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Modelos 60+ desafiam estereótipos e provam que a beleza vai além da idade

Arquivo pessoal

As modelos Vita Christoffel, Cláudia Chaves e Udi Zanettini - Arquivo pessoal
As modelos Vita Christoffel, Cláudia Chaves e Udi Zanettini
Por Alexandre Barreto

10/04/2026 | 09h24

São Paulo - Mulheres maduras enfrentaram por décadas a invisibilidade, em uma indústria da moda marcada pela exaltação da juventude, que reforçava padrões que associavam beleza à ausência de rugas e de cabelos brancos.

Hoje, esse cenário começa a se transformar, com modelos com mais de 60 anos ocupando passarelas, campanhas e redes sociais, ganhando espaço e ressignificando o que é envelhecer com estilo.

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Segundo modelos 60+ ouvidas pelo VIVA, isso se dá pelo movimento de representatividade: a população está envelhecendo, e mulheres maduras querem se sentir representadas. Para elas, a presença de modelos nas passarelas confronta o etarismo histórico da moda e amplia a narrativa sobre corpo ativo e beleza na maturidade.

Conheça algumas delas, nos depoimentos a seguir:

"A beleza vai além do espelho"

Foi quando sua filha designer começou a fotografá-la e a estudar fotografia que Vita Christoffel, de 63 anos, despertou o desejo de ser modelo.

Eu comecei a enxergar pelo olhar dela. Foi esse olhar que me despertou. Eu sempre trabalhei com fotógrafos, e ninguém tinha me mostrado a minha imagem como ela me mostrou. E aí ela disse: ‘Mãe, você tem que trabalhar como modelo. Olha as tuas fotos’.

Vita Christoffel, que é fortalezense, conta que começou como modelo aos 58 anos. Antes disso, atuou como produtora cultural em São Paulo, onde adquiriu experiência com produção e desfiles, além de já conhecer o funcionamento dos bastidores.

A modelo Vita Christoffel, de 63 anos
A modelo Vita Christoffel, de 63 anos, diz que não faz procedimentos no rosto - Divulgação/Julio Cardim

O ponto de virada na carreira veio durante um encontro com o estilista Ronaldo Fraga, em Belo Horizonte, onde ela morava.

O que começou como a entrega de um livro se transformou em uma conversa que abriu portas na moda, com o convite para abrir o desfile na São Paulo Fashion Week. Depois de vê-la desfilar, ele a convidou também para encerrar a apresentação.

Tempos depois, ela entrou em uma agência internacional e começou a fazer grandes trabalhos e desfiles em 2019. Na mesma época, foi capa das revistas Claudia e Vogue Brasil

"Além de realizar um desejo que estava escondido, eu não imaginava que ainda pudesse fazer isso na minha vida. Existe uma barreira para as mulheres maduras. Basta ver que são poucas as marcas que têm corpos e idades diferentes na passarela", disse.

Para a modelo, a própria presença de mulheres mais velhas nas passarelas nos últimos anos já indica uma mudança no mercado. Ela afirma que a geração dos anos 60 para cá vem rompendo paradigmas da liberdade feminina e que, antigamente, era impossível falar desses assuntos na moda.

A nossa geração vem quebrando padrões de etarismo há muito tempo. Hoje, o que eu visto, minha filha veste, e o que ela veste, eu também uso. Não existe mais essa limitação."

Além disso, ela destaca que a relação com a própria imagem e a autoestima é um dos pilares de sua trajetória como modelo e ressalta a importância de cuidar da alimentação e praticar atividades físicas.

“A beleza, para mim, vai muito além do espelho. Está ligada à minha essência e à natureza. Acho que o que eu represento hoje para a moda é uma mulher natural. Eu não faço nenhuma intervenção no meu rosto”, disse.

A modelo Vita Christoffel, de 63 anos
A modelo Vita Christoffel no desfile da coleção Verão 2025 da grife Arezzo - Reprodução/Instagram @vita50mais

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Entre os trabalhos de destaque, ela pontua a ópera Carmen, de Georges Bizet, no Theatro Municipal de São Paulo, em maio de 2024, quando, após mais de mil pessoas no processo seletivo, foi a única modelo escolhida. “Foi uma experiência que ampliou minha visão artística e me levou para as artes cênicas.”

