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Caso Lito: apenas 5% das doenças raras possuem tratamento eficaz aprovado

Doença neurológica do especialista em aviação expõe um dilema que faz parte do cotidiano de cerca de 13 milhões de brasileiros

Redação Viva

Por Redação Viva

17/09/2026 | 17h14

Reprodução/Youtube - Aviões e Músicas

Medicação de Lito veio da Suíça e envolveu um complexo esquema de logística - Reprodução/Youtube - Aviões e Músicas
Medicação de Lito veio da Suíça e envolveu um complexo esquema de logística
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Lito Sousa, influenciador diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, recebeu um tratamento experimental após uma operação conjunta entre a Receita Federal e a Anvisa, destacando a luta por tratamentos para doenças raras, das quais 95% ainda não têm opções eficazes.

No Brasil, cerca de 13 milhões de pessoas convivem com doenças raras, que afetam até 65 indivíduos a cada 100 mil habitantes, mas a falta de interesse das farmacêuticas em investir em pesquisas para essas condições resulta em um número limitado de medicamentos disponíveis.

Embora o uso compassivo de tratamentos experimentais ofereça esperança, a realidade é que a maioria das doenças raras ainda depende de cuidados paliativos, enquanto iniciativas como a incorporação de testes genéticos no SUS buscam melhorar diagnósticos e tratamentos para essas condições.

São Paulo - Embora a situação do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa tenha mobilizado redes sociais, empresas e órgãos públicos, a busca por um tratamento não é exceção na realidade de pessoas com doenças raras. O influenciador, diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, recebeu nos últimos dias uma substância experimental após uma operação coordenada entre a Receita Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Uma estimativa da farmacêutica Mendelics indica que cerca de 95% das doenças raras ainda não têm tratamento eficaz aprovado. 

O coordenador do Núcleo de Genética do Hospital Sírio-Libanês, Matheus Augusto Araújo Castro, lembra que a repercussão pública do caso joga luz sobre uma barreira coletiva enfrentada por milhares de famílias. "É importante falar sobre o caso como exemplo de uma doença rara e seus entraves. A partir disso, podemos reconhecer que elas existem e torná-las uma prioridade de saúde”, pontua o médico.

Caso Lito 

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma condição neurológica rara, de rápida progressão, causada pela alteração da estrutura de uma proteína produzida naturalmente pelo organismo. Quando essa proteína, chamada príon, se torna anormal, pode induzir outras proteínas próximas a também se alterarem, e “isso gera uma cascata que vai culminar com a lesão dos neurônios”, explica.  

O médico afirma que o tratamento experimental recebido por Lito atua sobre a produção da proteína envolvida na doença. A intenção é reduzir sua quantidade no organismo e, potencialmente, diminuir a velocidade de progressão do quadro. Não há ainda, entretanto, comprovação de que a estratégia produza benefício.

Como o composto ainda precisa passar pelos ensaios clínicos, o paciente só pôde recebê-lo graças à autorização do uso compassivo, mecanismo reservado para situações extremas em que não há alternativa médica aprovada e o tempo de vida não permite esperar a conclusão lenta dos testes que comprovam a segurança e a eficácia da droga. Para o médico, o uso compassivo permite uma exceção em situações clínicas graves, mas não elimina as exigências de pesquisa. 

Diagnóstico cresce, tratamento não acompanha

No Brasil, cerca de 13 milhões de pessoas convivem com uma doença rara, segundo estimativas do Ministério da Saúde. Essas condições são definidas como aquelas que atingem até 65 pessoas a cada 100 mil habitantes. “Doenças raras individualmente, mas coletivamente são comuns. Alguns estudos mais recentes apontam que em torno de 6% a 7% da população mundial têm uma doença considerada rara”, salienta. 

Castro explica que essa diversidade está relacionada à própria dimensão do genoma humano: são cerca de 20 mil genes, sujeitos a mutações. Uma mesma alteração também pode levar a manifestações diferentes, e um único gene pode estar associado a mais de uma doença. Mutações severas que afetam precocemente o desenvolvimento ou a fertilidade do indivíduo não se espalham de forma massiva pela população, já que a pessoa acometida dificilmente consegue se reproduzir. O resultado prático disso são milhares de patologias diferentes, cada uma com pouquíssimos portadores, mas que, somadas, são um desafio de saúde pública.

