Ultraprocessados viciam como cigarro, aponta estudo de universidades dos EUA
Foto: Envato Elements
04/02/2026 | 09h07
São Paulo, 04/02/2026 - Um novo estudo publicado por três universidades estadunidenses sugere que os alimentos ultraprocessados não são apenas comida, mas sim "substâncias industriais projetadas", criadas para viciar o cérebro da mesma forma que o cigarro e alertam para a regulamentação desses produtos.
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A pesquisa realizada por pesquisadores das universidades de Harvard, Michigan e Duke faz uma comparação detalhada entre a indústria do tabaco e a dos ultraprocessados. A conclusão é alarmante: batatas fritas, refrigerantes e doces industrializados seguem uma "receita" de engenharia focada em maximizar o desejo e o consumo compulsivo.
O que são ultraprocessados?
De acordo com o Ministério da Saúde, são alimentos, geralmente, são ricos em gorduras, açúcares ou sódio. A categoria inclui produtos alimentícios como biscoitos, batatas chips, salgadinhos e refrigerantes, que são muito conhecidos por serem atraentes, práticos e baratos.
Ultraprocessados e cigarros
Assim como os fabricantes de cigarro descobriram a quantidade exata de nicotina para viciar sem causar repulsa, a indústria de alimentos faz o mesmo, de acordo com o estudo.
- Cigarro: é projetado para ter entre 1% e 2% de nicotina. Essa é a faixa que garante o vício sem deixar o fumante enjoado ou tonto demais;
- Ultraprocessados: esses produtos buscam o "ponto ideal" de açúcar e gordura. Por exemplo, refrigerantes têm cerca de 10% de açúcar, uma concentração que ativa o prazer no cérebro de forma similar a drogas em testes com animais. Já doces e salgadinhos combinam carboidratos refinados e gordura de uma maneira que quase nunca existe na natureza, tornando-os muitas vezes irresistíveis.
Rapidez para chegar ao cérebro
Segundo o estudo, para uma substância ser viciante, ela precisa chegar rápido ao cérebro. Dessa forma, o cigarro foi modificado quimicamente para que a nicotina chegue ao cérebro em segundos através dos pulmões.
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Os ultraprocessados, por sua vez, são descritos pelos pesquisadores como "pré-mastigados" e "pré-digeridos". Assim, a indústria remove as fibras e a água, fazendo com que o açúcar e a gordura entrem na corrente sanguínea rapidamente, gerando um pico de prazer quase imediato, muito diferente de comer uma fruta ou vegetal integral.
Vício proposital
Você já notou como alguns salgadinhos parecem derreter na boca? Isso não é acidental; é o que os cientistas chamam de "baixa permanência" ou short hang time. Para que isso aconteça, os sabores e a textura dos ultraprocessados são projetados para desaparecerem rapidamente da boca. Isso engana o cérebro, que não registra saciedade, e desperta o desejo imediato de comer mais.
Executivos da indústria de sabores admitem que o objetivo é não deixar o gosto permanecer muito tempo, para criar um ciclo de "vício".
Tal estratégia é similar ao cigarro. Isso porque, o efeito da nicotina passa rápido, fazendo o fumante querer outro cigarro logo em seguida.
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Táticas de consumo
As duas indústrias usam táticas para fazer produtos nocivos parecerem mais seguros. No passado, a indústria lançou cigarros "Light" ou com filtros, prometendo ser menos nocivos, embora continuassem viciantes e perigosos. Hoje, há os ultraprocessados rotulados como "baixo teor de gordura", "sem açúcar" ou "com vitaminas adicionadas".
Segundo o estudo, isso é apenas uma maquiagem. O produto continua sendo uma substância industrial viciante, mas o rótulo faz o consumidor se sentir menos culpado e continuar comprando.
Essa semelhança não é coincidência. O estudo destaca que grandes empresas de tabaco, como a Philip Morris e a R.J. Reynolds, compraram grandes empresas de alimentos (como Kraft e Nabisco) entre os anos 1980 e 2000. Elas transferiram seu conhecimento sobre sabores, aditivos e marketing do cigarro para a comida.
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Impacto real na saúde pública
O custo para a saúde pública é alto. O estudo aponta que os ultraprocessados estão ligados a doenças cardíacas, câncer, diabetes e obesidade. Nos Estados Unidos, estima-se que uma pessoa morra a cada quatro minutos devido a doenças evitáveis associadas ao consumo desses produtos.
Para buscar mitigar esses danos, os pesquisadores concluem que é preciso parar de culpar apenas a "força de vontade" individual. Eles sugerem que governos adotem medidas que funcionaram contra o tabaco, como restrições de publicidade (especialmente para crianças), impostos mais altos e avisos claros nos rótulos.
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