Irmão de 80 anos recebe rim de irmã de 73, um recorde na medicina paranaense
Arquivo Pessoal / Francisco Simeão
São Paulo - Francisco Simeão, um empresário e idealizador de projetos sociais bastante ativo, alcançou um marco histórico na medicina paranaense ao completar 80 anos: tornou-se o paciente mais idoso do Estado a receber um transplante de rim.
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O procedimento, realizado no dia do seu aniversário, em 2 de março, no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba, ajudou a quebrar antigas regras sobre limite de idade na realização de transplantes.
Problemas renais
A jornada de Francisco até o transplante começou muitas décadas antes, já que ele lidava com problemas renais há cerca de 20 anos, condição que foi agravada após ele ficar diabético.
Eu sou um homem afortunado que há uns 20 anos comecei a ter problemas renais. Fiquei diabético por ter engordado muito, o que afetou nesse desenvolvimento de problemas no rim".
Em janeiro de 2025, os médicos recomendaram o início da diálise, mas, preocupado em não parar sua intensa rotina empresarial, ele pediu um adiamento de seis meses para organizar a administração de suas empresas.
Foi nesse período que ele teve um sério problema de saúde, no qual Francisco precisou colocar três stents para desobstruir artérias.
“Um mês depois eu comecei a diálise quando a função renal havia caído para apenas 9%. A diálise não dói, não é uma coisa tão terrível assim, mas você se anula ao ficar mais de três horas na máquina, dia sim, dia não, praticamente. Depois disso, a orientação foi realizar o transplante”, relembra.
“Lista do morto”
Inicialmente, Francisco decidiu entrar na lista de doadores falecidos, chamada por ele de "fila do morto", na qual os pacientes aguardam o órgão de alguém que tenha morrido recentemente.
A decisão se deu porque ele achava que não seria justo submeter um familiar ou um amigo a uma cirurgia de doação para lhe dar um rim. “Com 80 anos eu achava que eu estaria mutilando um amigo ou um filho, ou a esposa, por exemplo”, conta Francisco.
Contudo, ele foi surpreendido pela solidariedade de pessoas próximas, incluindo esposa, filhos e três amigos, que se ofereceram para serem doadores. A doadora perfeita, no entanto, acabou sendo a sua irmã mais nova, Beth Casimiro, de 73 anos.
Mesmo com a oferta, Francisco só se convenceu a aceitar o órgão vivo após uma longa conversa médica em São Paulo. Na consulta, ele aprendeu que o rim de sua irmã possuía um índice de saúde excepcional e também foi tranquilizado por estudos científicos demonstrando que o doador do rim não tem a vida encurtada, mas frequentemente vive mais por passar a cuidar de todos os outros órgãos com maior atenção após o procedimento.
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“O médico disse que o rim da minha irmã me daria mais 40 anos de vida. Perguntei se eu chegaria aos 120, mas ele riu: 'Claro que não, você morre antes, pelos 95 ou 100. Mas o rim dela estaria tão bom que você poderia até doá-lo para outra pessoa daqui a 20 anos”, brinca Francisco.
Para a irmã, Beth, o gesto foi uma forma de retribuir a importância de Francisco, considerado o alicerce da família.
“Se eu podia, por que não fazer? Foi o presente mais inusitado que eu poderia dar. É a oportunidade de oferecer uma vida nova a ele, para que continue sendo essa pessoa ativa e presente na nossa família”, conta Beth.
No Brasil, o transplante de rim foi o segundo tipo de transplante mais feito em 2025, com 6.697 procedimentos realizados, ficando atrás apenas do transplante de córnea.
Idade para transplante
O médico nefrologista responsável pela cirurgia, Rafael Piné, destacou que o sucesso no caso de Francisco comprova que hoje a idade cronológica é apenas um detalhe secundário diante da saúde do paciente.
A idade cronológica, isoladamente, não é mais um critério de exclusão. A indicação é feita de forma individualizada, considerando as condições biológicas, funcionais e clínicas do paciente”.
Totalmente recuperado após o uso de antibióticos, o empresário segue comemorando sua vitalidade. Sem nenhum receio da cirurgia desde o primeiro momento, ele encara o novo rim como o tempo extra que precisava para tocar seus grandes projetos habitacionais e educacionais. “Agora, o acordo com a esposa é de só pensar em aposentadoria quando chegar aos 95 anos”, brinca.
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