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Justiça determina que caso da PM morta seja investigado como feminicídio

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Gisele Alves Santana, soldado da PM, foi encontrada morta devido a um disparo - Reprodução/Facebook
Gisele Alves Santana, soldado da PM, foi encontrada morta devido a um disparo
Por Estadão Conteúdo

11/03/2026 | 16h37

São Paulo - A Justiça de São Paulo determinou nesta terça-feira, 10, que a polícia investigue a morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada morta em casa com um tiro na cabeça, como feminicídio.

Segundo o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, a esposa teria tirado a própria vida dentro de casa no dia 18 de fevereiro, em um apartamento localizado no Brás, região central de São Paulo, momentos depois de uma discussão na qual ele teria proposto a separação do casal. Na versão do policial, ele estava no banho no início da manhã daquele dia quando ouviu o barulho de um disparo e, em seguida, encontrou Gisele já baleada no chão.

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A morte chegou a ser registrada como suicídio, mas a classificação mudou após a família de Gisele afirmar que a soldado sofria abusos e violência por parte do marido. O caso passou, então, a ser tratado como morte suspeita.

Agora, a juíza Giovanna Christina Colares determinou que o caso seja redistribuído para uma Vara do Tribunal do Júri, onde são julgados crimes contra a vida, atendendo a um pedido feito "a partir da natureza do delito investigado".

Na última sexta-feira, 6, a Justiça determinou a exumação do corpo de Gisele e, de acordo com o laudo, ao qual o Estadão teve acesso, peritos constataram lesões na face e região cervical da vítima. "São lesões contundentes, por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal (causado por unha)", aponta o laudo. O documento indica ainda que não foram observadas lesões típicas de defesa.

Procurada para comentar as informações, a defesa de Geraldo Leite Rosa Neto informou que não teve acesso ao laudo. Em comunicados anteriores, os defensores afirmaram que o tenente-coronel "não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento em curso" e que, desde o início das apurações, o policial "tem colaborado com as autoridades".

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Indícios de feminicídio

Diante das informações, fontes da Polícia Civil ouvidas pela reportagem entendem que há possibilidade de haver o pedido de prisão de Geraldo Neto e que as investigações encontraram divergências em relação à versão apresentada por Geraldo Neto. Um dos socorristas que atendeu a ocorrência, ouvido pela polícia, afirmou que o tenente-coronel não parecia ter saído do banho conforme alega o militar. Ele estaria seco e o imóvel não apresentava marcas de água pelo apartamento, disse.

O mesmo socorrista também disse que a arma estava bem encaixada na mão de Gisele - algo que, segundo ele, nunca havia visto em 15 anos de profissão em casos de suicídio - e que o sangue da policial já estava coagulado. Os depoimentos foram divulgados pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo, 8.

Outro indício considerado pela polícia é o tempo que o tenente-coronel teria levado para pedir socorro para a esposa após o disparo. Isso porque, segundo uma vizinha, o estampido do tiro teria sido ouvido por ela às 7h28, enquanto a primeira ligação feita pelo policial para pedir ajuda ocorreu às 7h57 - quase 30 minutos depois.

"Essa lacuna precisa ser explicada. A família merece saber o que aconteceu", disse o advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, à reportagem do Fantástico.

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Relacionamento conturbado

Gisele era casada com o tenente-coronel e tinha uma filha de 7 anos de outro relacionamento. Em depoimento à polícia, a mãe de Gisele afirmou que a relação era conturbada e que Geraldo seria abusivo e violento, proibindo a mulher de usar batom, salto alto e perfume e cobrando a realização das tarefas domésticas de forma rigorosa.

Ainda segundo depoimento da mãe de Gisele, quando a soldado mencionou a intenção de se separar do marido, ele enviou pelo celular uma foto em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.

No boletim de ocorrência, o tenente-coronel afirma que os dois se conheceram em 2021 e se casaram em 2024. Os problemas no relacionamento teriam começado em 2025 e são atribuídos por Geraldo Neto a uma mudança de batalhão.

O tenente-coronel afirmou ter sido alvo de denúncias anônimas na Corregedoria da PM, motivadas por vingança de colegas do novo local de trabalho, com fofocas falsas de um relacionamento extraconjugal. Quando o boato chegou até Gisele, ela teria tido uma crise de ciúmes e os dois passaram a brigar com frequência e a dormir em quartos separados.

Geraldo Neto relatou que, no dia em que ela morreu, ele foi ao quarto propor a separação. Segundo o depoimento, Gisele teria se levantado exaltada, mandado que ele saísse e batido a porta. Em seguida, ele afirma que foi tomar banho e ouviu um barulho que pensou ser uma porta batendo. Ao sair do banheiro, ele teria encontrado Gisele caída no chão.

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'Nunca levantei a mão'

Em entrevista à TV Record nesta quarta-feira, o tenente-coronel Geraldo Neto falou pela primeira vez sobre o caso e negou ter matado a policial militar. O policial diz que estava no banheiro quando ouviu um barulho forte e que ao abrir a porta encontrou a mulher caída na sala com um tiro na cabeça na manhã do dia 18 de fevereiro.

"Eu estava no banho e escutei um barulho forte. Não desliguei o chuveiro, apenas abri o box. Quando eu abri o box, eu abri um pedacinho da porta. Achei que ela estivesse em pé na porta do banheiro querendo falar comigo. Quando eu abri a porta deu pra ver. Ela estava caída no meio da sala com a cabeça no chão. Tinha uma poça de sangue se formando ao lado da cabeça. Foi a cena mais traumatizante... a pior cena que já vi em toda a minha vida", afirmou.

O tenente-coronel afirmou que "tem a consciência tranquila" e que nunca agrediu a mulher. “Eu nunca levantei a mão para a minha esposa. Eu nunca a agredi. Eu tenho a consciência tranquila com Deus, com a Gisele", afirmou.

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Neto negou ter alterado a cena do crime. Ele afirmou que acionou o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar (PM) e o SAMU para o resgate.

A primeira coisa que fiz foi abrir a porta do apartamento e liguei para o 193, 192, 190", disse.

Segundo o tenente-coronel, ele contou à mulher que gostaria de se divorciar, mas negou que os dois tenham discutido na manhã em que Gisele foi encontrada morta.

"Acordei por volta das 7h10, fiz minhas orações, fui até o quarto dela. Estávamos dormindo separados há oito meses. Bati na porta do quarto, dei bom dia e falei: 'depois da conversa que tivemos ontem à noite, acho melhor a gente se separar mesmo'. Ela estava deitada na cama, com o celular na mão. Ela levantou, me empurrou, eu saí do quarto e ela bateu a porta com muita força", disse.

Segundo Neto, as marcas no pescoço da vítima podem ter sido causadas pela filha de Gisele, uma criança de sete anos, durante um passeio. O tenente-coronel diz que a enteada costumava ser carregada no colo da mãe e apoiava as mãos no pescoço dela.

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