Buscas por Mounjaro e tirzepatida no Google batem recorde em um ano
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São Paulo - No último ano, o termo “Mounjaro” foi, de longe, o mais buscado no Google no Brasil. De acordo com um dossiê exclusivo elaborado pelo VIVA através de dados disponibilizados pelo Google, o medicamento voltado para o tratamento de diabetes tipo 2 teve o interesse dos usuários mais do que quadruplicado entre abril de 2025 e 2026.
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O termo atingiu a nota máxima de interesse (índice 100) na escala do buscador, registrando um aumento de 335% em relação ao mesmo período do ano anterior. O medicamento tem aproximadamente o triplo das buscas na comparação com o termo “Ozempic” ou cinco vezes as buscas pelo termo "Wegovy", por exemplo.
Para analisar o interesse nas buscas pela caneta emagrecedora, o Google utiliza uma escala proporcional que vai de 0 a 100, na qual o número 100 representa o momento ou local de maior sucesso e interesse por aquela pesquisa, e os outros valores são calculados em proporção a esse pico.
Além disso, o Google separa as buscas pelo texto exato que o usuário digita e pelo conceito geral do que você quer saber. Sendo assim, o termo é a palavra ou frase exata que o usuário digita na caixinha do Google. Já o assunto é um guarda-chuva que agrupa todas as pesquisas sobre o mesmo tema, englobando sinônimos, erros de digitação e traduções para outros idiomas.
Para o presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da FMUSP, Bruno Gualano, o aumento das pesquisas segue uma tendência esperada pelos pesquisadores, tendo em vista que o mercado atual desses medicamentos é abastecido basicamente por um uso não clínico.
A população com obesidade é crescente e preocupante, para qual esses medicamentos têm uma finalidade terapêutica de suma importância, é o alvo principal das prescrições. Entretanto, o efeito de emagrecimento é o que tem movimentado as buscas.
O volume de buscas é gerado principalmente pelo uso 'fora do rótulo, que não seria só para o tratamento da obesidade em si e das suas comorbidades, como também para o emagrecimento, sem uma indicação clínica”.
Brasil no topo do mundo
Vale destacar que o apetite por essa promessa de emagrecimento colocou o País no topo das pesquisas mundiais. No último ano, o Brasil liderou o ranking internacional de buscas pela “tirzepatida”, princípio ativo do Mounjaro, ficando à frente do Reino Unido e registrando quase o dobro do interesse em comparação com os Estados Unidos.
Tirzepatida: países com maior interesse de buscas no Google
(período de abril/2025 a abril/2026)
- Brasil
- Reino Unido
- Paraguai
- Porto Rico
- Estados Unidos
- Irlanda
- Austrália
- Suécia
- Portugal
- Bélgica
Esse fenômeno brasileiro, segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, reflete interesses econômicos e um modelo de saúde com pouca fiscalização. Ele explica que, em países onde essas medicações já estão aprovadas há mais tempo, como Portugal, há um controle de prescrição muito mais rigoroso, prática médica alinhada às indicações formais e a proibição da manipulação e do uso estético das substâncias.
No Brasil, a maior liberalidade favorece a busca por estética em detrimento da saúde clínica”.
Composição do medicamento
É quando o interesse do usuário sai do nome do medicamento “mounjaro” para especificamente o seu princípio ativo, a "tirzepatida", que nota-se a transformação que as canetas emagrecedoras trouxeram no cotidiano de uma pessoa comum.
Esse termo teve um aumento de oito vezes nas pesquisas neste um ano no Brasil.
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Além disso, o assunto tirzepatida, que agrupa todas as pesquisas sobre o mesmo tema, teve aproximadamente o triplo de buscas na comparação com o assunto "semaglutida", composto de outros medicamentos como Ozempic, Rybelsus e Wegovy.
Em outras palavras, pode-se dizer também que aproximadamente três a cada quatro buscas sobre as substâncias desta lista foram sobre a Tirzepatida, 73% do total, contra 23% sobre a Semaglutida e 5% sobre as demais, somadas.
Segundo o Google, o interesse pelo princípio ativo do Mounjaro teve seu aumento mais significativo em maio de 2025, quando o medicamento começou a ser disponibilizado nas farmácias brasileiras.
Antes, apenas o Ozempic tinha a aquisição aprovada. Depois disso, o interesse pela Tirzepatida foi superando o da Semaglutida exponencialmente.
De acordo com o diretor da SBEM, essa migração nas buscas tem um motivo claro: a potência da droga. Segundo ele, a tirzepatida entrou no mercado com uma promessa de perda de peso muito mais intensa, fazendo com que a semaglutida perdesse espaço no mercado.
“Como consequência, não existe tanto interesse na compra e manipulação clandestina da semaglutida por ela ser menos potente, por exemplo, transferindo esse foco para a nova molécula”, explica.
Retatrutida entra nas buscas
Um ponto também preocupante é o aumento de interesse pela retatrutida, que teve um crescimento proporcional muito elevado, de 2.700% no último ano, mas ainda ficando em níveis abaixo da tirzepatida em questão de interesse. Macedo destaca que trata-se de uma molécula ainda em estudo, sem aprovação por agências regulatórias.
"Ainda assim, já há um interesse crescente. Também é no contexto da retatrutida que se observa comercialização de formas alternativas de origem desconhecida e totalmente ilegal, o que traz preocupação clínica específica”, expõe o diretor da SBEM.
