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Tatuadores 60+ contam história da tattoo no Brasil, do porto às redes sociais

Ana Mello/VIVA

Toni Cotrim (à esquerda) e Sérgio Leds (à direita) são nomes de referência da tatuagem no Brasil - Ana Mello/VIVA
Toni Cotrim (à esquerda) e Sérgio Leds (à direita) são nomes de referência da tatuagem no Brasil
Por Emanuele Almeida

14/07/2026 | 11h24 ● Atualizado | 11h25

São Paulo - Para quem vê hoje estúdios modernos de tatoo em shoppings é difícil imaginar que a tatuagem brasileira nasceu em um cenário de improviso e resistência. Como conta Toni Cotrim, 71, com cinco décadas de agulha, o marco inicial foi o porto: o lendário dinamarquês Lucky Tattoo estabeleceu-se em Santos, trazendo a primeira máquina profissional ao País. No estúdio dele estava escrito: "se não tem uma tatuagem, não é marinheiro'", conta Toni, que aos 16 anos conheceu o pioneiro.

Na época, ter desenhos incrustados no corpo era um ato de rebeldia e visto com maus olhos.

A tatuagem era uma coisa muito exótica... era uma transgressão".
Toni Cotrim em pé em seu estúdio com os braços cruzados
Toni Cotrim em seu Skink Tattoo, na Zona Norte de São Paulo - Manuela França/VIVA

Naquela época, ser tatuador exigia ser também um inventor. Como não havia insumos no Brasil, Toni precisava fabricar as próprias máquinas. Ele detalha que até a tinta era um desafio: usavam nanquim importado, que precisava decantar por um mês para que o pigmento ficasse concentrado o suficiente para a pele. 

Havia também quem tatuasse "à mão", amarrando agulhas em bambus, técnica que Toni aprendeu na Bahia antes de abrir o primeiro estúdio de Salvador. Hoje, ele possui o estúdio Skink Tattoo, há 18 anos instalado na Zona Norte de São Paulo. 

Já Sérgio Leds, 64 anos, outra referência da tatuagem paulistana, relata os percalços de ser tatuado e tatuar em um Brasil que ainda desconhecia a arte por trás dos traços na pele.  

Sergio Leds sentado em um sofpa, ele sorri para a foto
Sérgio Leds foi precursor em realizar remoção de tatuagem e tatuagem reconstrutiva em cicatrizes - Ana Mello/VIVA
Treinei bastante em pele de porco e peixe sem escama", recorda Leds. 

Fundador do Leds Tattoo, famoso estúdio paulista, ele conta que o início de sua carreira foi marcado pelo improviso e pela escassez de recursos, começando em um fundo de quintal. Ele contava com amigos comissários de bordo para trazer material do exterior. 

“Naquela época, não havia cursos ou pessoas que ensinassem a profissão", afirma. A estimativa era que no final da década de 80 existissem apenas entre oito e dez tatuadores em todo o Brasil. 

Quando a tatuagem ficou pop?

A democratização da tatuagem no Brasil é descrita pelos veteranos como uma transição radical de uma prática marginal para um adorno socialmente aceito e onipresente.

foto antiga com tatuador Lucky em seu estúdio
Knud Harald Lykke Gregersen, mais conhecido como Tattoo Lucky, foi o primeiro tatuador profissional no Brasil - Reprodução/Memória Santista

No entanto, a percepção pública mudou à medida que surfistas e personalidades adotaram a arte, diluindo gradualmente o preconceito. Paralelamente, Sérgio Leds atuou na linha de frente dessa mudança, utilizando programas de televisão para defender a tese de que a tatuagem é uma "joia" ou adorno que não define o caráter ou o potencial profissional de um indivíduo. 

Ele participava de rodas de conversa que reuniam médicos, advogados e pastores para discutir se a tatuagem prejudicava a obtenção de empregos. Além disso, Leds participou de programas televisivos, como o Big Brother Brasil, nos quais ele tatuava convidados ao vivo para demonstrar os protocolos de assepsia, higiene e cuidados, buscando mostrar que a tatuagem era uma técnica bem executada e segura. 

Das “flashes” ao ultrapersonalizado

A forma como consumimos tatuagem mudou radicalmente. Antigamente, o cliente entrava em uma loja de rua e escolhia um desenho em pastas ou quadros na parede, os chamados flashes

Toni Cotrim tatuando uma pessoa e ao lado ele editando o desenho de uma tatuagem no computadorq
Hoje, Toni Cotrim é especializado em tatuagem no estilo gravura e tatua pessoas de diversas idades - Reprodução/Instagram @toniskink
Você escolhia um desenho, tatuava e ele voltava para a pasta para outra pessoa fazer igual", diz Toni Cotrim.

Ele observa também que esse esquema mudou com a chegada de programas de TV como Miami Ink, que introduziram o conceito de tatuagem customizada, baseada em histórias emocionais dos clientes.

A transição do modelo de catálogos prontos para a exclusividade absoluta não foi apenas uma mudança estética, mas uma revolução técnica e comportamental no modo de criar arte na pele. “Como o cliente escolhia qualquer desenho da pasta, o tatuador tinha que saber executar do realismo ao oriental, passando pelo tribal e o old school, para não perder o serviço”, relembra. 

Toni Cotrim mostra agulhas=
Toni guarda em seu estúdios os diversos tipos de máquinas de tatuar que já usou - Manuela França/VIVA

Agora, a excelência é medida pela especialização em nichos, onde o artista foca em um estilo único — como o Fine Line, o Blackwork ou a Gravura — e é buscado especificamente por essa identidade autoral. 

Ele próprio, que por anos foi generalista e fazia muito realismo, decidiu nichar seu trabalho no estilo de gravura clássica para conseguir se divulgar melhor nas mídias sociais. No estilo gravura, ele se mantém relevante na era das mídias sociais e atrai um público mais maduro, entre 30 e 50 anos, interessado em estéticas clássicas.

"Hoje, os tatuadores que não se especializam ficam para trás. Para se destacar na internet entre tantos profissionais, não basta apenas tatuar bem; é preciso encontrar um nicho e ser um produtor de conteúdo”. 

Leds considera que a migração para estilos específicos — como realismo preto e branco, colorido, geek, tribal, pontilhismo ou fine line — é algo "natural". Ele mesmo seguiu um caminho de especialização muito específico na tatuagem reconstrutiva – pigmentação de aréolas e cobertura de cicatrizes –, um trabalho focado na autoestima que ele desenvolve paralelamente à tatuagem tradicional. 

Para Sérgio Leds, a longevidade na profissão representa o amadurecimento e também a oportunidade de transformar sua arte em uma ferramenta social,  utilizando sua maestria no realismo para resgatar a autoestima de pacientes oncológicas e cicatrizar marcas emocionais. E pensar que a tatuagem, após décadas de prática, passou de rebeldia a um serviço  de bem-estar. 

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