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Idosos são grupo de risco para hepatite B e C e lideram internações; entenda

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Em 2024, o maior porcentual de casos detectados de hepatite B ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais - Adobe Stock
Em 2024, o maior porcentual de casos detectados de hepatite B ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais
Por Emanuele Almeida

22/07/2026 | 18h49

São Paulo - As hepatites virais representam um enorme desafio para a saúde pública, principalmente quando se trata da população 50+. Um levantamento feito pelo VIVA aponta uma concentração das internações por hepatite B aguda e outras hepatites virais pela faixa de 50 a 59 anos que liderou isoladamente com 3,9 mil internações do total de 19,9 milentre janeiro de 2020 e maio de 2026. 

Através dos Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) foi possível verificar que outras faixas adjacentes também registraram números superiores aos jovens: pessoas de 40 a 49 anos tiveram 3.711 internações e as de 60 a 69 anos somaram 3.136 casos, contrapondo-se às 3.363 internações entre jovens de 20 a 29 anos. 

O Boletim Epidemiológico de 2025 comprova o impacto. Em 2024, o maior porcentual de casos detectados de hepatite B ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais (22,0%). Na hepatite C, o cenário é semelhante: 24,7% de todos os casos históricos acumulados estão na população acima de 60 anos, sendo este também o grupo etário que apresentou a maior taxa de detecção no ano de 2024, com 19,3 casos a cada 100 mil habitantes.

A discussão sobre a incidência da hepatite no grupo de pessoas acima dos 50 anos é reforçada durante o Julho Amarelo, instituído pela Lei nº 13.802/2019 que estabelece a campanha nacional de combate às hepatites virais. O movimento busca alertar a população sobre os riscos dessas infecções silenciosas no fígado, incentivando a vacinação, o diagnóstico precoce e a realização de testes. 

Por que os idosos são o maior grupo de risco?

Para a geriatra e diretora da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP),  Ana Carolina Garcia, a vulnerabilidade desse grupo tem raízes no passado:

A geração 50+ viveu em uma época anterior à década de 1990 quando não havia vacina e quando muitas vezes o sangue para transfusões não passava por processos rigorosos de rastreio e sorotipagem, o que causava a transmissão.” 

A coordenadora da comissão de hepatites virais da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH),  Adalgisa Ferreira, complementa que, naquela época, o vírus da hepatite C, por exemplo, nem sequer era conhecido. Além disso, era frequente o uso de seringas de vidro com esterilização precária, além do compartilhamento de materiais cortantes, como alicates de unha que favoreciam o contágio.

Outro ponto de destaque em relação ao contágio de idosos pela hepatite B é a transmissão vertical de mãe para filho – quase inexistente atualmente. Porém, quando se trata do número de pessoas acima dos 50 anos que desenvolvem quadros crônicos da doença, há a chance de que tenha havido a contaminação no nascimento e ela não tenha sido tratada. 

“Eu acho que nós [médicos] não fazemos esses diagnósticos o suficiente. Talvez os idosos de hoje tenham perdido mães com hepatite B e C e nunca souberam que tiveram hepatite e que podem ter sido contaminados ali na prima infecção, durante o trabalho de parto”, avalia Garcia, da SBGG. 

mulher segurando um modelo de fígado feito de plástico
A contaminação pela hepatite A gera poucos sintomas no início. O que o paciente pode sentir são episódios leves de enjoo e náuseas. Envato

Existe também um cenário de risco paradoxal relacionado à hepatite A. Idosos que cresceram em cidades com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e excelente saneamento básico podem nunca ter entrado em contato com o vírus na infância. 

Adalgisa explica que, ao chegarem à vida adulta suscetíveis, caso se contaminem hoje, os idosos correm o risco de desenvolver quadros gravíssimos, como a hepatite fulminante - perda rápida e severa das funções do fígado. Os dados refletem essa gravidade: em 2024, a faixa etária que concentrou a maior frequência de óbitos tendo a hepatite A como causa básica foi justamente a de 60 anos ou mais.

O levantamento do VIVA aponta que, mesmo com o maior número de internações, a faixa dos 50 anos apresentou uma queda de 16,49% nas internações. Porém, as especialistas apontam que a situação ainda é de alerta frente a esse grupo. 

Sexualidade prolongada 

Um fator contemporâneo também impulsiona as estatísticas no envelhecimento: a sexualidade. Com o aumento da expectativa de vida e o uso de estimulantes sexuais, a atividade sexual na terceira idade foi significativamente prolongada

No entanto, Ana alerta que essa população apresenta uma forte resistência ao uso de preservativos, principalmente a camisinha, frequentemente justificada pelo medo de interromper o ato, perder a ereção e vivenciar um "insucesso" na relação — obstáculo que, segundo a geriatra, poderia ser contornado com o uso da camisinha feminina ou outros métodos contraceptivos. 

As especialistas destacam que a desinformação agrava o quadro, pois muitos idosos podem conhecer os riscos do HIV e da sífilis, por exemplo, mas desconhecem que as hepatites B e C também são Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) que circulam pelo sêmen ou contato com sangramentos de microlesões durante a relação sexual. 

Diagnóstico tardio

O grande perigo das hepatites B e C é o seu silêncio clínico. Isso porque o vírus consegue se replicar e afetar o fígado de forma crônica por décadas sem causar os sintomas clássicos de mal-estar e icterícia (amarelão) na fase inicial.

Diante desse contexto ainda há outro desafio: o rastreio médico. A geriatra Ana Carolina explica que, na prática, a investigação para ISTs como HIV e sífilis é comum na investigação de problemas de memória, porém as hepatites virais frequentemente passam despercebidas, sendo descobertas apenas quando exames de rotina evidenciam enzimas do fígado muito alteradas. 

Por causa desse diagnóstico tardio, os idosos muitas vezes costumam chegar aos consultórios já com cirrose, fibrose avançada ou câncer hepático. O tratamento nessa fase torna-se muito mais desafiador devido à fragilidade natural da idade, combinada ao uso de múltiplos remédios e às frequentes comorbidades renais ou cardíacas que dificultam a tolerância aos medicamentos do tratamento. 

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