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Câncer em pessoas idosas exige tratamento personalizado, alerta oncogeriatra

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Aumento de câncer em pessoas 65+ está atrelado ao envelhecimento da população, explica especialista, - Pexels
Aumento de câncer em pessoas 65+ está atrelado ao envelhecimento da população, explica especialista,
Por Bianca Bibiano

04/02/2026 | 10h10

São Paulo, 04/02/2026 - O envelhecimento acelerado da população brasileira tem trazido à tona um desafio silencioso para a saúde pública: o aumento expressivo dos casos de câncer em pessoas idosas. Diante desse cenário, especialistas defendem que tratar câncer na velhice exige um olhar diferente, que vá além da idade cronológica e considere, sobretudo, a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente.

Segundo a médica Ludmila de Oliveira Muniz Koch, coordenadora do comitê de oncogeriatria da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o principal problema não é a idade em si, mas a falta de preparo histórico da oncologia para lidar com as particularidades do envelhecimento. "Não deveria ser baseado na idade que você oferece o tratamento. Você pode ter um paciente de 80 anos na cadeira de rodas e um paciente de 80 anos maratonista, para cada caso o tratamento de câncer pode variar", afirma.

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Idade biológica importa mais do que a cronológica

A médica explica que na prática clínica atual, a idade cronológica ainda pesa nas decisões terapêuticas, mas esse modelo vem sendo questionado. A oncogeriatria surge justamente para preencher essa lacuna, unindo conhecimentos da oncologia e da geriatria para avaliar o que os especialistas chamam de idade biológica ou funcional do paciente.

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Dados de pacientes em estudos clínicos vão até os 75 anos, relata a médica Ludmila Koch - Divulgação

Essa abordagem permite identificar quem é robusto e pode receber tratamentos semelhantes aos de pessoas mais jovens, e quem precisa de ajustes para reduzir riscos e toxicidades. "O que mais conta é a idade funcional desses pacientes", explica a médica.

Para isso, são utilizadas escalas e ferramentas de triagem que analisam muito mais do que o tumor. A avaliação geriátrica ampla inclui aspectos como suporte social, comorbidades, histórico familiar, estado nutricional, risco de depressão e possibilidade de declínio cognitivo.

Com base nesse conjunto de informações, a equipe de saúde consegue propor um tratamento individualizado. "A intenção é minimizar efeitos colaterais, especialmente em um contexto em que a quimioterapia ainda é um dos pilares do tratamento, mesmo com o avanço da imunoterapia e das terapias-alvo".

Um dos desafios, segundo a especialista, é que grande parte dos estudos clínicos inclui pacientes apenas até os 75 anos e não leva em conta essa avaliação funcional. "A gente acaba usando dados da população mais jovem para tratar pacientes idosos", observa.

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Oncogeriatria e o novo perfil demográfico do Brasil

O crescimento da oncogeriatria está diretamente ligado à transição demográfica brasileira. A previsão é que, em 2030, o país tenha mais pessoas acima de 60 anos do que abaixo de 15. Ao mesmo tempo, avanços no controle de doenças cardiovasculares e do diabetes aumentaram a expectativa de vida, deslocando o câncer para o centro das preocupações em saúde.

Nesse contexto, a especialista destaca que o sistema de saúde e a formação médica ainda não estão plenamente preparados. Além do tratamento, ela reforça a importância da prevenção e do envelhecimento saudável, com foco em rastreamento adequado para câncer de mama, colorretal, próstata e colo do útero, sempre considerando a expectativa de vida do paciente.

Se o paciente idoso tem uma expectativa de vida acima de cinco ou dez anos, ele se beneficia de continuar fazendo exames como mamografia e PSA [para rastreio na próstata]", afirma. 
Em alguns casos, os exames não são mais solicitados, como em pacientes de idade avançada com demências e outroas doenças degenerativas.

Qualidade de vida no centro das decisões

Outro ponto central no cuidado ao idoso com câncer é o acompanhamento multidisciplinar. Nutrição, atividade física e suporte psicológico fazem diferença direta nos desfechos do tratamento, explica a oncogeriatra. "A perda de massa muscular, por exemplo, está associada a maior toxicidade, enquanto a atividade física ajuda a reduzir a fadiga, um dos efeitos colaterais mais comuns."

Além disso, as escolhas terapêuticas costumam ser diferentes das feitas por pacientes mais jovens. "Quando você oferece um tratamento mais intensivo, com mais efeitos colaterais, em troca de alguns meses a mais de sobrevida, muitos idosos preferem preservar a qualidade de vida", relata a médica.

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Comunicação aberta com pacientes e familiares

Ludmila Koch conta que, no convívio familiar, ainda é comum a tentativa dos filhos e netos de poupar o idoso do diagnóstico, criando o chamado cerco do silêncio que não menciona o câncer. Para ela, essa postura não condiz com a realidade atual.

"O idoso hoje tem letramento digital, acesso à informação e capacidade de participar das decisões sobre o próprio tratamento", diz.

Ela ressalta que a individualização das terapias tem reduzido o medo histórico associado ao tratamento do câncer, permitindo bons resultados tanto em sobrevida quanto em qualidade de vida.

Apesar do surgimento de novos estudos que propõem repensar importância da genética na longevidade humana, a médica reforça que o câncer é multifatorial e que pode sim ser prevenido na maioria dos casos.

"A hereditariedade responde por menos de 10% dos casos. A maior parte está relacionada a fatores de risco evitáveis, como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e obesidade. Investir no que é prevenível ainda é fundamental", conclui Koch.

Desigualdade no acesso ao cuidado especializado

Apesar dos avanços, o acesso à oncogeriatria ainda é desigual no Brasil. Koch diz que há concentração de especialistas nas regiões Sudeste e Sul, enquanto estados do Norte contam com poucos geriatras e menos ainda especialistas em câncer. Mesmo assim, ela destaca iniciativas públicas e privadas que começam a se espalhar em algumas capitais nordestinas.

Ela diz que a criação do Comitê de Oncogeriatria dentro da SBOC e a atuação de grupos de pesquisa latino-americanos indicam um movimento de crescimento da área, ainda muito focado em educação e estudos epidemiológicos. 

"Ainda não é uma realidade para todos. Muitos idosos acabam sendo tratados como pacientes mais jovens e isso aumenta o risco de toxicidade, internações e até morte relacionada ao tratamento."

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