Viver mais não basta: o desafio é chegar à velhice com autonomia
Reprodução/Instagram/@vaniaassaly
São Pàulo - O aumento da expectativa de vida observado nas últimas décadas trouxe um novo desafio para a medicina e para a sociedade: ampliar não apenas os anos de vida, mas também o período vivido com saúde, autonomia e capacidade funcional. É nesse contexto que surge a Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade, criada com a proposta de: aproximar a prática médica das evidências científicas e fortalecer uma cultura de prevenção.
À frente da entidade, a endocrinologista e nutróloga com atuação em medicina do estilo de vida Vania Assaly defende uma mudança de paradigma: em vez de concentrar esforços no tratamento de doenças já instaladas, é preciso investir continuamente em saúde e começar a prevenção muito antes do envelhecimento.
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VIVA - O que levou à criação da Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade?
Vania Assaly - O que estamos assistindo, na verdade, é a um fenômeno mundial de aumento da expectativa de vida. Isso acontece no mundo e não é diferente no Brasil. Existe uma distância entre expectativa de vida e expectativa de saúde que, ainda na área médica, nós não conseguimos alcançar.
Nós não conseguimos aumentar o tempo de vida com capacidade funcional. Entender esse processo de prevenção das principais doenças crônicas relacionadas ao envelhecimento requer um estudo profundo da ciência do envelhecimento."
O que precisa ser feito, então?
Para conhecermos e trabalharmos com longevidade, a primeira coisa é educar os profissionais de saúde, não só da área médica, mas também da nutrição, do exercício físico, da fisiologia, da fisioterapia e de todas as áreas envolvidas com a prevenção de doenças crônicas. São essas áreas que trazem realmente um resultado favorável para autonomia e capacidade funcional.
Educar os profissionais com uma ciência pautada em evidências científicas, e não em modismos e tendências, é o nosso objetivo ao criarmos a Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade.
Por quê?
As tendências mais populares acabam ocupando um espaço muito forte na mídia. Por isso, decidimos juntar um grupo de profissionais e pesquisadores fortes, da Unicamp, formar um alto comitê científico e trazer a proposta de educação continuada, com o objetivo foi formar melhores profissionais e trazer realmente um processo de transformação do modelo reativo da medicina, que é o de tratar doenças, para um modelo preventivo, que é investir continuamente em saúde.
É um novo estilo de medicina?
O investimento em saúde crônica é a base da medicina do estilo de vida. Sou fundadora da Latin American Lifestyle Medicine Association (Lalma). É um movimento para trazer os pilares da medicina do estilo de vida para a ciência da longevidade: buscamos um modelo que insira os conceitos de prevenção para uma atuação contínua em saúde e autonomia, de diminuir o tempo de vida com doenças crônicas.
Temos, claro, também um aspecto biopsicossocial. Há a parte biológica, que vai sofrer realmente os impactos do envelhecimento, mas também a sociedade em si e a parte geopolítica e econômica, que não sustentarão esse número de indivíduos com mais de 65 ou 80 anos.
Nós vamos viver possivelmente, para quem nasceu nos últimos 20 anos, até 90, 100 anos ou por aí. Então, como vamos lidar com esse número, com esse avanço de uma população idosa, sem recursos financeiros em saúde pública e privada?"
Como atuar na prevenção?
É preciso trabalhar desde os primeiros anos de vida nesse investimento contínuo. Essa pergunta sempre vem à pauta: quando começar? De que maneira podemos olhar para a prevenção de doenças crônicas em modelos educacionais, que podem ser introduzidos desde o período intrauterino, programando o melhor indivíduo longevo?
A mãe com nutrição adequada, uma exposição social com redução de poluentes, movimento, redução de estresse. Você imagina que esse tema se torna muito teórico para aquilo que vivemos de fato hoje.
A pauta, portanto, é mudar o conceito da medicina reativa para a preventiva. Esse é o nosso conceito principal: investir em saúde antes de a doença acontecer ou de causar um dano que não tenha mais ponto de retorno à mínima condição de saúde.
