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'Morrer de tristeza' existe? Médicos explicam síndrome do coração partido

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Também chamada de cardiomiopatia de Takotsubo, essa doença pode simular sintomas parecidos com um infarto agudo - AdobeStock
Também chamada de cardiomiopatia de Takotsubo, essa doença pode simular sintomas parecidos com um infarto agudo
Por Bianca Bibiano

08/06/2026 | 16h35 ● Atualizado | 18h09

São Paulo - A expressão popular  "morrer de tristeza" costuma soar como exagero. Mas a medicina de fato reconhece uma condição de saúde capaz de traduzir, em termos físicos, os efeitos de um sofrimento emocional intenso sobre o coração. 

Conhecida como síndrome do coração partido ou cardiomiopatia de Takotsubo, essa doença voltou ao centro das atenções após a repercussão na última semana da morte da escritora, cineasta e ilustradora franco iraniana Marjane Satrapi, aos 56 anos.

Embora não haja confirmação médica sobre a causa da morte da autora de "Persépolis", familiares relataram que ela enfrentava um profundo sofrimento emocional desde a perda do marido, o que reacendeu o debate sobre a relação entre emoções intensas e saúde cardiovascular.

A síndrome do coração partido é uma disfunção temporária do músculo cardíaco desencadeada por situações de forte estresse emocional ou físico. Os sintomas costumam ser muito semelhantes aos de um infarto, o que pode dificultar a identificação inicial do problema.

"Trata-se de uma disfunção temporária do músculo cardíaco desencadeada por situações de forte estresse emocional ou físico. A pessoa pode apresentar sintomas muito semelhantes aos de um infarto, como dor no peito, falta de ar e palpitações, mas a causa é diferente", explica a cardiologista Fernanda Weiler, do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida.

Weiler diz que é um mito que apenas pessoas emocionalmente frágeis desenvolvem a síndrome. "A condição pode afetar qualquer pessoa submetida a um estresse emocional ou físico intenso", observa.

Emoção afeta saúde

Descrita pela primeira vez no Japão na década de 1990, a condição recebeu o nome de Takotsubo porque o formato assumido pelo coração durante a crise lembra uma armadilha usada para capturar polvos. A síndrome está associada a uma descarga intensa de hormônios do estresse, especialmente adrenalina e noradrenalina, que provoca alterações temporárias no funcionamento cardíaco.

"Eventos como a perda de um ente querido, um divórcio, um diagnóstico grave, acidentes ou até situações positivas muito intensas podem desencadear uma descarga elevada de hormônios do estresse, especialmente adrenalina e noradrenalina, levando a alterações temporárias na função cardíaca", afirma Weiler.

Entre os gatilhos mais frequentemente relacionados ao quadro estão luto, separações, perda do emprego, acidentes graves, crises respiratórias e situações de forte tensão emocional. Mas nem sempre o evento desencadeante é negativo. Ganhar um prêmio, receber uma promoção ou viver uma emoção intensa também podem provocar a resposta fisiológica.

A cardiologista e diretora de saúde da Starbem, Thais Moreno, ressalta que o fenômeno é real e merece atenção. "A expressão 'coração partido' não é apenas metafórica. O estresse libera uma descarga intensa de hormônios que podem provocar um espasmo súbito no músculo cardíaco. É um quadro real, grave, que tem relação direta com o estado emocional".

Moreno diz que o perfil clássico são mulheres acima dos 40 anos, mas casos vêm sendo observados também em adultos mais jovens submetidos a rotinas marcadas por pressão constante e estresse crônico.

Sintomas confundem

Um dos principais desafios da síndrome do coração partido é sua semelhança com o infarto agudo do miocárdio. Dor no peito, falta de ar, palpitações e alterações nos exames cardíacos podem estar presentes em ambas as situações.

"A síndrome do coração partido simula um infarto, apresentando alterações eletrocardiográficas e laboratoriais semelhantes, porém sem a obstrução das artérias coronárias", explica o cardiologista Richarley Augusto, do Hospital Quali Ipanema.

Por isso, os especialistas reforçam que qualquer quadro de dor súbita no peito ou dificuldade para respirar deve ser tratado como emergência médica.

"Diante de dor súbita no peito ou falta de ar, a orientação é procurar emergência imediatamente. A síndrome é tratável, mas exige diagnóstico rápido", alerta Thais Moreno, e completa:

"Cuidar da mente é cuidar do coração. Emoção também adoece fisicamente e ignorar sinais emocionais pode levar a consequências cardíacas reais."

Condição não é inofensiva

Apesar de ser considerada reversível na maioria dos casos, a condição não é inofensiva. Complicações como insuficiência cardíaca, arritmias e, em situações mais raras, choque cardiogênico podem ocorrer.

Para Fernanda Weiler , a medicina tem compreendido cada vez mais a interdependência entre corpo e mente. "Hoje sabemos que saúde emocional, qualidade do sono, alimentação, atividade física e manejo do estresse exercem influência direta sobre a saúde cardiovascular. O coração não está desconectado das nossas emoções", destaca.

A especialista lembra ainda que o luto é uma experiência natural, mas que merece atenção quando provoca sofrimento intenso e persistente. "Buscar apoio psicológico, manter vínculos sociais e cuidar dos hábitos de vida são atitudes que ajudam não apenas a saúde mental, mas também a saúde cardiovascular. O cuidado precisa ser integral", conclui Weiler.

Alertas

Os especialistas alertam que os seguintes sintomas podem indicar síndrome do coração partido e devem ser avaliados por um médico com atenção:

  • Dor no peito.
  • Falta de ar.
  • Palpitações.
  • Sudorese.
  • Sensação de aperto no tórax.
  • Alterações eletrocardiográficas semelhantes às do infarto.

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