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Livro de poesia retrata o Cerrado através dos olhos e sentimentos de alunas 60+

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A ideia do livro surgiu após a professora ler e ver as poesias e fotos das alunas - Freepik
A ideia do livro surgiu após a professora ler e ver as poesias e fotos das alunas
Por Alessandra Taraborelli

03/04/2026 | 16h35 ● Atualizado | 16h37

São Paulo - Escrever poesias e tirar fotos podem ser dois hobbys bem desafiadores para muitas pessoas. E foi para um grupo de pessoas 60+, que foram provocadas pela sua professora a registrar o Cerrado através das lentes fotográficas e das palavras, explorando o olhar artístico e afetivo sobre o ambiente em que vivem.

Cada fotografia e cada verso revelaram não apenas a paisagem, mas também memórias, sentimentos e vivências que dialogam com a natureza e com o tempo.

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A iniciativa faz parte do Trabalho Social para Pessoa Idosa (TSPI60+) do Sesc Mato Grosso do Sul, que inclui atividades diárias, de segunda a sexta-feira, focadas no desenvolvimento social, convivência e cognição das participantes.

A ideia do livro surgiu após a professora Maice Parreira ser chamada pela direção para assumir o grupo 60+ em razão da saída da professora anterior. Ela disse que aceitaria, desde pudesse desenvolver um projeto para sair da rotina de apenas jogos e exercícios, e focar em coisas para o desenvolvimento e convivência social.

Proposta aceita, o próximo desafio eram as alunas. Maice não esperava ter que enfrentar resistência em sala de aula, mas enfrentou em razão delas não estarem felizes com a troca de professora. Depois de superada esta fase, Maice foi conhecendo as alunas e observando o interesse e a necessidade de cada uma.

Depois de um ano analisando e entendendo as alunas, Maice, que não gosta de ser convencional, fez uma proposta a direção. Ela explicou que as alunas tinham necessidade de mais coisas e que, ao invés de procurar atividades fora do Sesc, a instituição deveria oferecer outras opções e trazer todas para dentro. A chefia disse que não havia recursos para contratar um professor para cada atividade. Mas isto não foi um empecilho.

Eu sou aquela professora fora da casinha e respondi: Não se preocupe, eu sei fazer tudo, na minha adolescência eu não gostava de ficar em casa e fazia todo tipo de curso que pudesse e aprendi muita coisa. Essa é a oportunidade que eu tenho para colocar em ação tudo o que eu sei fazer.”

Desafio iniciado

Ela conta que começou a estudar muito para achar coisas diferentes, porque era sempre as mesmas coisas. Durante o contato com a alunas, a professora percebeu que a maioria nunca tinha feito nada de diferente na vida, e teve a ideia de fazer os passeios e elas teriam escreverem sobre o que sentiam e fotografar, assim começou a surgir o livro de poesia e fotos.

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Eu queria estimular essas pessoas a se desafiarem. Falei assim: tem uma gama de coisas para fazer, um leque de opções para vocês viverem, vamos aprender, sempre dá tempo de aprender. Elas toparam e se encontraram na poesia.”

De acordo com a professora, a ideia do livro surgiu após ler e ver as poesias e fotos das alunas. “Elas tinham muitas fotos, então, eu juntei a aula de fotografia com a aula de poesia e chegamos ao nosso livrinho”, explica.

A professora conta que sempre pensa em atividades que acionem o cortax pré-frontal das pessoas, porque nesta fase da vida elas estão condicionadas a viver a rotina e é importante quebrar esse círculo.

Walma Alves, 67 anos, é um exemplo da importância desse tipo de atividade. Depois de se aposentar, ela sentiu que estava entrando em um colapso intelectual e ficou com medo de ter que enfrentar sérios problemas.

“Eu trabalhei por 30 anos, quando me aposentei é como se alguém tivesse tirado tudo de mim Você levanta cedo e fica que nem barata tonta. Eu percebi que do jeito que eu estava eu ia entrar em um colapso intelectual, que poderia me levar a ter Demência ou Alzheimer, e eu fui buscar algo para fazer”, conta, acrescentando que não queria fazer “só atividade de velho, como crochê. Aqui o projeto foge do rotineiro”.

A aluna conta também que o ambiente diverso, junto com as colegas, é muito importante. “Aqui você passa raiva, alegria, você tem uma troca e, às vezes, é contraditória e é neste momento que minha cabeça tem que funcionar, isso é importante para a vida da gente", ressalta.

Persistência

A professora revela que no começo teve dificuldades para quebrar a rotina delas e pediu uma chance para tentar algo novo por um tempo. 

Vamos nos desafiar, me deem uma chance de tentar por um tempo. Se vocês não gostarem, a gente volta para o normal de vocês, mas eu preciso que vocês venham."

Ela acrescentou que sempre tenta fazer algo divertido e diferente, fora do convencional para atrair elas. "Porque eu penso, eu com 60, com 70, com 80 anos, eu vou querer sair de casa para fazer isso? Então eu tento pensar de uma forma que seja atrativo para elas.”

A aluna Miiko Yamada, 80 anos, conta que sempre gostou de escrever e recitar poesia, e que o projeto ajudou a enfrentar a timidez.

Eu fiquei muito feliz com o meu livro, emocionada, faz bem para a saúde, para a ideia, para a vida... Eu já escrevo diário também, às vezes é a mesma coisa, mas é muito bom."

A professora revela que no primeiro dia de aula Miiko disse que iria só assistir, porque é muito tímida. “Esse é um exemplo de evolução. Há dois anos ela nem falava direito, hoje ela fala, responde e até dá entrevista”, brinca a professora, acrescentando que na apresentação de final de ano ela, inclusive subiu ao palco e falou ao microfone, "é um desenvolvimento pessoal enorme", comemora.

Próximos desafios

Além de poesia Barroca que ela está ensinando este ano para o próximo livro, as alunas também estão aprendendo cerâmica fria, aulas de teatro e coral.

“Teatro trabalha muito com a expressão corporal, facial, memória e improviso. Estamos inspirados no Sai de Baixo e nas apresentações do comediante Paulo Gustavo, eu apresento para elas e elas vão se desafiando nessa proposta”, explica.

Iara Fernandes Alvarenga, 64 anos, revela que sempre gostou de poesia e o projeto foi ao encontro do seu interesse. “O que mais gosto aqui é a convivência com pessoas novas. A gente conversa com a coleguinha e percebe que existem dores maiores que a nossa e que, às vezes, uma palavra e um abraço resolvem, isso nos dá um alívio”, afirma.

Sobre o livro

A obra é resultado de meses de atividades que envolveram oficinas de escrita criativa, vivências culturais e passeios fotográficos por diversos pontos de Campo Grande. As imagens foram captadas pelos próprios participantes, a partir de técnicas de composição e edição trabalhadas em aula, sempre com foco na sensibilidade, na memória e no olhar afetivo sobre o Cerrado.

Os textos do livro revelam lembranças, raízes e impressões pessoais, enquanto as fotografias destacam detalhes muitas vezes despercebidos: cores do fim da tarde, ipês, córregos, arquitetura histórica e elementos marcantes da identidade campo-grandense. O lançamento no final do ano passado foi uma exposição da obra, leitura de poemas e um momento de celebração do protagonismo criativo dessas alunas. 

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