Mary Del Priore
Colunista VIVA
07/08/2026 | 14h05
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Historiadora e doutora pela FFLCH/USP, pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, é autora de mais de 50 livros de História do Brasil, premiada no Brasil e exterior.
Orgasmo, histeria e companhia - a história do controle sobre o corpo feminino
Envato
Teresópolis (RJ) - Leio na imprensa sobre o debate entre cientistas americanos a respeito da história do orgasmo feminino. O vibrador teria sido criado para tratar a histeria? Médicos do século XIX provocariam o orgasmo de suas pacientes como forma de terapia? A controvérsia, longe de ser apenas curiosa, convida a olhar para uma história muito mais antiga.
Em 1559, o anatomista italiano Renaldus Columbus identificou e descreveu o clitóris como a "fonte do prazer feminino". A descoberta, contudo, teve pouco impacto. Durante séculos prevaleceu a tradição herdada de Galeno, segundo a qual a mulher era apenas uma versão imperfeita do homem: seus órgãos genitais corresponderiam aos masculinos, apenas recolhidos para o interior do corpo. Serviriam, acima de tudo, para gerar filhos.
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A mesma concepção atravessou a medicina medieval e chegou aos médicos portugueses da época moderna. Repetindo Aristóteles, Galeno e outros autores antigos, descreviam a matriz e os ovários apenas em função da procriação.
O clitóris e o prazer feminino praticamente desapareciam dos tratados médicos porque não interessavam à reprodução."
Muito antes das discussões contemporâneas sobre orgasmo ou vibradores, a história da medicina revela um fato essencial: durante séculos, o corpo feminino foi definido quase exclusivamente por sua capacidade de conceber.
Acessórios das antigas
Isso, porém, não significa que as mulheres ignorassem o próprio prazer. Muito ao contrário. Era, muitas vezes, no silêncio que elas buscavam o orgasmo. Na Lisístrata, de Aristófanes, o olisbos — um objeto fálico confeccionado em couro — aparecia como alternativa mais discreta do que um amante, cuja presença poderia comprometer a honra da família.
Na Idade Média, Alberto Magno, preocupado com a fecundidade do casamento, recomendava aos maridos recorrer à "mão amiga" para estimular a esposa. Na Idade Moderna, os sex toys passaram a ser revestidos de veludo ou seda. Na Londres do século XVII eram vendidos em Leicester Square, em pleno centro da cidade, à vista de todos.
Na França, Madame Marguerite Gourdain recebia membros da alta sociedade para seus "amáveis serviços". Foi ali que se popularizou a palavra consolateur — "consolador".
No Brasil, desde a primeira visitação do Santo Ofício tornou-se conhecida uma mulher apelidada de "a do veludo", referência a um desses artefatos. No século XVIII, enquanto conventos franceses registravam o uso de velas e círios, por aqui o poeta baiano Gregório de Matos divertia-se oferecendo a uma freira um enorme cará. Na falta do veludo, legumes cumpriam a mesma função.
Patente para tratar a "histeria"
A Revolução Industrial transformou esse mercado. A borracha tornou os objetos mais resistentes, mais realistas e mais baratos. Pouco depois, a eletricidade permitiu o surgimento dos primeiros vibro-massageadores.
Em 1883, o médico inglês Joseph Mortimer Granville patenteou um desses aparelhos, destinado ao tratamento de dores musculares e de diferentes enfermidades. Mais tarde, estabeleceu-se a hipótese de que instrumentos semelhantes teriam sido empregados no tratamento da chamada histeria feminina, embora essa interpretação continue sendo objeto de intenso debate entre historiadores.
A histeria, afinal, era filha de uma antiga convicção: a de que a sexualidade feminina precisava ser disciplinada. Desde a Antiguidade repetia-se que as mulheres eram naturalmente mais sensuais, volúveis ou insaciáveis. Caberia ao casamento, à maternidade ou à vigilância moral domesticar esses impulsos.
A medicina, a religião e o direito uniram-se, durante séculos, para controlar o corpo feminino muito mais do que para compreendê-lo."
Talvez aí resida a verdadeira história do orgasmo feminino. Não a dos vibradores, dos tratados médicos ou dos diagnósticos de histeria, mas a de um prazer sistematicamente silenciado pelos discursos masculinos. Porque, se médicos, juristas e homens da Igreja pouco se interessaram por ele, dificilmente se poderá afirmar o mesmo das mulheres. Longe dos consultórios, dos púlpitos e dos tribunais, elas certamente aprenderam a conhecer o próprio corpo. O prazer feminino não foi descoberto por Renaldus Columbus. Apenas ganhou, com ele, um nome anatômico.
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