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Sobre a coluna

Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.


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Uma conversa sobre como se cuidar num mundo que envelhece rápido

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Proposta da coluna é abordar comportamento das gerações com mudanças de olhar para o envelhecimento - Envato
Proposta da coluna é abordar comportamento das gerações com mudanças de olhar para o envelhecimento

São Paulo - A cena é mais ou menos assim: você ajuda um filho, acompanha a saúde dos seus pais, pensa nos boletos, muda de carreira, lembra da consulta que remarcou pela terceira vez e, se ainda estiver trabalhando, dá um jeito de entregar o que o chefe pede tentando não ficar por fora das inteligências artificiais. Tudo isso aos 50, 60, 70 anos.

Essa é a nova cara da longevidade: mais anos de vida, mais responsabilidades, mais gente contando com você e quase nenhuma conversa franca sobre como sustentar esse ritmo sem se perder de si.

É desse lugar que eu falo. Sou Tati Gracia, analista comportamental e gerontóloga, e meu trabalho é analisar o comportamento das gerações em um mundo que está envelhecendo rápido.

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Gosto de partir de uma pergunta que, para mim, é central: 'o que está em jogo quando vivemos mais do que planejamos?”


No Brasil, já somos 59 milhões de pessoas com mais de 50 anos, segundo a ONU (2024). Isso representa 27% da população. A cada 20 segundos, alguém cruza essa fronteira simbólica. Em duas décadas, quatro em cada dez brasileiros terão passado dos 50. Não se trata de um grupo “especial”: é a nova cara do País.

Longevidade não é só viver mais tempo. É sobre como vivemos esse tempo: com quanta autonomia, quanta dignidade, que tipo de vínculos, trabalho e renda conseguimos sustentar. Sem estrutura, os anos extras deixam de ser conquista e viram dívida de saúde, de recursos e de qualidade de vida.

Essa dívida não se distribui igual entre as gerações. Hoje, convivem na mesma família pais muito longevos, filhos adultos pressionados pela economia, netos em formação e um grupo 50+ no meio disso tudo, fazendo pontes e segurando as pontas. Não é “um problema dos idosos”; é uma reorganização completa de papéis e responsabilidades ao longo da vida.

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Quem tem 50, 60, 70 anos hoje continua movimentando a economia, sustentando famílias, empreendendo, trabalhando, ajudando a viabilizar o projeto de vida de outras gerações. Ao mesmo tempo, sente de forma muito concreta o peso dos custos da própria longevidade, especialmente em saúde e cuidado."

Quando olho para o comportamento geracional, vejo um paradoxo muito claro: nunca tivemos tantas pessoas chegando aos 60 e 70 anos com vitalidade e desejo de continuar contribuindo, mas ainda pensamos a vida como se ela tivesse pontos de chegada definitivos. Aposentou, para. Essa lógica está em conflito com a realidade, e é aí que nasce boa parte da angústia de quem está vivendo mais do que imaginava.

A longevidade reposiciona todas as gerações ao mesmo tempo. Muda a forma como planejamos carreira, família, dinheiro, moradia, saúde. Sem conversa, cada geração improvisa como pode, e improviso tem limite.

É aqui que entra um conceito central: a economia do cuidado. Cuidar tem custo de tempo, dinheiro e energia emocional. Esse custo atravessa todas as idades, mas se acumula com força na geração 50+, que muitas vezes cuida dos mais velhos e apoia os mais novos.

Quando esse cuidado não é planejado, compartilhado e reconhecido, vira sobrecarga, culpa e esgotamento. Sem planejamento, a longevidade pode significar apenas prolongar o cansaço.

O que mais me chama atenção é o quanto evitamos falar sobre isso. Evitamos conversar sobre dinheiro entre gerações. Evitamos discutir onde e como cada um quer envelhecer. Evitamos tocar no tema dependência, como se ignorar adiasse a necessidade de decidir. Só que a longevidade não espera o nosso timing emocional. Ela já está em curso.

Novo olhar, em quatro etapas

Para abrir esta coluna, quero propor algumas mudanças de olhar. A primeira é parar de tratar a longevidade como exceção. Viver mais é o novo padrão. A pergunta não é mais “se” vamos viver mais, e sim de que maneira queremos organizar essa etapa da vida que agora se estende por tantos anos.

A segunda é enxergar a vida em ciclos, não em degraus finais. Aos 50, 60, 70, seguimos começando coisas: relações, projetos, aprendizados, trabalhos. Muda o ritmo, mudam as prioridades, mudam as pessoas, mas não acaba o movimento.

A terceira é trazer o cuidado para o centro das decisões. “Planejar não é pessimismo; é responsabilidade com o seu futuro e com quem caminha com você.” Planejar onde e como você quer envelhecer. Planejar de que forma pode e quer apoiar outras gerações, e até onde isso é possível sem se perder de si.

E, por fim, uma quarta etapa, substituir silêncio por conversa.

Conversas difíceis aliviam pesos invisíveis - entre pais e filhos, entre irmãos, entre parceiros. Falar sobre dinheiro, limites e expectativas. Falar sobre o que é possível, sobre o que não é mais, sobre o que ainda pode ser."

A longevidade que estamos vivendo hoje é inédita. Não temos um manual pronto e isso é, ao mesmo tempo, desafiador e potente. Significa que temos espaço para criar novos arranjos de vida, novas formas de trabalhar, de morar, de se relacionar entre gerações.

Aqui, nesta coluna, meu compromisso é justamente esse: trazer o olhar do comportamento e das gerações para a longevidade real, a que acontece no corpo, na casa, nos boletos, nos afetos. Sem romantizar, sem melancolizar. Mas acolher e empatizar.

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Obrigada por chegar até aqui comigo. Sei que, depois dos 50, tempo não é um recurso qualquer, é escolha. Minha proposta é que este seja um espaço de respiro, reflexão e prática: para você se enxergar, questionar alguns roteiros prontos e, se fizer sentido, ajustar rotas na sua própria história.

Se algo desse texto conversou com a sua vida, leve essa conversa para dentro de casa, para o trabalho, para seus círculos. E volte para continuarmos esse diálogo.

É no encontro entre experiências e gerações que a longevidade ganha sentido.”

Porque, no fim, a pergunta que nos guia permanece a mesma: “o que está em jogo quando vivemos mais do que planejamos?”

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