Para mulheres 60+ que desejam ingressar na moda, ela reforça que é preciso clareza, preparo e disciplina. “As mulheres precisam saber se é isso mesmo que querem, porque pode desanimar. A concorrência é grande, nem sempre você é chamada para trabalhos, e a gente também precisa fazer outras coisas”, relata.

Ela também destaca que, para se manter como modelo na maturidade, é preciso ter postura, manter o corpo ativo e investir em práticas como alongamento e dança.

Não é só querer ser modelo. É preciso entender o que você quer dentro da moda. O glamour exige postura, preparo físico e dedicação. Ser modelo exige persistência, determinação e disciplina. Sem isso, é muito difícil continuar."

"Nunca é tarde para começar"

Após se aposentar na área de hotelaria e turismo, a paulistana Cláudia Chaves, de 63 anos, encontrou, no final de 2022, uma oportunidade de carreira na moda e na publicidade que não fazia parte de seus planos iniciais.

“Eu sempre fui fora do padrão da minha época. Embora eu tenha 1,73m, que não é tão alta para o padrão de modelo, para mulheres da minha geração isso já era diferente. E também não existiam modelos negras como eu. As referências eram outras, como Xuxa e Luiza Brunet. Isso acabou me afastando desse caminho por muito tempo”, relembra, ao afirmar que sempre se imaginou como modelo.

A modelo Cláudia Chaves
Cláudia Chaves encontrou, no final de 2022, uma oportunidade de carreira na moda e na publicidade - Arquivo pessoal

A entrada tardia no mercado não impediu que Cláudia conquistasse espaço em um setor historicamente marcado por padrões restritos de idade e aparência. Para ela, o cenário começa a mudar com o avanço da representatividade, especialmente para mulheres negras e maduras.

"Na minha idade, a gente vai se tornando invisível. Você é meio invisível na rua e profissionalmente. Mas hoje os modelos sêniores estão em alta. O mundo descobriu que nós consumimos e precisamos ter pessoas representando essa faixa etária", disse.

Sem contrato fixo com agências, Chaves trabalha de forma independente, participando de seleções para campanhas publicitárias e desfiles. Apesar das oportunidades para mulheres 60+, ela aponta que o mercado ainda apresenta limitações.

“Os desafios são grandes. Existem outras mulheres no meu perfil, então eu sei que, se eu não pegar um trabalho, outra vai pegar. Os trabalhos ainda são menos do que eu gostaria, mas existe uma representatividade acontecendo”, afirma.

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A modelo paulistana Cláudia Chaves, de 63 anos
A modelo paulistana Cláudia Chaves na passarela da SPFW N57 - Agência Fotosite/Ze Takahashi

Entre os principais obstáculos está a forma como mulheres acima dos 60 anos ainda são retratadas. Segundo ela, os papéis disponíveis seguem estereótipos sobre como a sociedade enxerga a mulher dessa faixa etária.

“Eu não sou mãe, não sou avó, mas a minha idade e os meus cabelos brancos me trouxeram trabalho. Ao mesmo tempo, isso limita, porque eu só consigo trabalho quando é para uma avó moderna. Eu não tenho cara de vó, então acabo perdendo para quem tem esse perfil mais esperado”, explica.

Cláudia relata que a nova carreira também trouxe impactos diretos na autoestima e que, durante a juventude, ela não se encaixava nos padrões valorizados ao seu redor, carregando a percepção de não ser considerada bonita.

Sempre fui um patinho feio. Minhas irmãs eram vistas como bonitas, e eu era a magrela, a sem graça. Hoje, justamente isso, essa diferença, é o que me traz trabalho e oportunidades”.

A modelo conta que, desde o início da carreira, já viveu momentos marcantes, como o desfile na São Paulo Fashion Week e o destaque em campanhas exibidas em diferentes formatos, como no cinema. Já pensando no futuro, Cláudia Chaves busca ampliar os tipos de representações que assume nas campanhas.

Eu gostaria de representar coisas que eu consumo de fato, como perfumes, jóias, viagens. Não necessariamente o papel de avó. Mulheres da minha idade consomem e querem se ver nesses espaços.