Doenças raras individualmente, mas coletivamente são comuns”
Matheus Augusto Araújo Castro, coordenador do Núcleo de Genética do Hospital Sírio-Libanês

Pouco interesse econômico

Essa pulverização de diagnósticos costuma afastar laboratórios farmacêuticos. Sem o apelo popular para recuperar os investimentos pesados em pesquisa, as empresas historicamente deixam essas condições sem resposta. Foi daí que surgiu a expressão "medicamentos órfãos", remédios destinados a grupos restritos e sem atrativo econômico imediato.

O cenário só começou a mudar após a criação de incentivos governamentais, puxados pelo Orphan Drug Act nos Estados Unidos, em 1983. Desde então, a agência norte-americana (FDA) já aprovou mais de 660 medicamentos órfãos. No Brasil, a Anvisa aprovou mais de 70 até 2019, permitindo que pouco mais de 300 doenças genéticas raras tenham algum tipo de remédio disponível por aqui, conforme apontou a Mendelics.

Ainda assim, o funil de atendimento continua desproporcional. Dados compilados pela farmacêutica mostram que, do total de doenças raras, 95% dependem exclusivamente de medidas paliativas, adaptações na alimentação e reabilitação física multiprofissional para controlar perdas motoras e funcionais; 3% conseguem ser amenizadas com cirurgias ou medicamentos que tratam sintomas paralelos; e apenas 2% têm acesso a medicamentos órfãos desenvolvidos para interferir na raiz da doença e mudar seu prognóstico.

Enquanto o tratamento específico não existe, a realidade costuma ser a prescrição empírica para tentar aliviar os sintomas. O problema é que a tentativa e erro traz riscos graves à saúde, a chamada “cascata iatrogênica”. "Usar um medicamento que não vá tratar diretamente a causa e só o sintoma, que acaba sendo um paliativo, sujeita o paciente a um risco de efeito colateral. Muitas vezes se trata com um medicamento que não é o ideal, ele vai causar o efeito colateral ou uma complicação, e você vai tratar essa complicação com outro medicamento e assim por diante", afirma o especialista. O atraso de anos para desvendar o nome da doença também dificulta o tratamento, fazendo com que o paciente possa chegar ao especialista com sequelas já consolidadas e irreversíveis.

Avanços

Mas os contrapontos existem. Um dos caso mais emblemático no Brasil para o geneticista é o da Atrofia Muscular Espinhal (AME), uma degeneração dos neurônios motores que tirava a vida de bebês antes dos dois anos. Com a chegada do medicamento específico e da terapia gênica ao Sistema Único de Saúde (SUS), crianças que antes dependiam de ventilação mecânica hoje conseguem fazer atividades simples, mas que até então pareciam quase impossíveis, como sentar, engolir e caminhar. 

Segundo Castro, a incorporação de testes genéticos no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente o sequenciamento do exoma, abriu novas possibilidades diagnósticas. O exame investiga, de uma só vez, as regiões codificadoras de milhares de genes e pode ajudar a identificar mutações associadas a doenças raras. 

Benefícios para além dos raros

Esse tipo de avanço não beneficia apenas quem tem a condição. Para Matheus, destrinchar o diagnóstico e o tratamento para as doenças raras ajuda a revolucionar o cuidado de enfermidades mais abrangentes. "Não é algo nichado ou algo abstrato ou que ele só vai ter um impacto em poucas pessoas. No final das contas toda a sociedade irá se beneficiar com as pesquisas e os avanços nos tratamentos para essas condições", argumenta. Plataformas de RNA e edição genética testadas em doenças raras, por exemplo, já começam a ser direcionadas para controlar problemas frequentes na atenção básica, como colesterol alto, infarto e obesidade, conta o médico.

Em 2017, o Consórcio Internacional de Pesquisa em Doenças Raras (IRDiRC) definiu a meta de contribuir para a aprovação de mil novas terapias até 2027, com prioridade para condições sem opções disponíveis. Não há ainda um balanço global consolidado, entre outros fatores porque uma terapia pode ser aprovada em um país e permanecer indisponível em outro, elucida o geneticista. 

A partir da finalização do estudo de um medicamento, o custo dessas tecnologias transforma a questão em um desafio de saúde pública, segundo o médico. “São medicamentos realmente bastante caros, mas a nossa expectativa é de que esse custo  se reduza com o tempo também, e esses tratamentos se tornem mais acessíveis”, almeja. 

(Por Marya Marcondes, em especial para o VIVA)

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