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Com preços em queda, mercado de ultraprocessados avança sem travas em 2026

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Idec tem acompanhado mais de perto para esse histórico de preços comparando os dois grupos de alimentos desde a pandemia - Envato
Idec tem acompanhado mais de perto para esse histórico de preços comparando os dois grupos de alimentos desde a pandemia
Fabiana Holtz
Por Fabiana Holtz fabiana.holtz@viva.com.br

Publicado em 29/11/2025, às 12h00

São Paulo, 29/11/2025 – A convergência de preços que tem favorecido o consumo de alimentos ultraprocessados (como embutidos e refrigerantes) preocupa especialistas e tem chamado a atenção para a relevância da adoção de políticas públicas que consigam conter o aprofundamento das desigualdades alimentares no país.

Ana Maria Maya com camiseta do Idec sorrindo
Nosso sistema de controle para consumo de ultraprocessados ainda é insuficiente, diz Maya, do Idec
Foto: Divulgação

Pesquisa recente sobre a tendência de preços para alimentos ultraprocessados e saudáveis em 2026, realizada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em parceria com dois grupos de estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – o GEIPS e o GEPPAAS – revelou dados alarmantes. Enquanto se observou uma redução gradual nos preços da segunda categoria (os ultraprocessados) da pandemia até os dias atuais, os alimentos saudáveis se mostraram progressivamente mais caros.

Leia também: Este é o tempo de vida saudável que você perde ao comer mal, segundo estudo

Segundo Ana Maria Maya, especialista do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, que participou da pesquisa, conta em entrevista exclusiva ao VIVA que o Idec tem acompanhado com mais atenção para esse histórico de preços comparando os dois grupos de alimentos desde a pandemia.

Tendência antecipada

“A tendência para os preços dos ultraprocessados era de ficarem mais baratos que os alimentos saudáveis em 2026, mas agora identificamos que esse movimento pode ter se antecipado para 2025”, observa Maya.

Segundo ela, políticas fiscais mais abrangentes e coordenadas são essenciais para promover uma alimentação mais equilibrada, acessível e sustentável.  “A nossa carga tributária não olha para quem produz”, pontua a especialista.

Embora em 2018, os ultraprocessados ainda fossem mais caros em relação aos saudáveis, o estudo indica que a partir de 2024 houve uma convergência nos preços médios entre os dois grupos.

A apontar para o perigo dessa convergência de preços, Maya pede por políticas públicas mais consistentes e recorda dados importantes relacionados ao impacto dessa realidade na saúde do brasileiro.

Doenças ligadas ao consumo de ultraprocessados representam um custo anual de R$ 9,2 bilhões para o SUS.

Queda preocupante

Entre 2018 e 2024 foi registrada uma queda de 16% nos preços médios dos ultraprocessados, que passaram de R$ 22,20 para R$ 18,80. A categoria de processados também apresentou uma queda considerável no mesmo período, recuando de R$ 26,10 para R$ 22,60. A tendência de preços para ultraprocessados, de acordo com a pesquisa, é de queda - para R$ 18,40 em 2025 e R$ 17,90 em 2026.

Ao mesmo tempo, os preços dos alimentos in natura ou minimamente processados e os ingredientes culinários processados seguiram o caminho inverso durante a pandemia de Covid-19, saltando de R$ 18,90 em 2018 para R$ 21,30 em 2021, e retornando para o patamar de R$ 18,60 em 2024. E a tendência para este ano é de leve alta, batendo em R$ 19,50  e em R$ 19,60 em 2026.

Entre os fatores que levaram a essa convergência de preços, Maya cita a dificuldade que esses alimentos mais frescos e perecíveis têm para chegar ao consumidor e o número de atravessadores atuando ao longo do processo.

A política nacional de incentivo fiscal hoje, acrescenta Maya, está muito mais direcionada para a commodity.

O incentivo para soja é o dobro do que o oferecido para os produtos presentes na nossa cesta básica (como arroz, feijão). Não temos essa mesma oferta para a produção de alimentos saudáveis.

Caminhos da pesquisa

Os estudos do Idec e da UFMG que analisam como o mercado e as políticas fiscais moldam o preço dos alimentos contou com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2017/2018, do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD contínua). As abordagens dos estudos permitem isolar efeitos de preço, renda e política fiscal. 

O levantamento também utilizou dados de outro estudo, que tinha como meta avaliar os impactos da Reforma Tributária sobre a demanda e consumo de alimentos no Brasil. Nesse estudo se concluiu que os alimentos que o arroz e o feijão fazem parte da cesta básica continuam sendo os alimentos mais importantes no orçamento familiar e menos sensíveis a variações de preço. Ou seja, seu consumo varia pouco, mesmo diante do aumento de preço.

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Entretanto, o mesmo estudo mostrou que os ultraprocessados e bebidas adoçadas se destacam por sua maior sensibilidade à renda e ao preço. Em outras palavras: o consumo desses produtos tende a crescer de forma mais acelerada à medida que a renda da família aumenta. E o mais preocupante: quando o preço das frutas e verduras sobe, as famílias tendem a substituir esses itens por produtos como pães, biscoitos e refrigerantes.

Poder do preço e mudanças climáticas

De fato, o preço tem um peso decisivo sobre a escolha do que o consumidor vai levar para casa ou não. “Existe atualmente uma grande preocupação com o impacto das mudanças climáticas nos preços de alimentos saudáveis e isso é preocupante porque a situação tem só favorecido a produção de ultraprocessados”, alerta.

Políticas regulatórias para o controle de consumo de ultraprocessados têm avançado no México e na Colômbia, conta Maya, mas no Brasil vemos que o sistema ainda é insuficiente.

Nossa política com relação aos ultraprocessados é muito permissiva nos limites e nos ingredientes. Tem muito produto que é muito ruim e não tem selo de advertência.

Outro ponto lembrado por ela é que ainda não proibimos a venda de ultraprocessados nas escolas. “Isso é um projeto de lei de 2020 (PL 4501/2020), que está parado no Congresso por conta do lobby da indústria”.   

Regular a publicidade desses produtos, principalmente a voltada para as crianças, e a adoção de políticas que contribuam para a redução de preços dos produtos saudáveis e limitem o acesso aos ultraprocessados são outros pontos urgentes e necessários defendidos pela especialista do Idec.

“Sabemos o que é preciso fazer. O cenário está muito posto. É olhar para as nossas políticas e ver para onde os nossos recursos estão chegando e onde não estão”, conclui.

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