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Giulia Gam volta à cena e celebra nova fase aos 59: 'Tenho mais liberdade’

Divulgação/Salinha42

Giulia Gam está de volta à cena, no teatro e em uma novela pensada para as plataformas digitais - Divulgação/Salinha42
Giulia Gam está de volta à cena, no teatro e em uma novela pensada para as plataformas digitais
Por Adriana Del Ré

25/07/2026 | 08h00 ● Atualizado | 11h15

São Paulo - Uma das atrizes consagradas da TV brasileira, Giulia Gam é frequentemente associada às grandes personagens que viveu por três décadas, como a corajosa Aline, de "Que Rei Sou Eu?" (1989), a determinada Linda Inês, de "Fera Ferida" (1993-1994), e a frágil Heloísa, de "Mulheres Apaixonadas" (2003). Após a novela "Boogie Oogie", Giulia decidiu se afastar das novelas, e assim permaneceu por 12 anos.

Giulia Gam está com cabelos curtos e brincos
Giulia Gam em "O Acerto de Contas das Gêmeas Trocadas", novelinha vertical da Globoplay - Divulgação/Globoplay

Aos poucos, no seu tempo, a atriz foi voltando à cena. Primeiro, subiu ao palco do teatro — o lugar que ela considera o mais seguro no mundo —, com "Senhoras dos Afogados", texto clássico de Nelson Rodrigues, ao lado grupo do Teatro Oficina, com direção de Monique Gardenberg. O espetáculo estreou em São Paulo, em 2025, onde ficou um ano em cartaz e, em setembro, segue para o Rio de Janeiro.  

Depois, veio o convite para voltar às novelas, mas não em um folhetim tradicional, como Giulia conhece tão bem, com muitos capítulos e pensado para a TV. A atriz, que fará 60 anos em dezembro, se viu desafiada: fazer parte do elenco de "O Acerto de Contas das Gêmeas Trocadas", novela vertical da Globoplay, curta e feita exclusivamente para plataformas digitais. 

Agora estou querendo me permitir fazer coisas sem ficar presa ao que eu fiz, ao que deixei de fazer", diz. 

Quando fala em teatro, TV e tudo o que envolve atuação, os olhos de Giulia brilham, como se fosse a garota de 15 anos que estreou nos palcos como Julieta, em "Romeu e Julieta", sob a direção de Antunes Filho. Mas agora com mais paciência — e, claro, com uma carreira consolidada e uma bagagem de vida, que inclui a maternidade. Ela é mãe do músico Theo Bial, hoje com 28 anos (de seu relacionamento com Pedro Bial).

Ao VIVA, ela fala dessa nova fase da vida, da volta às novelas e o que esse tempo afastada a ensinou. Veja os principais trechos. 

VIVA: São 12 anos desde “Boogie Oogie”, sua última novela na Globo. Como foi voltar às novelas, agora em um outro formato?

Giulia Gam: Voltei para São Paulo há dois anos e estava fazendo teatro, "Senhora dos Afogados". Então, recebi o convite dessa novela e achei interessante. Primeiro, eu quis ler o texto. Porque são 50 capítulos de um minuto cada, 50 minutos a novela toda. Falei: "Deixa eu ver como é que é a dramaturgia disso, se tem um personagem, como que é a estrutura disso”. Gostei muito. Acho que, dentro desse pouco tempo, o autor (Gustavo Reiz) conseguiu criar nuances nos personagens. Não há uma grande pretensão. É uma comédia romântica. O título já diz tudo. Falam: "Não tem spoiler”, mas o título já conta a história (risos).

O título é “O Acerto de Contas das Gêmeas Trocadas”, que também é um tema clássico.

A novela é totalmente clássica. São duas gêmeas que trocam de lugar e aí tem o casamento. Sou a mãe do noivo. Obviamente, uma gêmea foi criada de um jeito e a outra gêmea, de outro. Elas não se conhecem, vão descobrir a existência uma da outra mais para frente. Tem os elementos clássicos do folhetim. Você muda de linguagem mesmo, porque você trabalha verticalmente — e o nosso olhar está acostumado no horizontal, principalmente a gente que é da geração do cinema. Você não pode ter uma luz sofisticada, porque tem que se imaginar que essa pessoa está andando, no metrô, na fila de um banco. É tudo feito para não tirar atenção de quem está assistindo.

A maturidade te ajuda a abraçar esse novo com menos medo de errar?

Brinco às vezes, porque a gente fala de maturidade e não sei se sou madura. Sou experiente. Talvez você tenha duas possibilidades. Ou mantém o que já construiu e aí você tem medo de não querer mexer naquilo; ou você consegue –  agora vendo isso aos 60 – se permitir experimentar e falar: "Vamos ver. Se eu errar, errei. Paciência". Sei que tem uma parte das pessoas que tem esse preconceito: ‘Poxa, novelinha vertical". Achei inusitado. Agora, estou querendo me permitir fazer coisas sem ficar presa ao que fiz, ao que deixei de fazer, à imagem que as pessoas possam ter de mim. Estou no momento de ter mais liberdade comigo.

Acha que as novela mais tradicionais, com capítulos mais longos, ainda têm público?

Está tendo uma reviravolta muito grande. É claro que streaming veio com tudo, mas a gente tem no Brasil uma classe social que só tem acesso à TV aberta. Então, essa TV aberta tem um espaço ainda muito grande. Mas a juventude não vê mais TV. Não para para assistir a um produto em determinado horário. Até porque hoje você volta, vê do começo, vê do fim, volta de novo. A verdade é que a gente faz a nossa própria televisão.

