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Sobre a coluna

Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.


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Quem precisa do seu conhecimento? Novas gerações retomam hobbies antigos

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A geração que nasceu deslizando o dedo na tela agora busca passatempos analógicos - Envato Elements
A geração que nasceu deslizando o dedo na tela agora busca passatempos analógicos

São Paulo - Estamos vivendo mais. E talvez exista uma pergunta sobre a qual conversamos menos do que deveríamos: Quem precisa do conhecimento que acumulamos ao longo da vida?

A geração que nasceu deslizando o dedo na tela agora quer sentir o mundo com as mãos. Aprende crochê em vídeos. Bordado em tutoriais. Cerâmica em plataformas. Fotografia analógica em redes sociais.

Há algo bonito nisso. Mas também há algo que deveria nos inquietar. Afinal, nunca foi tão fácil aprender. E talvez nunca tenha sido tão raro aprender com alguém.

O que a tela ensina e o que a relação transforma

O digital ensina. E ensina rápido. Mas ele não ensina tudo. O ponto não é o digital. Não é condenar a tecnologia ou romantizar um passado que não volta. O ponto é o que ficou de fora quando o aprendizado virou consumo.

Um tutorial mostra o gesto correto. Mas não ensina o contexto. Não ensina a convivência. Não ensina o que acontece entre uma tentativa e outra. A tecnologia escala acesso. Mas não substitui presença.

Hobbies como crochê, fotografia e cerâmica voltaram. Voltaram com força. Mas voltaram mediadas por tela.

O conhecimento não desapareceu. Ele mudou de canal. E ao mudar de canal, perdeu algo que não cabe em algoritmo: o encontro."

Há algo que um vídeo nunca vai ensinar. O que significa estar presente. O que significa ser visto errando e continuar tentando. O que significa escutar alguém contar sobre a vida enquanto ensina um ponto. O que significa saber que há uma pessoa do outro lado que acredita que você consegue. Isso não é detalhe. É tudo.

O que nenhum tutorial consegue sustentar

Se uma jovem pode aprender crochê com um vídeo, talvez também pudesse aprender com uma avó. Com uma vizinha. Com uma tia. Com alguém que não ensina apenas o ponto certo, mas também o tempo, a pausa, a história e o gesto.

Aprender com alguém não é só adquirir uma habilidade. É sustentar tempo. É lidar com o erro sendo visto. É escutar o que não estava no roteiro. É aprender também sobre gente. É relação.

O algoritmo não julga. Não se impacienta. Não corrige com silêncio. Mas também não cria vínculo. E vínculo não é detalhe em uma sociedade que nunca esteve tão conectada e, ao mesmo tempo, tão sozinha.

Quando você aprende com alguém, você não apenas adquire uma técnica. Você aprende que há pessoas que acreditam em você. Que há espaço para o erro. Que há história dentro das coisas. Que há tempo para respirar. Isso não cabe em cinco minutos.

Geração prateada não é passado. É repertório

Esses saberes nunca deixaram de existir. Eles continuam vivos em outras gerações. Continuam nas mãos de quem tem 50, 60, 70, 80 anos. Continuam nos gestos, nas técnicas, nas histórias que ninguém pediu para contar. Mas, em vez de criar ponte, muitas vezes criamos distância.

A geração prateada não perdeu relevância. Ela perdeu visibilidade”.

No Brasil, 79% dos jovens buscam hobbies offline. Querem sair da tela. Querem sentir as coisas nas mãos. E ainda assim, aprendem majoritariamente sozinhos.

A contradição está posta: a geração mais conectada da história busca o offline, mas muitas vezes aprende sem relação. Aprende sem presença. Aprende sem encontro.

O problema não é a falta de conhecimento. Há conhecimento em abundância. O problema é a falta de ponte entre quem sabe e quem quer aprender. Entre gerações que convivem cada vez mais, mas trocam cada vez menos.

Quando gerações vivem em paralelo, todos perdem repertório. E uma sociedade que vive mais precisa criar mais espaços de troca, não apenas mais espaços de acesso à informação.

Intergeracionalidade não é teoria, é comportamento

Aprender com o outro exige mais do que clicar. Exige vulnerabilidade. Exige que você se coloque em posição de não saber. Exige que você acredite que há algo para aprender com alguém que tem outra idade, outra história, outro tempo de vida.

Há algo que acontece quando você aprende com alguém: você se sente visto. Você se sente importante. Você se sente capaz de errar e continuar. Isso não é pequeno. É o que sustenta a confiança para continuar aprendendo.

E há algo mais que acontece quando você ensina algo que sabe: você se reposiciona. Deixa de ser alguém que envelhece para ser alguém que contribui. Que importa. Que segue sendo necessário. Em uma sociedade que muitas vezes tenta colocar quem tem 50, 60, 70, 80 anos para fora, ensinar é um ato de reafirmação.

Talvez a pergunta não seja onde aprender. Talvez seja outra. Mais desconfortável: por que desaprendemos a aprender com o outro?

Antes de abrir um novo tutorial, talvez valha tentar algo mais difícil: perguntar. Para alguém que sabe. Para alguém que viveu. Para alguém de outra geração.

Não porque seja mais rápido. Porque é mais completo. Mais verdadeiro. Mais humano. Porque, no fim, a pergunta que nos guia permanece a mesma: "o que estamos perdendo quando deixamos de aprender com o outro?"

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