O professor da USP, Bruno Gualano, reforça, porém, que o interesse e adoção desses tratamentos para o emagrecimento em si traz à tona a pressão estética, que valoriza o corpo magro. Ele ressalta, no entanto, que a busca pelo emagrecimento não deve ser lida apenas como futilidade, pois o corpo gordo carrega um estigma pesado na sociedade.
Pessoas com obesidade frequentemente recebem um pior acolhimento no sistema de saúde e enfrentam maiores dificuldades para encontrar parceiros românticos ou ascender profissionalmente. Por isso, o uso da caneta muitas vezes é uma busca por aceitação”.
Contudo, o especialista alerta para uma "troca de estigmas", reforçando que quem emagrece com a caneta passa a ser julgado pela sociedade como um "trapaceiro", alguém sem força de vontade que pegou o caminho mais fácil.
Tirzepatida supera dietas nas pesquisas
Foi também a partir de maio de 2025 que o interesse pela tirzepatida passou a superar, de forma isolada, as buscas por dietas e planos alimentares no Brasil.
Para Gualano, o fenômeno demonstra uma mudança comportamental expressiva. “O interesse pelas dietas diminuiu de forma proporcional ao aumento nas buscas por essas drogas, mostrando que as pessoas estão migrando para intervenções farmacológicas após anos de frustrações e sucessos limitados no combate à balança”, aponta.
Para o endocrinologista diretor da SBEM, esse dado reflete o desinteresse por algo que deveria ser a base do tratamento e a busca por uma alternativa de perda de peso rápida. Ele aponta que isso é um erro grave, pois o uso de medicamentos, por mais que reduzam a ingestão alimentar, não substitui os pilares fundamentais do combate à obesidade.
Não existe fórmula mágica. O tratamento da obesidade deve ser pensado a longo prazo".
Perigos da automedicação
Os dados do Google revelam um padrão preocupante: a intenção de usar as canetas sem supervisão médica.
Entre as perguntas mais buscadas no último ano estão:
- "Como aplicar Mounjaro?"
- "Onde comprar?"
- "Precisa de receita?"
- "Pode trazer Mounjaro do Paraguai?"
Foi esse o caso da professora Cristina (58), que optou por não revelar sua identidade. Desde dezembro de 2025, ela pesquisava com frequência na internet formas de aplicar e onde comprar Mounjaro, assim como consultava amigos que já haviam adquirido canetas trazidas do Paraguai.
Em janeiro, ela chegou a até mesmo a adquirir ampolas de tirzepatida (Lipoless), que aplicava com seringas de insulina. “Apliquei durante dois meses 2,5mg semanalmente e depois mais um mês, com 5mg”, lembra.
O professor Gualano observa que essas perguntas na internet são típicas de quem não passou por uma consulta médica. “Esse uso não clínico e sem acompanhamento abre portas para graves riscos, como o consumo de substâncias falsificadas ou de procedência duvidosa e o fracionamento inadequado das doses na tentativa de fazer o remédio caro durar mais”, explica.
O pesquisador alerta que não há estudos clínicos de longo prazo que garantam a segurança dessas drogas em pessoas saudáveis (sem obesidade), sendo eticamente inviável testá-las nesse público, assim como ocorre com esteroides anabolizantes.
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Esse cenário ganha contornos ainda mais perigosos com o crescimento do mercado clandestino. Avaliando o salto de nas buscas pelo termo 'tirzepatida', Macedo, da SBEM, aponta que esse interesse reflete a existência de um mercado paralelo orientado pelo custo.
Devido à falta de mecanismos de controle éticos e legais, há um comércio crescente de versões vindas do Paraguai e a produção em escala industrial de medicamentos manipulados”.
Ele reforça que as buscas frequentes na internet comprovam que o paciente não está sendo supervisionado de forma adequada, expondo a população a riscos diretos à saúde.
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Cristina conta que, depois de ver muitos comentários negativos sobre as marcas do Paraguai, parou com a automedicação: "Fiquei receosa de continuar. Depois disso, procurei um especialista como endocrinologista”, conta.
Hoje, ela usa um medicamento genérico à base de semaglutida e aprovado para Anvisa para o seu tratamento. “Até agora consegui emagrecer 5 quilos. Minha meta é perder mais 7 quilos. E depois, com acompanhamento médico, vamos fazer um procedimento para 'desmamar' do medicamento”, relata.
Ilusão do 'caminho fácil'
Apesar de influenciadores e redes sociais propagarem as canetas emagrecedoras como uma solução fácil, a realidade é mais dura. As buscas no Google mostram que a população está assustada com os impactos no corpo, pesquisando intensamente por dúvidas como "Mounjaro faz cair o cabelo?", "Causa diarreia?", "Faz mal para o coração?" e "Pode matar?".
Segundo Gualano, da USP, o tratamento exige grande sacrifício financeiro do orçamento familiar e pode desencadear eventos adversos severos. Cristina conta que teve efeitos devido à medicação como náuseas frequentes, dores no estômago ao se alimentar e intestino preso.
Longe do ambiente controlado dos laboratórios, há relatos por profissionais de saúde de pacientes que chegam a desmaiar de tanto vomitar, mas se recusam a parar o tratamento devido ao alto valor investido na medicação.
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