Por que você decidiu se afastar das novelas? Foi por uma questão de saúde mental?

Não sei nem se foi mental. Foi uma questão de saúde. Estresse. Muitas coisas aconteceram na minha vida. Acho que você vai trabalhando, vai fazendo, mas chega uma hora que não tem como: você tem que dar uma parada e se realinhar. Precisei realmente desse tempo para me realinhar e acho que entendi muita coisa. É um novo momento. Me conheço muito agora." 

O teatro ainda é seu lugar mais seguro no mundo?

Giulia Gam está em cena com Christiane Torloni
Giulia Gam está em cena com Christiane Torloni, em "Mulheres Apaixonadas" - Divulgação/TV Globo

Acho que sim. Se bem que tenho privilégio, porque não é todo artista que transita do audiovisual para o teatro. São técnicas muito diferentes. Tem uma outra coisa que não sei se se chama carisma, se é comunicação, mas tem uma coisa do público gostar de você, se identificar com você. Sinto que as pessoas gostam de mim

Mesmo nesse tempo em que não fiz televisão, o tempo todo eu recebi mensagens perguntando quando eu ia voltar. Pude perceber isso desde o primeiro trabalho que fiz na televisão. Fui muito bem recebida como Jocasta (em "Mandala", de 1987). Como eu vinha de uma coisa elitista, do teatro do Antunes, contra a TV, claro que eu mesma tive muito preconceito de fazer televisão. Consegui mais recentemente até, talvez em “Mulheres Apaixonadas”, com a Heloísa.

A Heloísa é a sua personagem mais importante na sua carreira?

Com certeza, sim. Acho que é mais icônica — essa palavra também se usa muito. Porque ali não se tratava apenas da personagem, da história dela, mas revelou um sofrimento psíquico, que, no caso, era os ciúmes no mais alto grau.

É o que a gente chama hoje de dependência emocional, não?

Sim. Era a primeira vez que se levava esse assunto à TV. Hoje, graças a Deus, as coisas estão muito mais claras do que é uma relação tóxica, uma dependência emocional, da fragilidade da mulher perante um homem. Porque a relação sempre são dois. Foi uma pena o que aconteceu nessa novela, porque não mostrou muito o lado do homem. O Marcello Antony se ressentiu disso, eu também. Então ficou a Heloísa, coitada, enlouquecendo sozinha. Parecia que era uma coisa dela, uma questão dela, mas não é.

São mulheres que, na infância e na juventude, tiveram referências masculinas de ausência ou de insegurança e uma tensão no lar, com os pais. Quando cresceram, buscaram homens que geravam essa insegurança nelas, seja através dos ciúmes ou da ausência. Para mostrar isso, tinha que mostrar o personagem do Sérgio (de Antony) criando essa tensão. 

Você voltou a São Paulo e resgatou o sítio da família. Esse retorno às raízes se conecta com a sua ideia de envelhecer bem?

Giulia Gam está de braços abertos em cena
Giulia Gam em cena em "Senhora dos Afogados", de Nelson Rodrigues - Divulgação/Paula Caldas

Acho que tem a ver com raízes, sim. Morei 30 anos aqui. E no Rio, morei 30 anos, tive um filho, ele foi educado lá, ele fala com sotaque carioca, fiz amigos muito bacanas. Nunca tinha pensado em morar no Rio, mas acabei tendo que ficar lá. E sempre que você tem que ficar em algum lugar, tem resistência no começo. Mas minha genética é paulista. As sensações, as lembranças, a memória, a infância. Na questão do sítio, agora achei uma pessoa muito bacana, que tem uma produtora de eventos, que faz casamentos (no sítio). 

A gente não tem mais nenhuma segurança de uma empresa que vai te contratar e que você vai ter um salário. As pessoas cada vez mais estão criando, inventando. Inventar isso do sítio foi uma coisa para a qual me abri. E ter também uma estrutura financeira para que, com 60 anos, eu não tenha que me expor emocionalmente ou fisicamente a um trabalho que possa exigir demasiado de mim. Acho legal, estão me chamando de empreendedora agora.

Seu filho Theo está com 28 anos. Você vê a passagem do seu tempo nele?

Para mim, talvez nos 50 é que percebi mais tudo. Acho que os 50 anos para mim foram muito marcantes, porque foram os 18 anos do Theo. Falei: "Poxa, a vida veio então até aqui, como é que vai ser daqui para frente? Porque agora, aos 50, vou começar a envelhecer".

Aos 60 anos, depois que se passaram esses dez anos mais difíceis, recuperei uma liberdade. Até porque, quando você sente que seu filho está bem, escolheu uma profissão, tem essa independência financeira, emocional, isso dá um alívio para voltar a brincar. Porque até os 18, você está ali, naquele investimento, naquela observação."

Prestes a fazer 60 anos, qual o seu balanço de vida?

Vivi muita coisa que eu não precisaria ter vivido. Não acredito em destino. Você tem talvez uma possibilidade que lhe é dada, e vai depender de você lidar com isso. Você tem o livre arbítrio. Mas tem coisas que acontecem porque você não estava pronta para lidar com aquilo. Você também tem que se perdoar.

Estou me perdoando. Me culpei muito, mas vejo agora que não tive como fazer de outro jeito. Fui honesta dentro do que era possível fazer."

Algumas conclusões que posso tirar é que, aos 60, a conta física chega. Você tem que cuidar do seu corpo, da sua energia, da sua harmonia. Você vai atrair realmente o que você está vibrando.

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