Sobrecarga, idadismo e filhos afastam eleitores 70+ das urnas
Tânia Rêgo/Agência Brasil
São Paulo - Para o pleito de 2026, os dados demográficos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam um eleitorado de 17,2 milhões de cidadãos com 70 anos ou mais, dos quais 9,7 milhões são mulheres e 7,4 milhões são homens.
Trata-se de uma parcela expressiva da população brasileira cuja participação eleitoral é facultativa por lei. No entanto, o histórico recente revela um índice massivo de não comparecimento às urnas.
Leia também
Nas eleições de 2022, dos 14,8 milhões de eleitores aptos nessa faixa etária, 8,7 milhões abstiveram-se de votar — uma taxa de não comparecimento de 58,86% em todo o País.
Em 2024, nas eleições municipais, a abstenção permaneceu em patamar elevado: entre os 15,2 milhões de eleitores aptos com 70 anos ou mais, 7,7 milhões não compareceram às urnas, representando 51,08%.
Na análise da cofundadora do Instituto Data8, Cléa Klouri, esse diagnóstico acendeu um alerta urgente sobre os motivos reais do afastamento: "Nós vemos que 8 milhões não votaram. Por que não votaram? Isso tudo trouxe essa radiografia para a gente que nos alertou".
Por trás dos altos índices de abstenção entre os brasileiros, esconde-se uma dinâmica doméstica invisibilizada no foro público. Sobrecarregadas pelo cuidado familiar, afetadas pelo idadismo — preconceito etário — e desestimuladas por filhos que veem a votação como um risco desnecessário, milhões de pessoas idosas deixam de exercer o direito ao voto.
Quando o cuidado vira obstáculo
Um dos pontos mais críticos revelados pelas pesquisas de campo conduzidas por Klouri é o papel direto da família na desestimulação do eleitor idoso.
Por dependerem frequentemente de transporte ou acompanhamento para chegar às seções, muitos desses eleitores têm sua autonomia reduzida por uma superproteção vinda dos próprios filhos.
Cléa define essa interferência doméstica como um gesto de zelo que se torna nocivo ao exercício cívico. "Tem uma interferência dos filhos de cuidado. É um cuidado que é um cuidado perigoso, né? Porque assim: 'Não, por que que você vai? É longe, você vai pegar o metrô, não precisa, já não é mais obrigatório' etc. E essa mulher acaba de alguma maneira obedecendo a essa influência dos filhos".
Esse desincentivo cria uma dependência direta no dia do pleito, refletida nas falas colhidas durante as pesquisas.
Vemos muito claramente isso: 'Ah, se minha filha não vier me buscar, eu não vou votar, porque ela diz que é longe, que eu não posso pegar metrô, que é perigoso'".
Por essa razão, a empresária defende que as campanhas de conscientização precisaram reorientar seu foco. "Tanto é que parte da nossa campanha é para falar com os filhos. Não é só direcionado ao eleitor, é direcionado aos familiares. Para começar pela cadeia, modificando", explica.
Sobrecarga da mulher 70+
Embora representem a maioria absoluta do eleitorado com 70 anos ou mais em 2026, as mulheres registram uma taxa de abstenção substancialmente superior à dos homens na mesma faixa etária.
Nas eleições de 2022, 64% das mulheres com 70 anos ou mais deixaram de votar, uma ausência dez pontos percentuais acima da masculina. A análise de Cléa Klouri atribui esse cenário a dois fatores centrais: o idadismo e a sobrecarga familiar.
Segundo a empresária, o envelhecimento impõe um peso simbólico mais severo sobre a mulher, levando-a a se sentir sem representatividade.
O envelhecimento para a mulher tem um impacto maior do que para os homens, a mulher se sente mais desvalorizada. 'Eu sou velha, não tenho mais importância para ninguém, ninguém mais me considera, então eu não faço parte, não vou votar'."
Além disso, muitas mulheres na longevidade acumulam jornadas duplas ou triplas, dividindo-se entre o empreendedorismo para complementar a renda familiar e o cuidado com parentes de idade avançada ou netos.
Diante da rotina, a ida às urnas acaba sendo percebida como "mais uma obrigação além de todas que ela tem", complementa Klouri.
A busca por legado
Quando os obstáculos são superados, o eleitorado 70+ demonstra forte consciência cívica. Ao contrário de quem vota pela primeira vez, os cidadãos idosos possuem um repertório acumulado ao longo de décadas. É o caso de José Neves Poleze, 67 anos, taxista e aposentado morador de Vila Velha (ES).
Ainda trabalhando e mantendo a independência financeira e de cuidados, Poleze espelha o perfil do eleitor que recusa qualquer tentativa de interferência ou desincentivo familiar no momento de votar.
Eu voto mesmo. Eu faço questão de votar e me atrapalho nada. Eu vou lá mesmo. Pode ser o domingo que for, o dia que for que eu vou.”
Para o aposentado, a proximidade da seção eleitoral e a companhia da esposa facilitam a rotina no dia do pleito, mas a decisão de votar parte fundamentalmente de um senso inflexível de compromisso pessoal: “Eu moro bem próximo da aqui onde tem o colégio, né? Onde tem a zona, né? Então eu vou a pé mesmo, eu e minha esposa. Sempre assim”.
Questionado sobre a continuidade da sua participação eleitoral para os próximos anos, José reafirma o voto como um dever indiscutível.
Pretendo sim continuar votando, porque eu acho muito importante, é um dever, né? É um dever nosso. E eu vou continuar, se Deus quiser, enquanto eu puder.”
A bagagem de ter experienciado diversos episódios da política brasileira confere ao eleitor longevo um perfil pragmático perante promessas milagrosas, de acordo com Klouri. As lembranças de crises da história recente — como o governo Collor — reforçam uma postura crítica que rejeita discursos sem sustentação.
"Eu tenho importância, eu já passei por muita coisa. Por ditadura, por milhões de planos econômicos, por milhares de presidentes. Na hora do voto, eu mostro que tenho essa experiência, que tenho essa bagagem, muito mais do que, muitas vezes, o meu filho, o meu neto que estão chegando agora", reflete a empresária.
A decisão de votar na velhice sustenta-se no desejo de construir um futuro. "Tem a ver com o legado: que Brasil eu quero deixar para os meus filhos, para os meus netos, mas tem também que Brasil eu quero viver daqui para a frente", complementa.
Conheça o Movimento Voto 70+
O Movimento Voto 70+ é uma iniciativa cívica e apartidária liderada pelo Data8, hub de inteligência de mercado focado na Economia da Longevidade, que articula empresas e instituições para estimular a participação eleitoral.
A campanha conta com a participação de Ary Fontoura e Zezé Motta, além do apoio da empresária Luiza Trajano.
Atualmente, a mobilização atua com ações presenciais em agências do INSS — em 32 cidades brasileiras — e em eventos nacionais como a Parada da Longevidade, marcada para domingo, 27 de setembro, na Avenida Paulista.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.