Como o desinfetante age no corpo? Toxicologista analisa caso do DF
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21/01/2026 | 16h24
São Paulo, 21/01/2026 - A recente revelação da Operação Anúbis, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal, chocou o país nesta semana. A investigação apura a morte de pelo menos três pacientes no Hospital Anchieta, em Taguatinga, envolvendo a prisão de três ex-técnicos de enfermagem. Segundo o delegado responsável pelo caso, um dos suspeitos confessou que, após aplicação de uma substância perigosa, um medicamento, chegava a "aplicar desinfetante no paciente por mais de dez vezes".
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A diretora do Instituto Médico Legal (IML-DF), Márcia Reis, afirmou que os profissionais envolvidos tinham pleno conhecimento dos "efeitos fatais" dessas substâncias; o medicamento aplicado não foi divulgado pela Polícia Civil.
O que o desinfetante faz no corpo?
Para compreender a gravidade e o mecanismo de ação desses produtos no organismo humano, o médico Alvaro Pulchinelli, toxicologista e diretor Técnico da Toxicologia do Laboratório Pardini, do Grupo Fleury, explica que a complexidade do quadro clínico provocado pela injeção de desinfetantes reside na variação da composição desses produtos.
Ele alerta que a aplicação da substância pode gerar quadros potencialmente graves, com evolução letal, como observado no caso do Distrito Federal. Dependendo dos elementos químicos presentes no produto injetado, o corpo reage de formas dramáticas:
- Bases fortes (como soda cáustica): muitas vezes presentes para auxiliar na limpeza, estas substâncias, quando injetadas, podem causar alterações gravíssimas chamadas de alcalose. Este quadro gera sintomas específicos e perigosos na frequência cardíaca, na frequência respiratória e na pressão arterial do paciente;
- Derivados fenólicos (antiga creolina): se o desinfetante contiver derivados do fenol e for injetado na circulação, o ataque é direto ao sistema nervoso central. O médico explica que isso leva a "quadro de tremor, paralisia, convulsão e até coma";
- Óleos à base de pinho: produtos desodorizantes comuns, que são misturas de vários álcoois, também atacam o sistema nervoso central quando inseridos na veia, causando sonolência, alterações motoras e tremores;
- Formol (aldeído fórmico): alguns desinfetantes ainda contêm formol. Ao ser metabolizado pelo organismo, ele se transforma em ácido fórmico, levando a um quadro de acidose. Além disso, esses elementos são "extremamente tóxicos também para o rim e para o fígado".
Desafio do socorro médico
Um dos maiores obstáculos para as equipes médicas que tentam salvar vítimas desse tipo de envenenamento é o desconhecimento da substância exata. Quando se trata de produtos clandestinos ou de composição desconhecida, o tratamento torna-se inespecífico.
Nesses casos, o profissional de saúde atua no "tratamento de suporte", tentando corrigir distúrbios de equilíbrio de ácido e da respiração, além de tratar as alterações do sistema nervoso. Um tratamento mais preciso só é possível quando se conhece a composição do rótulo do produto utilizado.
No caso do hospital em Taguatinga, a dose utilizada foi, infelizmente, suficiente para matar as vítimas. A polícia confirmou três óbitos: duas mortes em novembro e uma em dezembro de 2025. Os envolvidos podem responder por homicídio qualificado, com penas que variam de 12 a 30 anos de prisão.
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