Doença de Newcastle: governo descarta risco no consumo de carne de aves
Caso confirmado em uma unidade de produção de perus da MBRF em Santa Catarina levou a medidas sanitárias e a restrições comerciais
Por Broadcast
22/10/2026 | 12h31Adobe Stock
Um foco da Doença de Newcastle foi identificado em uma granja de perus em Santa Catarina, levando à suspensão temporária das exportações de produtos avícolas para países como China, Chile e Arábia Saudita, embora a carne comercializada no Brasil permaneça segura para consumo.
Em 2025, Santa Catarina foi responsável por 44,82% das exportações brasileiras de carne de peru, com o mercado interno absorvendo 51,85% da produção, o que pode ajudar a mitigar os impactos das restrições comerciais.
O governo brasileiro declarou emergência zoossanitária em quatro municípios e implementou medidas de controle, incluindo a sacrifício das aves afetadas e a restrição de 133 propriedades próximas, enquanto busca flexibilizar as restrições com os parceiros comerciais.
Brasília e São Paulo – Um foco da Doença de Newcastle foi detectado no começao desta semana em uma unidade de produção de perus da MBRF em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina, mas a carne de peru comercializada no Brasil não oferece risco ao consumo. Segundo o Ministério da Agricultura, os produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanecem seguros e sem contraindicações e descartou a necessidade de recolhimento de mercadorias.
A confirmação do caso, feita em 19 de outubro pelo Ministério da Agricultura, levou à adoção de medidas sanitárias e à suspensão temporária das exportações de produtos avícolas catarinenses para alguns parceiros comerciais, como China, Chile e Arábia Saudita. O alcance das restrições varia conforme os protocolos bilaterais, com suspensões que atingem produtos de Santa Catarina e, em alguns mercados, mercadorias provenientes de todo o território nacional.
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O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, avalia que o mercado interno pode absorver parte da produção que eventualmente deixar de ser exportada. “Se fecharem o Estado de Santa Catarina, uma opção é vender esse produto dentro do País”, afirmou ao Broadcast Agro, ao comentar possíveis alternativas comerciais diante das restrições de importadores.
Segundo o relatório anual da ABPA, o mercado doméstico absorveu 51,85% da produção brasileira de carne de peru em 2025. Das 136,74 mil toneladas produzidas no País, 65,84 mil toneladas, ou 48,15%, foram destinadas ao mercado externo, enquanto o consumo interno respondeu por 51,85% do volume.
Santa Catarina concentrou 44,82% das exportações brasileiras de carne de peru no ano passado, com 29,49 mil toneladas embarcadas. O Rio Grande do Sul respondeu por 32,08% dos embarques, com 21,10 mil toneladas, e o Paraná, por 22,61%, com 14,88 mil toneladas.
Restrições às exportações
A China suspendeu a importação de carne e produtos cárneos de aves provenientes de Santa Catarina após a confirmação do foco de Newcastle. A medida retirou temporariamente a habilitação de 14 frigoríficos do Estado que estavam autorizados a exportar ao país asiático.
Inicialmente, o Ministério da Agricultura havia suspendido cautelarmente as exportações de carne de aves de todo o Brasil para a China, em cumprimento ao protocolo sanitário entre os dois países. A autoridade chinesa, entretanto, comunicou ao governo brasileiro que limitaria a restrição a Santa Catarina, e o ministério ajustou a suspensão.
O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Augusto Billi, afirmou que a decisão reduz o impacto comercial do episódio. “Santa Catarina respondeu em 2025 por cerca de 20% das exportações de carne de aves para a China. Com a limitação do embargo, reduzimos o impacto preservando os outros 80% exportados”, disse.
Segundo dados do Agrostat, sistema de estatísticas de comércio exterior do agronegócio do ministério, Santa Catarina exportou US$ 114,730 milhões em carne de frango, peru, pato e ganso para a China em 2025, o equivalente a 53,657 mil toneladas. No total, o Brasil embarcou US$ 599,969 milhões desses produtos para o país asiático, somando 247,942 mil toneladas.
