Público 50+ pode ser 'performático'? Entenda a nova trend da Geração Z
Arquivo pessoal
São Paulo - Você já ouviu o termo performático? A expressão ganhou força nas redes sociais para descrever comportamentos do dia a dia que parecem pensados para serem vistos, registrados ou interpretados por outras pessoas.
A expressão se popularizou ao ser associada à Geração Z, que cresceu usando plataformas como TikTok e Instagram como parte da rotina. Assim, registrar o dia a dia e buscar validação por meio de curtidas e comentários mira apresentar a "vida como conteúdo”.
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Público 50+ pode ser performático?
Segundo especialistas em marketing geracional, o público 50+ também pode ser performático quando passa a adotar esse mesmo padrão de exposição, como ao compartilhar momentos de lazer, hobbies ou hábitos culturais com uma preocupação maior com a estética e a recepção dos seguidores.
Com cada vez mais pessoas 50+ conectadas à internet, cresce também a busca por validação nas redes sociais. A partir disso, surge um comportamento mais "performático", voltado a chamar a atenção de quem acompanha o perfil.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o acesso à internet entre pessoas de 50 a 59 anos continua avançando. Esse grupo passou de 88% de usuários em 2023 para 89,9% em 2024. Em 2016, eram 52,4%.
Para a influenciadora de 53 anos Viviane Nadolny, mais conhecida como Vivi, a tendência dos performáticos está cada vez mais forte mas ainda não compete com a vida real.
Tudo muito intenso, exagerado e feito para chamar atenção rápido. Eu acredito que existe espaço para todos os estilos, mas eu me identifico mais com conteúdos que têm verdade. Gosto de ser espontânea, leve e mostrar a vida real. Acho que as pessoas estão cada vez mais cansadas de personagens e mais conectadas com quem transmite verdade.
A influenciadora afirma que, ao se aceitar mais, passou a criar conteúdos com mais leveza e menos medo da opinião dos outros.
“Depois dos 50, a gente entende que tentar agradar todo mundo é uma prisão. Antes eu pensava mais no julgamento, hoje eu penso na verdade que quero transmitir”, disse.
Vivi relata que muitos influenciadores jovens ainda sentem pressão para seguir tendências e parecer perfeitos, enquanto pessoas 50+ costumam se sentir mais seguras e autênticas.
As mulheres 50+ carregam vivência, cicatriz, história. A autenticidade vem mais natural, porque a gente já cansou de fingir.
Ela conta que já deixou de postar por medo das críticas, mas hoje entende que opiniões negativas sempre existirão. Para Vivi, as influenciadoras 50+ estão quebrando padrões ao mostrar que envelhecer não significa perder espaço, mas continuar vivendo, criando e se expressando com liberdade e autoestima.
“Minha idade influencia em tudo. Na forma como eu me comunico, no meu olhar sobre autoestima, liberdade, família, fé e até no jeito de me vestir. Eu não tento competir com ninguém mais jovem, eu mostro que existe beleza e presença em cada fase da vida”, relata.
Pessoas performáticas são personagens?
Geralmente, pessoas retratadas como performáticas são vistas como personagens ou como alguém que força um comportamento.
A especialista em marketing geracional Queren Hapuque defende que uma pessoa considerada performática não está necessariamente fingindo, e sim agindo como se estivesse construindo uma imagem, algo que pode aparecer até em detalhes do cotidiano.
Acabou virando uma espécie de linguagem própria, até um meme, para descrever comportamentos que parecem mais intencionais, mais 'teatrais' ou pensados para serem percebidos", diz a diretora de novos negócios da agência HAPU.
Em vez de apenas tomar um café, por exemplo, há uma certa “teatralidade” ao retratar esse momento, com a escolha do local, da louça, da iluminação e até do instante ideal para registrar a cena. Ler um livro, fazer cerâmica ou organizar uma rotina de estudos também podem receber esse mesmo cuidado visual e narrativo.
Segundo Queren, essa lógica também existe em outras gerações, mas costuma aparecer em outros espaços, como na forma de se posicionar no trabalho, no grupo de amigos ou em ambientes sociais mais tradicionais.
No caso do público 50+, essa construção de imagem tende a estar menos associada a uma lógica estética ou à expectativa de visibilidade nas redes sociais, como acontece com mais frequência na geração Z.
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A especialista explica que essa discussão passa pela ideia de autenticidade, já que o limite entre viver uma experiência e mostrá-la aos outros fica cada vez menos claro. Com isso, atitudes simples deixam de ser vistas apenas como escolhas pessoais e passam a fazer parte da construção da própria imagem na internet.
"À medida que esse público passa a ocupar mais as redes, ele também entra nesse ambiente de exposição, o que naturalmente traz uma camada maior de curadoria sobre o que é compartilhado. Ainda assim, a diferença central não está na existência do comportamento, mas na forma como ele é percebido", conclui.
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