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Sobre a coluna

Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.


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O que a idade não conta sobre nós? Quem disse que geração é personalidade?

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Personalidade não se define por idade, alerta a colunista do VIVA, Tati Gracia - Envato
Personalidade não se define por idade, alerta a colunista do VIVA, Tati Gracia

São Paulo - Imaturo. Desatualizado. Duas palavras aparentemente diferentes. Uma aponta para quem teria pouca experiência. A outra, para quem supostamente ficou para trás. Mas talvez tenham mais em comum do que parece.

Uma pesquisa recente com 400 pessoas, entre 18 e 81 anos, mostrou que 24% afirmam desconsiderar opiniões que consideram imaturas. Outros 21% fazem o mesmo com opiniões que julgam desatualizadas.

Jovem demais para saber. Velho demais para acompanhar.

Mudam as palavras, mas o mecanismo pode ser parecido: antes de escutar o que a pessoa tem a dizer, deixamos a idade falar por ela."

A idade pode nos contar alguma coisa sobre a trajetória de alguém. Nunca deveria nos fazer acreditar que já sabemos o restante. Quantas vezes você já achou que sabia como alguém pensava só porque sabia a idade dela?

Quando foi que geração virou personalidade?

Estamos acostumados a ouvir que a Geração Z é imediatista, que Baby Boomers resistem à tecnologia, que Millennials querem propósito, que a Geração X aguenta pressão.

As frases mudam. A lógica é a mesma: transformamos uma data de nascimento em explicação para comportamento.

Nascer em uma época importa. Quem cresceu sem internet encontrou um mundo diferente de quem nunca precisou imaginar a vida sem ela. Quem viveu determinadas mudanças sociais, econômicas e culturais carrega referências construídas naquele contexto.

Isso deixa marcas. Mas marca não é destino. Os rótulos facilitam a nossa leitura do outro. O problema começa quando viram resposta pronta.

Talvez o conflito não seja entre gerações

No MaturiFest 2026, moderei uma conversa entre duas profissionais separadas por quase quatro décadas de idade e que trabalham lado a lado. Entrei naquele painel querendo falar sobre estereótipos e julgamentos. Saí pensando ainda mais sobre valores e propósito.

Talvez muitas diferenças que chamamos de geracionais sejam, na verdade, conversas sobre valores que nunca tivemos."

Isso aparece no trabalho, claro. Mas também entre pais e filhos, avós e netos, amigos. Sempre que pessoas de idades diferentes entendem liberdade, cuidado, dinheiro, respeito ou responsabilidade de maneiras distintas. Pessoas que cresceram em contextos diferentes podem ter aprendido respostas diferentes. O erro é supor que essas respostas pertencem a todos que nasceram na mesma época.

O que nos une mesmo quando discordamos?

Talvez a pergunta mais interessante não seja por que as gerações entram em conflito, mas o que cada pessoa está tentando proteger quando discorda.

Muitas vezes não discordamos sobre o fato em si, mas sobre o significado que damos a ele. Comprometimento pode ser dedicação para uma pessoa e excesso para outra. Estabilidade pode significar segurança ou limitação. Mudar de ideia pode parecer incoerência para uns e adaptação para outros.

Duas pessoas podem discordar sobre como fazer algo e ainda descobrir que estão tentando preservar a mesma coisa. É aí que o propósito ganha outro sentido. Não como uma grande declaração, mas como aquilo que ajuda a lembrar por que estamos juntos naquela conversa, naquela relação, naquele projeto ou naquela família.

Talvez a gente esteja procurando o aprendizado entre gerações no lugar errado. Não é só ensinar uma ferramenta ou passar adiante uma experiência. O encontro mais difícil pode ser outro: conversar sobre o que cada um considera importante, justo ou necessário. Não precisamos concordar sobre tudo para construir juntos. Mas precisamos compreender o que orienta as escolhas do outro.

E os rótulos não aparecem apenas quando discordamos. Eles também aparecem quando decidimos, antes mesmo da experiência, do que imaginamos que o outro é capaz.

Quando o estereótipo fala mais alto

Poucos estereótipos são repetidos com tanta naturalidade quanto este: os jovens dominam tecnologia; os mais velhos têm dificuldade.