Além da China, as exportações de produtos avícolas de Santa Catarina estão suspensas para a Arábia Saudita, no caso de carne e produtos cárneos de aves, e para o Chile, que restringiu uma lista mais ampla de produtos, incluindo ovos férteis, pintinhos de um dia e carne fresca de aves.
As exportações de determinados produtos avícolas de todo o Brasil estão temporariamente suspensas para a Malásia e o México. No caso mexicano, a restrição abrange aves vivas, carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias e aves ornamentais, entre outros produtos.
Outros mercados estabeleceram restrições limitadas à carne de aves catarinense, conforme os protocolos sanitários acordados com o Brasil. Para 38 mercados, o Ministério da Agricultura informou que a suspensão cautelar da certificação de exportações de carne de aves está limitada ao raio afetado, que pode corresponder ao município ou a uma área de 10 ou 25 quilômetros do foco, dependendo das regras de cada país.
Billi afirmou que o governo brasileiro buscará flexibilizar as restrições com os demais parceiros comerciais. “Faremos o pedido ao México, que suspendeu as importações de todo o País, e com cada destino. Grande parte dos mercados já limitou o embargo ao raio do foco, mas iremos negociar para reduzir a restrição durante esses 90 dias até nos declararmos novamente livre de Newcastle”, explicou.
O secretário acrescentou que o Brasil notificou a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e comunicou a ocorrência aos países parceiros. Segundo ele, a limitação adotada pela China é resultado da intensificação do relacionamento bilateral e da confiança entre os dois países.
Controle sanitário
O Ministério da Agricultura confirmou o foco em uma granja comercial de perus com cerca de 6 mil aves. Segundo o secretário de Defesa Agropecuária substituto, Allan Alvarenga, os animais da propriedade não apresentavam sintomas clínicos e não haviam saído da granja, portanto não foram destinados à produção de carne para consumo.
“Não há risco para a população em relação ao consumo dos produtos. Não há recolhimento de produto, não há devolução de aves para a granja”, afirmou Alvarenga em entrevista coletiva. As aves serão sacrificadas e descartadas, e as instalações passarão por limpeza e desinfecção.
O foco foi confirmado pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária em São Paulo (LFDA-SP), reconhecido como unidade de referência para influenza aviária e Doença de Newcastle pela OMSA. O serviço veterinário oficial adotou as medidas previstas no Plano de Contingência de Influenza Aviária e Doença de Newcastle, com restrições a propriedades próximas e suspensão da saída de aves da granja afetada. Ao todo, 133 propriedades foram colocadas sob restrição para acompanhamento do caso.
O governo também declarou emergência zoossanitária em quatro municípios catarinenses: Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. A origem da infecção ainda não foi identificada.
A Doença de Newcastle é uma enfermidade viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres e pode provocar sinais respiratórios seguidos por manifestações nervosas. É de notificação obrigatória à OMSA.
Este é o segundo caso registrado da doença em produção comercial no Brasil. O primeiro ocorreu em 17 de julho de 2024, em um estabelecimento de avicultura comercial de corte em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. Na ocasião, o foco foi debelado em menos de dez dias, com a conclusão do caso notificada em 25 de julho daquele ano.
Desempenho das exportações
Antes da confirmação do foco, as exportações brasileiras de carne de aves e miudezas comestíveis somaram 292.970 toneladas na parcial de outubro, até a terceira semana do mês, com receita de US$ 561,728 milhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Considerando 11 dias úteis, a média diária de embarques foi de 26.634 toneladas, alta de 23,62% em relação às 21.544 toneladas por dia registradas em outubro de 2025.
O faturamento médio diário avançou 41,49%, para US$ 51,07 milhões, enquanto o preço médio por tonelada aumentou 14,46%, de US$ 1.675,20 para US$ 1.917,36. O alcance das restrições e seu impacto sobre os embarques brasileiros dependem das decisões dos países importadores.
Por sua participação nas exportações nacionais, Santa Catarina tem peso relevante também no comércio externo de carne de frango. O Estado respondeu por 23,28% dos embarques brasileiros do produto em 2025, com 1,20 milhão de toneladas, segundo a ABPA.
(Por Isadora Duarte e Leandro Silveira)
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