90% dos médicos se sentem despreparados para dar más notícias, diz pesquisa
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São Paulo - A maioria dos médicos brasileiros recém-formados não está preparada para comunicar más notícias a pacientes e familiares, segundo uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo, publicado nesta sexta-feira, 17, na Revista Bioética, ouviu 2.418 candidatos a programas de residência médica e identificou que 9 em cada 10 não se sentem aptos para esse tipo de conversa.
Além disso, 4 em cada 10 recém-formados em Medicina relataram nunca ter recebido qualquer treinamento sobre comunicação de más notícias durante a graduação. A pesquisa avaliou o perfil sociodemográfico dos participantes, suas experiências prévias com o tema, percepções éticas sobre a comunicação de diagnósticos difíceis.
Diante do alto percentual de profissionais que se sentem despreparados, os autores do estudo defendem que a comunicação de más notícias seja tratada como uma habilidade técnica, e não como um talento natural.
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O que é o protocolo SPIKES
Um dos pontos é a fatal de conhecimento técnico sobre o protocolo SPIKES, um método estruturado em seis etapas que orienta profissionais de saúde na comunicação de más notícias de forma clara e empática. As fases são: preparação, percepção, convite, conhecimento, emoções e estratégia.
Segundo o levantamento, 65% dos médicos conhecem o protocolo. Mesmo assim, a etapa relacionada ao manejo das emoções do paciente e da família foi apontada como a mais difícil de aplicar na prática. O dado indica insegurança dos profissionais diante de reações emocionais, muitas vezes por medo de que gestos como chorar ou abraçar sejam vistos como falta de controle.
Para o professor Daniel Alveno, fisioterapeuta e um dos autores da pesquisa, mesmo quando a notícia não pode ser revertida, ainda é possível acolher o paciente.
A má notícia nunca vai virar uma boa notícia, mas existem formas de acolher e de ajudar esse paciente, de forma compassiva, a enfrentar aquele problema e aquela condição que ele vai vivenciar”.
O pesquisador, que atua com cuidados paliativos na Unifesp há cerca de 15 anos, destaca que um dos achados mais relevantes da pesquisa é a diferença entre o que os médicos gostariam de receber como pacientes e o que praticam em sua rotina profissional.
Quase 99% dos participantes afirmaram que, se estivessem na posição de paciente, prefeririam receber a notícia diretamente, sozinhos ou acompanhados de um familiar. Mais de 90% disseram que gostariam de uma comunicação completa sobre seu quadro de saúde.
A família pode interferir e pedir silêncio?
O estudo também identificou diferenças de comportamento entre candidatos a especialidades clínicas e cirúrgicas. Os futuros cirurgiões mostraram um perfil mais pragmático e menor preparo emocional para lidar com o tema, além de maior resistência à participação de equipes multidisciplinares no processo de comunicação.
Apesar disso, mais de 30% dos médicos, principalmente os da área cirúrgica, admitiram que aceitariam participar da chamada "conspiração do silêncio", prática que consiste em omitir informações do paciente a pedido da família.
Essa conduta contraria o Código de Ética Médica e fere o direito do paciente de tomar decisões sobre a própria vida. Os pesquisadores apontam que a omissão de informações pode comprometer a autonomia do paciente e resultar em desfechos negativos no tratamento.
O que é distanásia?
A pesquisa também destaca que falhas na comunicação entre equipe médica e família têm impacto direto no sistema de saúde. Um dos efeitos é a distanásia, termo que descreve o prolongamento artificial da vida acompanhado de sofrimento desnecessário ao paciente.
De acordo com Alveno, muitos pacientes permanecem em tratamentos invasivos porque a equipe médica não conseguiu dialogar com a família sobre os limites do suporte oferecido.
Essa comunicação mal feita acaba gerando um custo absurdamente maior, um desgaste emocional gigantesco para a família e um desgaste emocional e técnico para a equipe”, diz o autor.
O problema também afeta a gestão de leitos no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com o pesquisador, vagas de UTI muitas vezes ficam ocupadas por pacientes crônicos que poderiam estar em outro tipo de cuidado, caso a comunicação com a família tivesse sido feita de forma adequada desde o início.
Comunicar a morte é o maior desafio
Entre os tipos de más notícias, a comunicação de óbito foi apontada pelos médicos como a mais difícil de transmitir. Os pais de pacientes foram citados como os familiares mais desafiadores de informar, resultado que confirma achados de outras pesquisas sobre o tema, especialmente quando a vítima é jovem.
Para Alveno, ter conhecimento clínico não é suficiente se o profissional não sabe transmiti-lo ao paciente. “Isso também precisa ser ensinado. Não é um dom, algo inato. Estudar tecnicamente comunicação é parte da formação como profissional de saúde”, pontua Alveno.
Entre as estratégias sugeridas pelos pesquisadores está o uso de dramatizações durante a graduação, prática que ajudaria estudantes a desenvolver segurança para lidar com situações reais no futuro.
O estudo também defende que a comunicação de más notícias não deve ser responsabilidade exclusiva do médico. Segundo os pesquisadores, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas também precisam desenvolver essa competência.
Alveno destaca que a falta de preparo para esse tipo de conversa é comum a todas as áreas da saúde. O compartilhamento dessa responsabilidade entre diferentes profissionais, segundo ele, tende a aumentar a confiança da equipe médica e a oferecer um suporte emocional mais completo para pacientes e familiares.
Mais sobre a pesquisa
A pesquisa foi feita por meio de um questionário respondido pelos próprios candidatos. Ele foi elaborado por uma equipe de diferentes áreas e passou por testes antes, em um estudo-piloto. Os participantes preencheram as respostas cerca de uma hora antes do início da prova.
Esse questionário foi respondido por 3.850 candidatos que fizeram a prova de seleção para residência médica em novembro de 2016. Depois de descartar formulários em branco e respostas incompletas, os pesquisadores ficaram com uma amostra final de 2.418 participantes.
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