Apreensões de canetas emagrecedoras em apenas 2 meses beiram o total de 2025
Polícia Federal/Divulgação
São Paulo - A busca pelo corpo ideal e o alto custo dos tratamentos contra a obesidade estão alimentando um mercado clandestino que ameaça a saúde pública no Brasil. Dados da Polícia Federal (PF) obtidos com exclusividade pelo VIVA revelam um crescimento exponencial nas apreensões de canetas emagrecedoras irregulares, cujos princípios ativos incluem a semaglutida e a tirzepatida, ao menos nas versões originais.
Em todo o ano de 2024, a PF registrou a apreensão de apenas 609 unidades. Já em 2025, o número saltou para 60.787. Mais assustador é que em 2026 até fevereiro as autoridades já apreenderam 53.303 unidades.
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Em dois meses, o volume interceptado atingiu quase 90% do total do ano anterior, indicando tanto uma maior fiscalização nas fronteiras quanto uma explosão na demanda ilegal.
O mercado irregular que inunda o País possui origem direta na travessia ilegal pelas fronteiras. O contrabando vindo de países vizinhos, especialmente do Paraguai, criou um verdadeiro "turismo de emagrecimento".
"Como tudo que é muito desejado, cria-se uma oportunidade para um mercado irregular", avalia Luiz André Magno, diretor médico da farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro (tirzepatida).
Segundo ele, o crescimento das apreensões mostra uma curva exponencial que tende a ter impactos na saúde pública se medidas drásticas não forem tomadas.
Magno explica que a medicação não é produzida pela empresa no Paraguai e sequer tem aprovação regulatória no país vizinho.
Ou seja, as canetas trazidas de lá são fabricadas por outras empresas, que não são obrigadas a seguir as mesmas normas de segurança brasileiras, e podem até ser falsificações completas.
Se vem contrabandeado, você não sabe se é o que é aprovado por lá. Não tem eficácia e não há segurança", diz o executivo.
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A endocrinologista Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta para a banalização extrema desse comércio. "Eu já vi conversa de pessoal comprando em salão de beleza", relatou a médica.
Riscos invisíveis
As canetas originais são formulações químicas complexas, alertam os especialistas e a indústria farmacêutica. Elas contêm peptídeos sintéticos, estruturas delicadas que imitam hormônios do intestino (incretinas). Por isso, exigem controle rigoroso de temperatura desde a fabricação até a aplicação.
Quando essas substâncias são contrabandeadas escondidas em veículos, sem nenhum tipo de refrigeração ou cuidado sanitário, a estrutura da molécula inevitavelmente se degrada. Os riscos vão muito além de o remédio falso simplesmente não funcionar.
A degradação do peptídeo pode desencadear uma resposta imunológica severa no organismo do paciente. Há também o risco altíssimo de contaminação por bactérias, metais pesados ou até mesmo a substituição do princípio ativo por substâncias letais em doses erradas, como a insulina.
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"Medicamentos falsificados representam um grave problema de saúde pública... esses produtos podem conter ausência do princípio ativo, doses incorretas ou até substâncias nocivas, o que compromete a eficácia do tratamento e pode causar efeitos adversos sérios", afirma a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, por meio de comunicado.
Uso cosmético
Para os especialistas, o aumento das apreensões de contrabando reflete uma tempestade perfeita: a alta eficácia da medicação original, a exclusão de pacientes de baixa renda dos tratamentos de ponta e uma intensa pressão estética propagada pelas redes sociais.
"As pessoas estão buscando uma solução rápida e milagrosa para um problema de saúde grave", diz Flávia Coimbra. "A gente tem que deixar bem claro que a obesidade não é questão de gula ou falta de força de vontade. A obesidade é uma doença complexa e precisa ser tratada com acompanhamento médico. As canetas emagrecedoras são uma ótima ferramenta, quando bem indicadas", acrescenta a diretora da SBEM.
"O que nos preocupa é o uso inadequado e sem orientação. Esse é o grande problema, as pessoas estão abusando. Isso acontece quando o medicamento passa a ser procurado no mercado ilegal como um cosmético por quem já tem peso normal. "O benefício que ela vai ter para eliminar esses poucos quilinhos a mais não vale a pena pelo risco de eventos adversos", alertou a médica.
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Mercado ilegal
Diante da crise, diversas frentes tentam conter o contrabando de canetas emagrecedoras irregulares para o Brasil:
Ação policial e regulatória:
A Anvisa determinou a proibição da entrada desses produtos via Paraguai, e a Polícia Federal intensificou a fiscalização nas fronteiras e estradas, o que justifica a escalada acelerada das apreensões em 2025 e 2026.
Indústria farmacêutica:
A Lilly tem investido em campanhas de conscientização em massa e criou o Lilly Scan, uma ferramenta para o paciente checar se a caneta corresponde a um lote original.
A Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e Wegovy) informou que atua sob os pilares de "prevenir, detectar e responder", colaborando no rastreamento da cadeia de suprimentos e apoiando ações de investigação e apreensão de produtos ilegais.
Acesso à saúde pública:
A SBEM realiza campanhas de alerta e pressiona o governo. Atualmente, não há medicamentos específicos para obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Para a entidade, democratizar o acesso ao tratamento oficial é a arma mais poderosa para esvaziar a busca desesperada pelo contrabando.
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