'Esquecimento constante não é normal', diz brasileiro premiado sobre Alzheimer
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São Paulo - O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 56,2 milhões de atendimentos ambulatoriais relacionados ao Alzheimer em 2025 - os números correspondem aos registros e atendimento e não ao total de pessoas atendidas. Os número de mortes associadas à doença podem ultrapassar 30 mil.
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Um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do Alzheimer é o envelhecimento. O professor do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mychael Lourenço, aponta que a doença está se tornando um problema de saúde pública.
A gente tem uma população que envelhecendo cada vez mais. A prevalência, portanto, de doenças neurodegenerativas tende a aumentar. E não só pelo envelhecimento da população, mas também pelas condições socioeconômicas, culturais pelas quais a gente passa."
Lourenço ganhou, em março, o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, pelo trabalho que realiza em estudos de Alzheimer. O prêmio homenageia neurocientistas que demonstraram conquistas excepcionais em neurociência.
No caso do professor e sua equipe, os trabalhos que receberam o destaque abordam estudos sobre:
- como a proteína beta-amiloide prejudica a inibição da produção de proteínas no cérebro;
- como o exercício físico libera o hormônio irisina para proteger as conexões cerebrais;
- e a identificação de marcadores metabólicos circulantes no no sangue, como a carnitina, para monitorar a saúde metabólica.
O anúncio do vencedor será em uma cerimônia em julho, na Espanha. O júri era formado por cientistas da Alemanha, Suíça, Suécia, África do Sul, Portugal, Brasil, China, Estados Unidos da América, Índia e Reino Unido.
"Embora o prêmio venha no meu nome, é um reconhecimento do trabalho de um grupo grande da UFRJ e do destaque que cientistas brasileiros em geral vêm ganhando nessa área. Considero um momento de reconhecimento da ciência brasileira que me deixa muito feliz e serve de incentivo para continuarmos pesquisando e fazendo descobertas", comemora Lourenço.
O cientista conversou em entrevista exclusiva com o VIVA:
VIVA: Para começar, o que é o Alzheimer e o que causa?
Mychael Lourenço: A doença de Alzheimer é a principal causa de demência e se manifesta muito frequentemente como uma perda de memória progressiva, até que o paciente perde a autonomia. Do ponto de vista patológico, anos ou décadas antes dos primeiros sintomas, os pacientes começam a acumular duas proteínas de forma indevida no cérebro: a beta-amiloide e a proteína tau.
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Acreditamos que esse acúmulo seja o evento causador da progressão da doença, então estamos estudando como elas atrapalham o cérebro e tentamos identificar estratégias para não sofrer com esse prejuízo.
Há quanto tempo o senhor está pesquisando sobre o Alzheimer?
Eu faço parte de um grande grupo de pesquisa que já estuda o Alzheimer há 25 anos. Eu, particularmente, tenho estudado nos últimos 17, 18 anos, desde que era aluno de Iniciação Científica até me tornar professor e ter meu próprio grupo de pesquisa.
É um caminho árduo, porque muita coisa já se sabe sobre a doença, mas ainda não se tem a cura, e a ciência é um processo demorado.
O que o seu grupo de pesquisas busca encontrar relacionado ao Alzheimer?
A doença de Alzheimer está se tornando um problema de saúde pública no Brasil, então a gente tem trabalhado com o Alzheimer em diferentes frentes. Uma delas se volta para tentar entender o que muda no cérebro que o torna vulnerável ao aparecimento da neurodegeneração e da perda de memória.
Por outro lado, a gente também quer propor abordagens terapêuticas, pelo menos do ponto de vista pré-clínico. Mais recentemente, temos nos preocupado com prevenção e com a identificação e validação de biomarcadores precoces, para tentar indicar para a pessoa que ela está desenvolvendo a doença, talvez antes dos sintomas aparecerem.
A ideia é detectar essas mudanças no cérebro antes que os sintomas apareçam para possibilitar uma intervenção mais cedo.
Especula-se que intervir mais cedo representará um tratamento mais efetivo e ajudará a identificar pessoas em alto risco, permitindo que elas mitiguem esses fatores adotando, por exemplo, uma mudança no estilo de vida."
O desafio é identificar biomarcadores que sejam fáceis de serem detectados, como o Petal 217 e o Fosfotal 217, e estamos trabalhando para verificar se eles funcionam tão bem também na nossa população brasileira.
O que são biomarcadores?
Um biomarcador é um indicador de um evento biológico ou fisiológico. Por exemplo, o exame de PCR era um biomarcador para a detecção da presença do vírus da Covid. No caso do Alzheimer, nós queremos identificar um biomarcador (como o exame de sangue Petal 217) que indique e reflita o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau que estão acontecendo no cérebro.
Qual é tratamento feito hoje para pessoas com diagnóstico de Alzheimer?
Hoje temos uma série de medicamentos aprovados, como inibidores de acetilcolinesterase (rivastigmina, donepezila, galantamina) e a memantina para fases moderadas. No entanto, eles têm um efeito modesto, tratam fases específicas e não curam a doença.
Mais recentemente, foram aprovados medicamentos baseados em imunoterapia, que são anticorpos que atacam diretamente e reduzem as placas amiloides (acúmulos anormais que se formam entre os neurônios e cérebro) no cérebro. Eles são os medicamentos mais eficazes até hoje, porém são caros e possuem prescrição restrita mediante análise específica do neurologista.
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Como essas pesquisas que tratam do Alzheimer conseguem entender o processo de envelhecimento, especificamente nos brasileiros?
A idade é o principal fator de risco, mas não é todo idoso que desenvolve Alzheimer; o esquecimento consistente e quadros severos de perda de memória não são parte do envelhecimento normal e precisam de tratamento.
Precisamos identificar e entender o que diferencia a pessoa que envelhece cognitivamente saudável daquela que entra por um caminho neurodegenerativo e por isso é super importante conhecer o perfil do envelhecimento dos brasileiros, pois temos genéticas diferentes, diversas ancestralidades e características socioculturais únicas, o que é fundamental para prevenir novos casos e adotar políticas públicas adequadas.
Quais são os principais desafios na pesquisa de Alzheimer hoje para políticas públicas no combate e prevenção?
Os desafios da ciência hoje incluem identificar biomarcadores precoces cada vez melhores, conhecer os fatores de risco específicos de diferentes populações e, o grande desafio, encontrar uma terapia com um grande efeito para interromper ou reverter a perda de memória.
Pensando regionalmente, precisamos de estratégias públicas para conhecer melhor a nossa população em termos de biomarcadores, além de questões socioculturais e epidemiológica
Vocês tiveram algum problema de financiamento no desenvolvimento das pesquisas?
A ciência brasileira está subfinanciada há muito tempo e sofre com ciclos oscilantes de financiamento que dependem das políticas governamentais. Apesar do subfinanciamento público, nós contamos com apoio do CNPq, da FAPERJ, e de instituições não públicas sem fins lucrativos, como o Instituto Serrapilheira, Iniciativa Ciência Pioneira e a Alzheimer's Association. Esses apoios têm sido muito importantes para conseguirmos desenvolver pesquisas com repercussão internacional.
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