Veja o caso de um AVC. A pessoa tinha hipertensão, estava acima do peso, com colesterol alto, diabetes, teve um derrame, um AVC, e ficou acamada. Qual é o custo emocional? Qual é o custo financeiro? E qual é o tempo de vida com incapacidade, com essa não capacidade funcional? A perda da capacidade funcional, com custo em termos gerais, é uma coisa que queremos prevenir.
E como fica na educação?
Então, é preciso introduzir isso em escolas e em modelos educacionais nos primeiros anos de vida. Ter um olhar para uma merenda mais saudável do ponto de vista social e de saúde pública, colocar à disposição o movimento e o exercício físico, a música e a cultura. Isso é mudança política e social.
Nós, como médicos, temos muito um comportamento de tratar o paciente que está na nossa frente de uma maneira mais imediatista, socorrendo aquela doença que está ali. Mas esse lugar é muito pouco eficaz quando falamos de saúde pública.
É preciso, então, uma mudança cultural?
A saúde pública e o conceito de longevidade pedem, de uma maneira urgente, uma reforma no modelo vigente de atendimento quando o paciente está doente. Numa UPA, no SUS, precisamos rever isso, por exemplo. O básico bem-feito é capaz de reduzir a entrada das doenças antes dos 60 anos.
Em geral, após 60 a 65 anos, grande parte da população tem pelo menos duas doenças crônicas, e isso acaba acontecendo como uma cascata, na velocidade de envelhecimento. Você tem a obesidade e o diabetes, vai ter demência, infarto, e assim por diante. Então, a prevenção da obesidade já é um ponto muito importante."
Precisamos diminuir a medicalização e trabalhar com prevenção ativa, com os pilares centrais: nutrição, exercício e movimento, redução de hábitos nocivos, como tabagismo e etilismo e drogas ilícitas.
Qual é a estratégia?
O primeiro passo foi fundar a sociedade com pessoas muito sérias e capacitadas. Estamos buscando apoio de universidades. Temos a Unicamp como parceira, possivelmente um núcleo da Santa Casa, e vamos avançar no Rio de Janeiro. Estamos criando polos de representatividade, com um comitê de profissionais, um comitê de ética e um científico.
Temos sempre o nosso grupo de diretores científicos para olhar as publicações, trazer a regulamentação. Na minha posição de atual presidente, eu não sou pesquisadora organizadora, mas acabei trazendo a presença pelo tempo de profissionalismo na área e pelo conhecimento internacional.
Junto com a vice-presidente, Silvia La Grotta, do Rio de Janeiro, fizemos um capítulo internacional que traz as guias e políticas de boas práticas para o Brasil na pauta da medicina da longevidade.
Quando se fala em medicina antienvelhecimento, anti-aging, há muita promessa e pouco resultado, certo?
O ponto central é realmente ter essa diferenciação entre o que é tendência e o que é ciência. Isso alimentou o objetivo de criarmos essa sociedade com uma rigidez política e científica, que vai diferenciar de outras sociedades que já foram criadas no Brasil.
Não trabalhamos com antienvelhecimento. Trabalhamos com extensão de tempo de vida em saúde, com uma pauta muito consolidada pela ciência, que hoje está, por exemplo, no Buck Institute for Research on Aging, em Stanford, em todos os centros que trabalham com isso, na Rockefeller Foundation, em Cingapura, onde há um núcleo muito forte na universidade, e também em Israel e em vários centros de referência na Alemanha."
Não existe antienvelhecimento. Existe pró-envelhecimento, com a busca de qualidade de vida, autonomia, sem a perda da capacidade funcional, que é um dos termos mais bem colocados hoje pela sociedade de geriatria.
Investir em patrimônio muscular, em capacidade cardiopulmonar, em cognição, em redução de demência como uma pauta central após os 85 anos. Temos um aumento de indivíduos com mais de 85 anos e dificilmente encontramos esse paciente com autonomia motora ou capacidade de decisão e memória.
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