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Tratamento de diálise em casa permite que pacientes mantenham rotina ativa

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A diálise peritoneal é um tipo de tratamento que pode ser feito em casa para tratar doença renal crônica em pacientes que aguardam transplante - AdobeStock
A diálise peritoneal é um tipo de tratamento que pode ser feito em casa para tratar doença renal crônica em pacientes que aguardam transplante
Por Bianca Bibiano

14/08/2026 | 16h49

São Paulo - Aos 52 anos, a babá Elisangela dos Santos, do Rio de Janeiro, enfrenta doença renal crônica e é uma das mais de 40 mil pessoas que aguardam um rim na fila do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), de acordo com as estimativas do Ministério da Saúde. Apesar da gravidade do caso, ela conseguiu se organizar para fazer diálise todas as noites na sua própria casa e diz que não deixa o tratamento impactar na rotina de trabalhos, academia, passeios e convivência com a neta.

A possibilidade encontrada por ela foi a diálise peritoneal, que utiliza uma membrana natural do abdômen, chamada peritônio, para filtrar e remover toxinas e o excesso de líquidos do organismo. Após treinamento, o procedimento pode ser realizado pelo próprio paciente em casa, com acompanhamento de uma equipe de saúde.

Há modalidades manuais e automatizadas. Nesta última, uma máquina realiza as trocas do líquido durante o período de sono, permitindo que o paciente organize o restante do dia de acordo com sua rotina.

Como é a diálise peritoneal

Apesar de oferecer mais flexibilidade, a diálise peritoneal usada por Elisangela representava apenas 5,6% dos tratamentos renais realizados no País em 2025. Os mais conhecidos são a hemodiálise, usada em 87,3% dos casos, e a hemodiafiltração, em 7,1%, segundo o Observatório Nacional de Dados da Diálise, da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT).

Elisangela dos Santos, 52 anos, em foto de acervo pessoal
Elisangela dos Santos realiza diálise peritoneal durante a noite para conseguir manter a rotina durante o dia - Acervo pessoal

Para ela, essa possibilidade foi determinante ao preservar a autonomia. A doença surgiu após o diagnóstico de lúpus, que comprometeu seus rins. A alteração foi identificada durante os exames realizados para investigar a enfermidade. “Receber a notícia foi como se o chão abrisse e eu estivesse caindo”, recorda.

Algumas adaptações foram necessárias para garantir o tratamento, como evitar carregar peso e rever o consumo de determinados alimentos. Quando ela tem algum compromisso, também procura organizá-lo antes do início da diálise ou após o término do procedimento. O mais difícil, porém, foi aceitar a necessidade do tratamento, relata.

A aceitação da diálise e de depender da máquina para viver foi uma das etapas mais difíceis do processo”, afirma.

Ela conta que há momentos nos quais se sente triste, com a autoestima baixa e sem disposição. Ainda assim, procura preservar atividades que lhe proporcionam prazer e bem-estar. “Sou uma guerreira”, define.

Tratamento ainda pouco utilizado

O cenário ganha relevância diante do crescimento da população que depende de terapia renal substitutiva. O Observatório da ABCDT aponta que 170 mil brasileiros estavam em tratamento em dezembro de 2025, número que representa um crescimento de 9,2% em relação ao ano anterior. 

máquina de diálise peritonial
Máquina de diálise para uso doméstico - Divulgação/ABCDT

Segundo o Observatório da ABCDT, o Brasil conta com 898 centros de diálise para atender esses pacientes, sendo 37% dos atendimentos fora do município de residência do paciente. Entre aqueles que precisavam se deslocar para outra cidade, a distância média percorrida era de mais de 100 quilômetros.

Outro desafio é o diagnóstico tardio da doença renal crônica. Muitos pacientes chegam ao tratamento em situação de urgência e iniciam a hemodiálise sem que tenha sido possível realizar um planejamento prévio da terapia renal substitutiva, observa o presidente da ABCDT, Ricardo Akel.

Entre os fatores que ajudam a explicar o predomínio histórico da hemodiálise estão diferenças na oferta de programas de diálise peritoneal, necessidade de equipes treinadas para acompanhamento domiciliar e falta de informação dos próprios pacientes sobre as alternativas existentes.

“Ainda existe um olhar muito limitado sobre quem faz diálise. Muitas pessoas enxergam apenas a enfermidade ou a máquina e deixam de perceber o ser humano que está ali. Há pacientes que trabalham, estudam, praticam esportes, cuidam da família e realizam sonhos graças ao tratamento", afirma o presidente da ABCDT.

A escolha do tratamento deve considerar não apenas a condição clínica, mas também a realidade social, familiar e profissional de cada pessoa." 

Ele ressalta que é preciso garantir que os pacientes tenham acesso às diferentes modalidades e possam receber um tratamento adequado às suas necessidades.

Akel pondera que ampliar o acesso à diálise peritoneal não significa substituir a hemodiálise, que continuará disponível a quem precisa, mas sim "oferecer mais possibilidades e permitir uma decisão individualizada, com segurança e qualidade".

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