40% dos casos de câncer no mundo poderiam ser evitados, aponta OMS
Envato
04/02/2026 | 18h03
São Paulo, 04/02/2026 - Um estudo global divulgado nesta semana pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) traz dados que reforçam o papel central da prevenção no combate ao câncer: quase 40% dos casos diagnosticados no mundo estão associados a fatores de risco que poderiam ser evitados ou controlados.
A análise foi publicada na revista científica Nature Medicine às vésperas do Dia Mundial do Câncer, celebrado hoje, e avaliou 36 tipos de tumor em 185 países. Os resultados concluem que 37,8% dos 18,7 milhões de novos casos registrados em 2022 (aproximadamente 7 milhões de diagnósticos) estão relacionados a causas preveníveis como tabagismo, consumo de álcool, obesidade, infecções, poluição do ar e exposição excessiva à radiação ultravioleta.
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"Esta é a primeira análise global a mostrar quanto do risco de câncer decorre de causas que podem ser prevenidas", afirmou à publicação André Ilbawi, líder da equipe de Controle do Câncer da OMS e um dos autores do trabalho. "Ao examinar padrões entre países e grupos populacionais, podemos oferecer a governos e indivíduos informações mais específicas para ajudar a prevenir muitos casos de câncer antes mesmo de eles surgirem."
Tabagismo ainda é o grande vilão
O cigarro segue como o principal fator de risco evitável em escala mundial, responsável por 15,1% de todos os novos casos de câncer, equivalente a mais de 3,3 milhões de diagnósticos apenas em 2022. Para o diretor médico da Oncoclínicas e presidente do Instituto Oncoclínicas, Carlos Gil Ferreira, esse dado reforça um alerta que permanece urgente.
O tabagismo responde por uma parcela enorme dos casos de câncer de pulmão, laringe, boca, esôfago, bexiga e pâncreas. É uma catástrofe de saúde pública que persiste no mundo e no Brasil, apesar dos avanços que já conseguimos", afirma.
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Logo após o tabaco, aparecem as infecções relacionadas ao desenvolvimento de tumores, como HPV, hepatite B e a bactéria Helicobacter pylori, responsáveis por 10,2% dos casos (cerca de 2,3 milhões). O consumo de álcool vem na sequência, associado a 3,2% dos diagnósticos (aproximadamente 700 mil novos casos). Outros fatores relevantes incluem obesidade, sedentarismo, poluição atmosférica, radiação solar e exposição ocupacional a substâncias cancerígenas.
Outro fator que passou a integrar o radar da oncologia é o uso de cigarros eletrônicos. Dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) indicam que o consumo de vapes é maior entre adolescentes de 14 a 17 anos do que entre adultos. De acordo com a pesquisa, 8,7% dos adolescentes relataram uso no último ano, frente a 5,4% entre adultos e 5,6% na população geral. O estudo foi conduzido pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Ipsos.
Enquanto no cigarro tradicional a dependência pode se estabelecer em cerca de três semanas, no vape ela pode surgir em apenas cinco dias, já que a absorção da nicotina é mais rápida e vai diretamente ao cérebro", alerta o oncologista Carlos Fruet, da Oncoclínicas Ribeirão Preto.
Segundo o oncologista, muitos desses produtos são direcionados ao público jovem, com sabores adocicados e apresentações atrativas. "Muitos começam pelo cigarro eletrônico, tornam-se dependentes e depois passam a consumir o que estiver disponível. Esse movimento ajuda a explicar, inclusive, o aumento recente do tabagismo em algumas faixas etárias", completa.
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Diagnóstico entre mais jovens preocupa
O médico Carlos Gil Ferreira cita ainda que um estudo recente publicado na revista britânica BMJ Oncology mostrou que, nas últimas três décadas, houve um aumento de 79% em novos casos de câncer em pessoas abaixo dos 50 anos, com mais de 1,8 milhão de diagnósticos em todo o mundo.
Apesar do câncer ser ainda uma doença que afeta majoritariamente pessoas após essa faixa de idade, estando vinculada diretamente ao envelhecimento, a análise serve como um alerta nas políticas de conscientização sobre a importância do acompanhamento médico periódico e realização de exames de rotina para detecção precoce do câncer.
É preciso estimular a conscientização da população em geral sobre como é feita a detecção precoce de tumores e disponibilizar os serviços necessários, que incluem médicos, exames e tecnologias. Quanto mais cedo descoberta a doença, melhor o prognóstico, com resultados positivos às terapias e maiores chances de cura", explica.
O tumor de mama foi o mais prevalente, mas os de traquéia e próstata vêm sendo cada vez mais comuns entre pessoas com menos de 50 anos, de acordo com a pesquisa britânica. No Brasil, segundo Carlos Fruet, o perfil do câncer no Brasil vem passando por uma transformação silenciosa, porém significativa.
Ele menciona dados do Painel Oncologia, do DataSUS, que apontam aumento de 284% nos diagnósticos da doença entre pessoas de 18 a 50 anos entre 2013 e 2024, chegando a 174,9 mil novos casos anuais. Afirma ainda que esse cenário reflete mudanças importantes no comportamento da população ao longo dos últimos anos.
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Alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo, excesso de peso, consumo de álcool e tabagismo estão entre os principais fatores associados ao aumento dos casos em pessoas mais jovens. Muitos desses hábitos se instalam ainda na adolescência e permanecem ao longo da vida", explica.
Fruet pondera que o avanço dos casos entre jovens adultos amplia a necessidade do fortalecimento de políticas públicas voltadas ao rastreamento. "Estimular hábitos saudáveis desde cedo, reduzir a exposição a fatores de risco e buscar avaliação médica diante de sinais persistentes são medidas fundamentais. O diagnóstico precoce continua sendo um dos principais aliados para aumentar as chances de cura e reduzir o impacto da doença", conclui.
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