disciplina, alimentação equilibrada e exercícios físicos regulares.
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Para eles, o envelhecimento não representa um limite para iniciar uma nova atividade e acreditam que o crescimento do fisiculturismo entre pessoas 60+ acompanha uma mudança de mentalidade da sociedade.
Segundo a Fitness Brasil, o envelhecimento ativo tem transformado o perfil das academias, que registram um aumento no número de pessoas com mais de 60 anos nas áreas de musculação. Além da estética, a prática reduz o risco de quedas, fortalece ossos e articulações e auxilia no controle de doenças crônicas.
Em vez de enxergar a idade como um obstáculo, cada vez mais praticantes passam a vê-la como um incentivo para investir na própria saúde e manter a independência ao longo dos anos. Conheça alguns exemplos, nos depoimentos a seguir:
'Nunca é tarde para recomeçar'
Aos 72 anos, a psicóloga e fisiculturista Maria Melo, conhecida nas redes sociais como Mari Melo, se tornou um dos principais exemplos de que nunca é tarde para mudar de vida.
Ela começou a frequentar a academia aos 68 anos em busca de mais saúde e longevidade, perdeu 22 quilos em poucos meses e, apenas dois anos depois, já subia aos palcos dos maiores campeonatos de fisiculturismo do País.
Ela relata que a decisão nasceu diante do espelho, no fim de 2022. "Eu me vi gorda, inchada, acima do peso. Olhei para mim e disse: 'Esse corpo não me pertence'. Decidi que, a partir de janeiro, iria virar essa chavinha."
O incentivo veio da filha, médica ortopedista e especialista em medicina esportiva, que há anos recomendava a prática de atividade física. Em janeiro de 2023, Mari mudou completamente a alimentação e passou a treinar diariamente.
Tenho muita disciplina. Controlava a alimentação, os horários e as quantidades. Quanto mais via a evolução, mais vontade eu tinha de treinar.”
Durante um ano e meio, Mari treinou apenas pensando na saúde. Ela conta que o fisiculturismo sequer fazia parte dos seus planos. Tudo mudou quando uma atleta entrou em contato pelo Instagram e afirmou que as duas seriam colegas de palco.
A atleta apresentou o universo das competições, ensinou onde comprar biquíni, sandália, como fazer poses e incentivou Mari a disputar um campeonato ainda naquele ano. "Ela dizia que eu tinha corpo para competir e que faria diferença. Pensei: 'O que eu tenho a perder? Só tenho a ganhar'."
Em dezembro de 2024, já com 70 anos, Mari fez sua primeira competição, no Titans, em São Paulo. Ela lembra que entrou no palco sem equipe, acompanhada apenas pela torcida virtual da amiga que a incentivou.
Quando falaram que eu tinha 70 anos, o público inteiro ficou de pé. Foi a maior torcida daquele campeonato."
Ao deixar o palco, foi cercada por atletas e espectadores que queriam conhecer sua história. "As pessoas queriam tirar fotos comigo para mostrar para mães, tias e avós. Ninguém acreditava que eu tinha começado a treinar há apenas dois anos”, conta.
Depois da estreia, Mari decidiu que o fisiculturismo faria parte da sua rotina. Em pouco mais de um ano, participou de oito campeonatos, incluindo competições estaduais, nacionais e sul-americanas. Em 2026, já voltou aos palcos em três oportunidades e prepara mais cinco competições para o segundo semestre.
Um dos momentos mais marcantes da carreira aconteceu recentemente durante o Muscle Fest São Paulo. Como era a única atleta master da categoria Bikini Fitness, Mari acabou competindo na categoria aberta ao lado de mulheres com pouco mais de 30 anos.
"No Brasil ainda não existe categoria para atletas acima de 70 anos. Subi com mulheres de 32 anos e trouxe meu troféu de terceiro lugar", disse.
Ela também comemora um título conquistado no Arnold South America, onde venceu competindo na categoria 50+.
Além dos resultados esportivos, Mari acredita que sua maior conquista é inspirar outras pessoas a começarem uma nova fase da vida. Psicóloga clínica e sexóloga por formação, ela afirma sentir uma responsabilidade com quem acompanha sua trajetória.
Hoje me chamam de mulher inspiração. Recebo mensagens de pessoas do Brasil e de vários países dizendo que começaram a treinar depois de conhecer minha história."
