Entre o foco e o descanso; como evitar hiperestímulo e ser criativo
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30/12/2025 | 11h01
São Paulo, 30/12/2025 - Em um mundo de telas múltiplas, notificações incessantes e sobrecarga de informações, ter um insight criativo pode ser um grande desafio. Por outro lado, um descanso estratégico pode ser o segredo para se ter boas ideias, segundo o psicólogo e mestre em Neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Rafael Nunes.
O excesso de estímulos digitais e as pessoas cada vez fazendo mais de uma tarefa ao mesmo tempo sobrecarregam o córtex pré-frontal - área responsável pelas funções executivas, como atenção e planejamento -, dificultando o surgimento de boas ideias. Quando o córtex está em “excesso cognitivo", ele impede a ativação de uma área cerebral crucial para a criatividade: a Rede de Modo Padrão (RMP).
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De acordo com o especialista, a RMP é ativada quando o cérebro está em repouso e com menos foco em estímulos externos, como durante um banho, um momento de ócio ou antes de dormir. A ativação dessa rede permite que o cérebro crie ligações aleatórias entre engramas — as representações fisiológicas de memória.
Nunes ressalta ainda que não é possível fazer duas coisas ao mesmo tempo com foco. “Nenhum ser humano vivo na face da Terra, nem homem, nem mulher, faz duas coisas ao mesmo tempo, onde ambas as coisas precisam de foco de atenção. A gente faz duas coisas, 15 coisas ao mesmo tempo, mas não pensa em todas elas. A maioria está fazendo de forma automática”, explica.
Ele acrescenta que ao fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo você está dividindo a atenção e sobrecarregando o córtex.
“Quando a gente dá uma descansada, está no banho, deitado, ou no modo menos ativo, outras áreas (do cérebro) vão funcionar melhor. A RMP está conectando todo o cérebro e você vai fazendo conexões com coisas que não lembrava porque estava hiper focado em uma tarefa específica. É essa conexão não-deliberada entre memórias que gera novas ideias e associações criativas”, explica.
A diferença entre relaxamento e distração
Nunes observa ainda que relaxamento é diferente de distração, e que as boas ideias aparecem quando estamos relaxados.
• Relaxamento: é a busca autônoma por descanso e redução de sobrecarga, como tomar um café ou simplesmente observar a paisagem;
• Distração: é a falta de atenção no estímulo que se busca resolver, geralmente causada por estímulos secundários, como mensagens de celular.
Ele alerta que a distração digital é "contraproducente ao processo criativo", pois a cada interrupção o cérebro leva de 10 a 15 minutos para se reconcentrar na tarefa original.A repetição desse ciclo consome uma energia neural imensa, levando à fadiga decisória e, consequentemente, à redução da produtividade e criatividade.
Como evitar hiperestímulo do cérebro
O neurocientista dá algumas dicas para otimizar a função cerebral e combater a hiperestimulação. São elas:
1. Intercalar foco e ócio
- Intercalar períodos de foco exclusivo de 30 a 40 minutos com 10 minutos de ócio (descanso sem celular). Repetir o ciclo 3 a 4 vezes e, na quarta vez, descansar 30 minutos. É a chamada técnica pomodoro adaptada, que faz alusão ao cronômetro de uso culinário em forma de tomate.
2. Redução de Notificações
- Retirar o máximo de notificações do celular e estabelecer intervalos fixos para checar mensagens, como a cada meia hora.
3. Higiene do Sono
- Dormir de 7 a 9 horas por noite;
- Evitar celulares e televisões antes de dormir, pois a luz inibe a produção de melatonina, o hormônio do sono;
- Realizar atividades de menor intensidade após as 18h ou 20h.
4. Desaceleração Matinal
- Evitar o celular na primeira hora após acordar, dedicando esse tempo à higiene pessoal, café e, se possível, 10 minutos de sol para ajudar a regular o sistema.
5. Gerenciamento de Cafeína
- Evitar o consumo de cafeína após as 14h ou 15h, devido à longa permanência do composto no organismo, que pode prejudicar a “qualidade do sono.
“Embora seja desafiador seguir todas as recomendações científicas, o importante é fazer escolhas conscientes e iniciar a mudança de hábitos gradativamente para amenizar o impacto do excesso cognitivo”, conclui Rafael Nunes.
Danos causados pelo excesso de estímulo
Com base no livro "A Geração Ansiosa", do autor Jonathan Haidt, e em estudos recentes, ele aponta dados preocupantes sobre o efeito do excesso de estímulos digitais e o uso de Inteligência Artificial (IA), tais como:
• Capacidade Lexical: adolescentes hoje apresentam uma perda de 40% na extensão vocabular em comparação com a década de 50, o que interfere diretamente na capacidade de abstração e criatividade;
• Memória e Aprendizagem: um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, de 2025, revelou que 80% dos estudantes que utilizaram ferramentas como o ChatGPT para criar um texto tiveram dificuldade em lembrar o que escreveram, em contraste com apenas 10% dos que usaram o Google ou o próprio cérebro.
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