Laerte Coutinho diz que 'tem achado envelhecer difícil' e pensa na morte
Paulo Pinto/Agencia Brasil
23/01/2026 | 14h22
São Paulo, 23/01/2026 - Laerte Coutinho fala sobre o tempo como quem observa o traço de um desenho antigo, que insiste em se transformar. Aos 74 anos, afirma que envelhecer sendo uma mulher trans no Brasil trazem desafios.
“Tenho achado envelhecer difícil. Ser trans também é difícil. São duas dificuldades que podem ser mais suaves ou mais pesadas conforme a situação e as condições da pessoa. As minhas até que são bem razoáveis”, disse a ilustradora, cartunista e roteirista em entrevista ao portal VIVA.
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A artista, nascida em São Paulo em 10 de junho de 1951, iniciou sua transição de gênero entre 2009 e 2010, aos 58 anos. Conhecida por dar forma em suas tirinhas a personagens que questionam o mundo, agora volta o olhar para si.
“Tenho pensado sobre a morte, a minha e a das pessoas, sem chegar a conclusões muito claras. Tenho tido alguns momentos de mais clareza, outros de mais atordoamento e desânimo”.
Ao falar de pessoas trans com mais de 50 anos que enfrentam medo, preconceito e a falta de cuidado médico adequado, pondera: “Recomendo atenção e paciência”.
A cartunista que aprendeu a rir de sua própria complexidade nos seus trabalhos compreende que a existência não se limita a uma única identidade ou função.
Nos anos 70, ela iniciou sua trajetória no desenho profissionalmente e descobriu no traço seu verdadeiro meio de expressão.
Em 2004, entre períodos de intensas reflexões pessoais, Laerte manifestou suas ansiedades através de seu personagem Hugo, que, em certo dia, passou batom, vestiu um vestido e calçou saltos em uma tirinha.
“Quando comecei a pensar em gênero, usei uma personagem que representava esse meu processo: a Muriel. Depois parei, como parei com todas as personagens”, diz Laerte.
Desde então, Hugo passou a se identificar como Muriel, uma personagem vista por muitos como um reflexo da própria artista.
O corpo, que um dia foi tema de desconforto e descoberta, segue como espaço de reflexão. Quando tinha 72 anos, em 2023, a cartunista foi diagnosticada com câncer de próstata e chamou atenção para algo pouco discutido: o cuidado com a saúde de pessoas trans.
O fato de mulheres trans terem próstata precisa ser lembrado”.
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Acompanhada por uma geriatra desde 2021, ela optou por uma prostatectomia radical por laparoscopia, realizada em dezembro de 2023. Há cerca de 20 anos, Coutinho foi diagnosticada com hiperplasia prostática benigna, condição que provoca o aumento da próstata e dificulta a micção.
Após se submeter a uma raspagem para tratar o problema, deixou de fazer acompanhamento médico regular.
Laerte reflete sobre como a “cultura masculina” influenciou essa postura, ao comentar o peso desse padrão que, por anos, a afastou dos consultórios. Para ela, a relação entre gênero e autocuidado ainda é desigual.
“Essa característica é real e relatada por muita gente da área da saúde: mulheres tendem a seguir orientações e manter cuidados com o organismo de forma muito mais sistemática”, diz.
A decisão de não fazer cirurgias nem hormonização também abre debate sobre as diferentes formas de envelhecer e de viver a transição, sendo a hormonização um tratamento médico que utiliza hormônios para alinhar características físicas à identidade de gênero de pessoas trans.
“Foi [um processo] cheio de incertezas e dúvidas. Cirurgia genital, mesmo, nunca aventei — sempre me assustou essa ideia. Mas implante mamário e hormonização foram projetos cheios de idas e vindas. Acabei não fazendo nenhum”, revela.
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