Estudo aponta que mais de 95% dos idosos rurais sofrem de doenças crônicas
Paula Bulka Durães/VIVA
Belém - Quase a totalidade das populações idosas rurais do País (95,2%) convivem com doenças crônicas. Esse e outros dados inéditos foram apresentados pelo fisioterapeuta, pesquisador e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Hércules Campos, frutos da primeira revisão de escopo de 28 estudos sobre o tema no País, que revelam a realidade enfrentada nas roças, florestas e nas margens dos rios.
Esquecidas do escopo científico, as populações idosas rurais do Brasil vivem um paradoxo: uma situação extrema de vulnerabilidade, mas que não as impede de ter resiliência, pautada na força comunitária, revelou o professor.
Ele foi um dos participantes da mesa-redonda "Envelhecimento plural", moderada pela enfermeira e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Daiane Fernandes, que reuniu especialistas para traçar o perfil das populações idosas rurais, indígenas e ribeirinhas no segundo dia do Congresso Norte/Nordeste de Geriatria e Gerontologia (CoNNeGG 2026).
No centro do debate, Campos expôs a vida de quem envelhece longe das cidades. Ele caracteriza o Amazonas como o "Estado velho mais jovem do Brasil", uma vez que o maior crescimento relativo do envelhecimento rural ocorre no Norte e no Nordeste.
Enquanto o País caminha para o envelhecimento populacional, sobretudo no Sul e no Sudeste, a região Norte viverá a transição demográfica de forma mais expressiva a partir de 2030, de acordo com o professor. "Para entender o envelhecimento rural, é preciso ir até ele", diz.
Idosos rurais são mais vulneráveis
A pesquisa mapeou o seguinte cenário no meio rural:
- 95,2% dos idosos vivem com doenças crônicas;
- 84,8% são atingidos pela hipertensão;
- 70,8% convivem com multimorbidades;
- 66,2% sofrem de problemas osteoarticulares;
- 52,8% relataram quedas no último ano;
- 43,4% são classificados fisicamente como frágeis.
Para agravar o quadro, o acesso à assistência esbarra em barreiras geográficas — existem comunidades na Amazônia a 12 horas de barco de um serviço de saúde.
Como 99,4% não têm plano de saúde e 71,9% não possuem transporte adequado para buscar atendimento, o agente comunitário de saúde (ACS) torna-se, muitas vezes, a única ponte com o cuidado. "O SUS é tudo que o povo do contexto rural tem."
Segundo o pesquisador, a percepção da velhice no campo e nas florestas costuma chegar de forma precoce, impulsionada por uma vida inteira dedicada ao trabalho braçal. "Velho, para quem mora no contexto rural, para alguns é a partir de 50 anos", destacou o pesquisador.
"Aos 60 anos, eles já são muito velhos porque plantam a mandioca, lidam com a pesca do peixe, já são sofridos pelo sol e por todas essas comorbidades. Então, a gente fica pensando se esse conceito dos 60 se aplica para essa população."
Campos também tece uma crítica ao uso do termo "remoto" para se referir às comunidades no Norte do País.
Eu sempre pergunto: é remoto para quem? Porque se eu, que estou no meio da floresta lá em Coari (AM), não acho que Coari é remoto, eu acho que São Paulo é remoto para mim."
Essa "miopia geográfica" se estende à ciência tradicional. A pesquisa revelou que cerca de 40% dos idosos do interior do Amazonas não atingem a pontuação mínima em exames cognitivos. Segundo o pesquisador, o problema, no entanto, não está na mente dos pacientes, mas nas ferramentas utilizadas, que não são sensíveis à população do campo.
Diante da baixíssima escolaridade local, imagens usadas em avaliações urbanas perdem o sentido: uma couve-flor pode ser facilmente confundida com uma árvore, e um pente, associado a um arado.
A lacuna científica é reflexo da desigualdade das pesquisas: 50% dos estudos sobre o tema concentram-se no Sul e no Sudeste, com uma ausência quase total de evidências no Norte, de acordo com Campos.
Propósito de vida
Apesar das adversidades, o pesquisador destacou o que chamou de "paradoxo entre vulnerabilidade e resiliência". Os idosos rurais, majoritariamente de baixa renda, seguem altamente ativos e contam com uma forte rede de solidariedade.
A pesquisa mostra que idosos aposentados que continuam a exercer atividades como a pesca ou a roça chegam a ter um propósito de vida sete vezes maior em comparação aos idosos urbanos, o que pode reduzir os níveis de depressão.
O envelhecimento rural no Brasil não é problema — é uma pauta. Não é invisibilidade — é urgência. Não é margem — é centro. Não é remoto — distante."
A forte ligação com o território é, inclusive, o que explica o contraste tão acentuado entre a vulnerabilidade e a resiliência. "A gente perguntava para eles se eles queriam sair de onde eles estavam e adivinha qual que é a resposta? Jamais."
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.