Pense em alguém de 60 ou 70 anos que você conhece. Essa pessoa não nasceu usando computador, internet ou celular. Aprendeu tudo isso depois. Às vezes com facilidade, outras errando, pedindo ajuda, insistindo. Como todos nós diante do que ainda não sabemos.

Isso não significa que toda pessoa mais velha tenha facilidade com tecnologia. Assim como nascer em um mundo digital não transforma automaticamente alguém mais jovem em especialista.

Talvez estejamos confundindo familiaridade com capacidade. Familiaridade não é sinônimo de capacidade para aprender. E idade não é evidência de incapacidade.

Há algo paradoxal nisso: muitas pessoas que hoje classificamos como resistentes à mudança atravessaram sucessivas mudanças de tecnologia, comunicação, relações e costumes. Precisaram aprender coisas novas, abandonar outras e se adaptar mais de uma vez."

Envelhecer não significa parar de aprender. Às vezes, significa ter precisado aprender a aprender muitas vezes. E talvez seja justamente na convivência que essas certezas começam a mudar. Porque uma coisa é imaginar como alguém é a partir da idade. Outra é conviver de perto e perceber que a pessoa pode ser muito diferente do que a gente esperava.

Conviver é diferente de estar no mesmo lugar

Vivemos cercados por diferentes gerações. Em casa, nas redes, no consumo, no trabalho. Mas presença não significa relação. A convivência real exige curiosidade. Exige perguntar antes de concluir. É aí que aparecem as contradições que os rótulos não preveem.

A pessoa jovem que prefere estabilidade. A mais velha que adota uma tecnologia antes dos demais. Quem tem pouca idade e muito repertório. Quem acumulou décadas de experiência e ainda precisa aprender. Quem ensina e quem aprende. Muitas vezes, a mesma pessoa faz as duas coisas.

Quando convivemos de verdade, percebemos que a pessoa quase nunca é exatamente como imaginávamos.

Intergeracionalidade não pode ser reduzida à ideia de que os mais velhos ensinam experiência e os mais jovens, tecnologia. Essa imagem é simpática, mas pequena demais."

Talvez os encontros entre gerações precisem menos de manuais sobre “como lidar” com uma geração e mais de espaço para escutar de verdade. Para descobrir o que importa para o outro, o que sua história ensinou e também o que ele ainda está disposto a aprender.

Porque compreender alguém dá mais trabalho do que classificá-lo. Talvez seja também aí que a gente precise mudar a forma como fala sobre gerações.

Geração é contexto, não diagnóstico

Não precisamos parar de falar sobre gerações. Precisamos falar melhor sobre elas. Gerações ajudam a compreender o mundo que encontramos e parte das referências que carregamos. São lentes úteis. Mas nunca deveriam explicar uma pessoa inteira.

Idade conta uma parte da nossa história. O contexto conta outra. Valores, experiências, escolhas, relações e tudo aquilo que ainda aprendemos continuam escrevendo o restante.

Depois de uma hora ouvindo duas mulheres de gerações tão diferentes falarem sobre escolhas, aprendizados e formas de enxergar a vida, uma coisa ficou muito clara para mim: talvez o encontro entre gerações comece quando a gente para de presumir quem sabe mais, quem precisa aprender ou quem deveria dar conta sozinho.

Isso vale para os dois lados. Pessoas mais jovens também podem ter medo de admitir que não sabem, de parecer inexperientes ou de não serem levadas a sério. Pessoas mais velhas podem evitar pedir ajuda para não serem vistas como desatualizadas ou menos capazes.

Quando existe espaço para falar com sinceridade sobre o que sabemos, o que ainda não sabemos e onde temos dificuldade, alguma coisa muda. Fica mais fácil pedir ajuda sem vergonha, ensinar sem arrogância e aprender sem medo de parecer menos capaz.

E talvez seja justamente aí que a diferença de idade deixe de funcionar como barreira e passe a virar troca. Quando a gente escuta o que importa para o outro, entende de onde vêm suas escolhas e reconhece que todas as gerações têm repertório, limites e algo a aprender.

A idade perde o peso de uma explicação pronta e volta a ocupar o lugar que deveria ter: apenas uma parte da história.

Antes de concluir que alguém é jovem demais para saber ou velho demais para aprender, talvez exista uma pergunta melhor: "O que eu ainda não sei sobre você porque achei que a sua idade já tinha me contado?".

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