Ela deixa uma mensagem para outras mulheres que queiram seguir o caminho de modelos mais velhas e ocupar novos espaços: “A gente ainda caminha a passos lentos, mas está caminhando. A minha mensagem é que nunca é tarde para começar. É olhar para o espelho com mais leveza e ir atrás dos sonhos”, complementa.

Claúdia Chaves também participou da 5ª temporada do Casamento às Cegas Brasil, lançada em setembro de 2025 na Netflix, com um elenco exclusivo de participantes com mais de 50 anos.

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"Podemos ter autoestima em qualquer idade"

Professora aposentada há 16 anos, a modelo Udi Zanettini, de 66 anos, nunca se imaginou ocupando passarelas ou estrelando campanhas. A entrada na moda aconteceu tardiamente, impulsionada por uma decisão pessoal que desafiou padrões estéticos e sociais ligados ao envelhecimento.

“Eu sempre defendi que a gente continua sendo bonito, cada um tem sua beleza, independente da idade. Eu ficava pensando isso quando diziam que meu pai ‘foi’ bonito quando jovem. Eu pensava: como assim ‘foi’? Ele tem 50 anos e continua lindo. Foi aí que comecei a questionar essa ideia de que a beleza acaba com o tempo", relata.

A modelo e professora aposentada Udi Zanettini
A modelo e professora aposentada Udi Zanettini, de 66 anos - Arquivo pessoal

Essa percepção ganhou força diante de normas sociais que, durante décadas, ditaram o comportamento estético esperado para mulheres mais velhas.

“Eu li em jornais que depois de certa idade a mulher não podia mais usar cabelo comprido, saia curta, roupa decotada, camiseta estampada. E eu fiquei pensando: como assim? Eu não quero envelhecer e ter que deixar de ser quem eu sou por causa da idade", relembra.

A virada aconteceu em 2018, quando ela decidiu parar de pintar o cabelo, após anos seguindo uma rotina imposta por padrões sociais. Ela conta que, naquela época, ter cabelos brancos era considerado “desleixo” para as mulheres, enquanto para os homens era visto como “bonito”. A escolha, inicialmente, causou estranhamento dentro e fora de casa, e as pessoas passaram a olhá-la de forma diferente.

O processo de assumir os cabelos brancos acabou abrindo caminho para uma nova fase. Abordada por profissionais da área enquanto treinava na academia, Udi aceitou participar de um ensaio fotográfico, motivada também pelas críticas que vinha recebendo.

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“Todo mundo estava falando que eu fiquei feia, velha, que perdi a vaidade. Teve gente que perguntou se eu estava com depressão. E no fundo eu queria ver como eu ficaria velha e bonita, porque não é só o cabelo que muda, o resto eu continuo cuidando", conta.

a modelo Udi Zanettini, de 66 anos
Udi diz que a moda aumentou sua autoestima significativamente - Arquivo pessoal

A experiência marcou o início da carreira como modelo. Pouco tempo depois, ela foi convidada por uma agência e passou a acumular trabalhos em campanhas, catálogos e editoriais.

Desde então, construiu uma rotina ativa no mercado, com participações em diferentes projetos.

“Muitas mulheres me procuram e eu sinto que estou contribuindo para mostrar que a gente pode ser bonita, saudável, feliz e ter autoestima em qualquer idade.”

Além da visibilidade profissional, a mudança impactou diretamente sua relação com a própria imagem. Segundo ela, a autoestima aumentou significativamente em comparação à juventude.

Para Udi, o envelhecimento não representa uma limitação, mas uma continuidade da vida em novos termos.

Eu me aposentei da profissão, mas não me aposentei da vida. Por isso eu estou aqui tentando algo totalmente diferente, aprendendo com pessoas mais novas e dando a minha cara a tapa, sem saber como eu seria vista."

Ao olhar para a própria trajetória como modelo e professora, ela reforça a importância de agir no presente e não adiar projetos pessoais, independentemente da idade. “Eu diria que a gente nunca deve deixar para amanhã o que sonha hoje. Os nossos sonhos não envelhecem. A gente está vivo, isso já é uma bênção. Se não tentar, não vai saber se dá certo”, disse.

Existe beleza na nossa idade também. Toda a nossa história, tudo que a gente viveu, construiu, isso é beleza. A beleza não está só na juventude”, complementou.

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