Segundo ela, seguidores de países como Estados Unidos, Itália, Espanha e outros lugares da América Latina costumam enviar convites para que participe de competições internacionais. "A pergunta que mais escuto é: 'Como você consegue?'. Eu respondo que tudo começa com uma decisão."
Para o restante da temporada de 2026, Mari já tem mais cinco campeonatos programados no Brasil e não descarta disputar eventos internacionais nos próximos anos. Ela diz que pretende continuar usando o esporte para incentivar outras pessoas, principalmente mulheres acima dos 50, 60 e 70 anos.
Eu quero mostrar que nunca é tarde para recomeçar. Sou uma mulher inspiração e ainda tenho muitos sonhos para realizar."
'Depois dos 50, não é mais estética. É saúde'
O fisiculturista e digital creator de 66 anos Alvaro Fernandes, mais conhecido como Alvaro Mutant, afirma que o maior benefício da musculação não está na estética nem nos títulos conquistados. Para ele, a principal transformação aconteceu na mente. Depois de enfrentar um período marcado pelo luto, dificuldades financeiras e obesidade, encontrou na academia o caminho para reconstruir a própria vida.
A relação com o fisiculturismo começou em 1982. Após competir durante alguns anos, ele interrompeu a carreira quando retornou da Califórnia, em 1986. Ficou cerca de 20 anos afastado dos treinos e das competições, período em que ganhou peso e viu sua rotina mudar completamente.
"Meu pai caiu doente e faleceu. Eu fiquei muito mal. Minha vida financeira e social também mudou. Fui abraçado pela academia e pela musculação, motivado por um amigo meu, o campeão carioca André Faleiros", conta.
Foi esse incentivo que o levou a voltar aos treinos entre 2011 e 2012. No ano seguinte, retornou aos palcos do fisiculturismo e voltou a conquistar títulos na categoria Master.
Ao longo da trajetória competitiva, Alvaro conta que soma conquistas importantes. Entre elas estão o título do Mister Rio de 1985, a vitória no Gold's Gym Junior, em Los Angeles, além do título de Mister Rio Master e do vice-campeonato brasileiro na categoria.
Apesar disso, ele faz questão de destacar que o esporte lhe trouxe muito mais do que medalhas. "Ganhei mais no fisiculturismo como participante do que praticamente como atleta."
Hoje, ele já não compete, mas mantém uma rotina semelhante à de um atleta profissional. A alimentação é planejada, os treinos seguem uma programação fixa e os períodos de descanso fazem parte da estratégia.
"Treino três dias, descanso um. Depois treino mais dois e descanso novamente. Continuo levando uma vida de atleta, mesmo fora dos palcos", relata.
Para Alvaro, a visão sobre a musculação muda completamente com o passar dos anos. O que antes era motivado pela aparência hoje está diretamente relacionado à qualidade de vida.
Ele faz uma distinção entre o fisiculturismo competitivo e a prática regular da musculação. Segundo ele, o nível extremo exigido nas competições não representa um estilo de vida saudável, mas a musculação praticada de forma contínua é essencial para o envelhecimento.
O estilo de vida do fisiculturismo é saudável e necessário. Hoje ninguém mais pode ficar sem praticar musculação. A medicina já provou isso."
Na avaliação do atleta, a saúde mental é o principal benefício proporcionado pelos exercícios. "Tudo começa com a mente. Tendo uma mente boa, o corpo é bom. Tendo uma mente boa, o espírito é bom. Os três funcionam juntos."
Ele defende que alimentação equilibrada, treinos frequentes e suplementação adequada, especialmente de proteínas após os 50 anos, são pilares importantes para preservar a massa muscular e a autonomia durante o envelhecimento.
Também recomenda evitar alimentos ultraprocessados e manter uma rotina consistente de atividade física, independentemente da participação em competições.
Alvaro acredita que o crescimento das categorias Master demonstra uma mudança importante na forma como as pessoas encaram o envelhecimento. Para ele, muitos ex-atletas voltam a competir graças à memória muscular, enquanto outras pessoas descobrem o esporte apenas depois dos 50 ou 60 anos.
A idade é só um número. Um homem de 60 anos hoje não é o mesmo de anos atrás. O corpo responde ao treino, à alimentação e ao cardio."
Para ele, envelhecer bem é resultado das escolhas feitas ao longo da vida. "Você vai envelhecer de qualquer maneira. A diferença é se vai envelhecer de uma forma inteligente ou degradada. Ser mutante é mostrar para você mesmo que a idade não faz diferença nenhuma. Basta querer", finaliza.
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