Pesquisas com psilocibina e cannabis medicinal para fibromialgia avançam
Envato
Por Bianca Bibiano
27/01/2026 | 08h22
São Paulo, 27/01/2026 - A dor crônica afeta cerca de um terço da população mundial e representa um dos maiores desafios da medicina contemporânea, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, condições como fibromialgia, que causam esse tipo de sintoma, impactam de forma significativa a qualidade de vida dos pacientes, muitas vezes sem resposta satisfatória aos tratamentos convencionais.
Nesse cenário, pesquisas científicas vêm ampliando o debate sobre o uso terapêutico de substâncias como a psilocibina - presente em algumas espécies de cogumelos - e os derivados da cannabis medicinal, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), como estratégias complementares no manejo da dor crônica.
Psilocibina: nova fronteira no tratamento da dor
Diferentemente dos analgésicos tradicionais, que atuam principalmente no alívio dos sintomas, a psilocibina tem sido estudada por sua ação nos receptores serotoninérgicos do sistema nervoso central.
De acordo com o estudo Psilocibina como um novo tratamento para dor crônica, publicado no periódico europeu British Journal of Pharmacology, o composto demonstrou potencial para promover reorganização neural e alívio prolongado da dor com uma ou poucas doses, sem os riscos de dependência associados aos opioides.
Segundo o médico Lucas Cury, pós-graduado em neurologia e pesquisador da área, resultados experimentais apontam efeitos promissores tanto em fibromialgia quanto em outras condições, como dor neuropática, cefaleias recorrentes e dor oncológica. Ele diz que em modelos animais uma única dose reduziu comportamentos relacionados à dor por até dez semanas. Já em ensaios clínicos, pacientes com enxaqueca e dor associada ao câncer relataram melhora tanto da dor quanto do bem-estar emocional.
"Estamos diante de uma mudança de paradigma. A psilocibina não atua apenas sobre a dor física, mas também sobre o sofrimento emocional que a acompanha. É uma abordagem que combina ciência, empatia e inovação terapêutica", afirma o médico. Segundo ele, a substância pode contribuir para uma abordagem mais integrada, que considere os aspectos neurobiológicos e psicológicos da dor crônica.
Reconhecimento regulatório
Nos Estados Unidos, a psilocibina já é classificada pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, como terapia autorizada para depressão resistente ao tratamento. Esse reconhecimento tem impulsionado estudos em outras áreas, incluindo a dor crônica, que compartilha mecanismos semelhantes, como inflamação persistente e desregulação da serotonina.
No Brasil, o uso terapêutico de psicodélicos ainda está restrito ao campo da pesquisa científica, o que reforça a necessidade de debate regulatório, protocolos clínicos rigorosos e acompanhamento multiprofissional.
Cannabis medicinal e fibromialgia
Além da psilocibina, os derivados da cannabis medicinal vêm sendo estudados como alternativa terapêutica no manejo da dor crônica, incluindo casos de fibromialgia. Segundo a farmacêutica Tarsila Tomaz Lins Couto, da Cannabis Company, primeira farmácia especializada do Brasil, o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) são hoje as principais substâncias investigadas nesse contexto.
"O canabidiol e o THC estão se mostrando eficaz na fibromialgia, dentre outras, dada as suas ligações aos receptores CB1 e CB2, esses que mantém a homeostase do corpo humano", explica. Em linhas gerais, a homeostase é o processo pelo qual o organismo mantém constantes as condições internas necessárias para a vida.
De acordo com a especialista, os derivados da cannabis medicinal possuem ação anti-inflamatória e capacidade de modular o sistema imunológico.
Mesmo que a fibromialgia não seja considerada uma doença autoimune, ela apresenta uma desregulação imunológica".
Ela acrescenta que o THC tem se mostrado "cada vez mais uma alternativa para dores crônicas que não respondem adequadamente a medicamentos convencionais, como analgésicos, que costumam ser pouco eficazes nesses casos".
Cuidados adicionais
Couto ressalta que o uso da cannabis medicinal exige atenção especial em pacientes em polifarmácia, ou seja, que utilizam mais de quatro medicamentos de forma contínua. "É fundamental realizar um mapeamento com o médico de confiança para avaliar possíveis interações medicamentosas", orienta.
Segundo ela, essas interações podem ocorrer com medicamentos para controle do colesterol, anti-inflamatórios, antipsicóticos, alguns antibióticos e até fármacos amplamente utilizados e considerados 'inofensivos', como o paracetamol e medicamentos da família do omeprazol. "O importante é sempre verificar com o médico responsável", destaca.
A farmacêutica explica ainda que, nos casos de uso de medicações com o canabidiol, as orientações incluem espaçar as doses em relação a outros medicamentos, com um intervalo mínimo de 30 minutos entre as ingestões. "Se apresentar qualquer efeito adverso, interromper o uso e comunicar o seu médico", conclui.
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