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Ultraprocessados mais baratos: a causa de um 'envelhecimento malsucedido'

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Junto à redução preços dos ultraprocessados da pandemia até os dias atuais, os alimentos saudáveis ficam cada vez mais caros - Foto: Freepik
Junto à redução preços dos ultraprocessados da pandemia até os dias atuais, os alimentos saudáveis ficam cada vez mais caros
Emanuele Almeida
Por Emanuele Almeida

Publicado em 29/11/2025, às 14h00

São Paulo, 29/11/2025 – Os alimentos ultraprocessados estão substituindo rapidamente os alimentos naturais e minimamente processados nas refeições dos brasileiros. É o que aponta uma coletânea de artigos alarmantes publicados na revista científica internacional The Lancet.

O levantamento foi realizado por 43 cientistas de vários países, incluindo o Brasil, e analisou mais de 100 estudos sobre o tema, revelando que o crescimento do consumo de ultraprocessados é uma realidade presente em diversas nações.

  • Brasil e México: o consumo diário aumentou de 10% para 23%.
  • Espanha: subiu de 11% para 31%.
  • Estados Unidos: o consumo se mantém acima de 50% nas últimas duas décadas.

Alimentação em 2026 

A preocupação com a maior inserção dos alimentos ultraprocessados na alimentação diária aumenta drasticamente diante da tendência de diminuição dos preços desse tipo de produto, tornando-o mais acessível que as opções saudáveis.

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Um estudo sobre a tendência de preços para alimentos ultraprocessados e saudáveis em 2026, realizado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em parceria com dois grupos de estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – o GEIPS e o GEPPAAS – mostrou que, enquanto houve uma redução gradual nos preços dos ultraprocessados da pandemia até os dias atuais, os alimentos saudáveis se mostraram cada vez mais caros.

O estudo registrou uma queda de 16% nos preços médios dos ultraprocessados, que passaram de R$ 22,20 para R$ 18,80, entre 2018 e 2024. A tendência, de acordo com a pesquisa, é de queda contínua: para R$ 18,40 em 2025 e R$ 17,90 em 2026 para estes produtos.

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Esse movimento de queda nos preços é resultado de estratégias de mercado para reduzir custos e impulsionar o consumo. A série de artigos publicada no The Lancet destaca que as empresas utilizam ingredientes baratos e métodos industriais para diminuir os gastos, combinados com marketing agressivo e designs atraentes para despertar o desejo de consumo.

“Estratégias políticas são implementadas para bloquear a regulamentação governamental e suprimir a oposição, garantindo a continuidade do crescimento [desse mercado de ultraprocessados]”, afirmam os autores na publicação.

Na prática, o processo de ultraprocessamento é projetado para criar substitutos comerciais de marca para alimentos integrais e refeições preparadas, deslocando padrões de alimentação já estabelecidos. Assim, alguém que tomaria um suco natural de laranja acaba optando por um refrigerante sabor laranja.

Mapa que demonstra as marcas que mais promovem alimentos ultraprocessados como Nestlé, Unilever
O aumento do consumo de ultraprocessados não parte apenas de uma escolha individual dos consumidores, mas sim de estratégias de empresas de ampliação de produção e oferecimento dos produtos. Imagem reprodução do artigo em The Lancet

Quem mais compra ultraprocessados?

O movimento de consumo segue um padrão específico: afeta primeiro as nações e grupos mais ricos, antes de se espalhar para os de menor renda.

É em países mais ricos, como nos EUA e no Reino Unido, que o padrão alimentar baseado em ultraprocessados já está bem estabelecido e a compra desses produtos se mantém maior.

Mas, embora as nações ricas consumam a maior quantidade absoluta (em kg por pessoa), o maior crescimento nas vendas está ocorrendo em nações em desenvolvimento. Em Uganda, por exemplo, as vendas de ultraprocessados aumentaram 60%. Esse movimento também é visto na América Latina e Caribe, região onde o Brasil se encontra, acentuado pela diferença de preços que afeta a população de menor renda.

Consequências e envelhecimento

O consumo constante de uma dieta rica em alimentos ultraprocessados é um motor fundamental para o aumento da carga global de diversas doenças crônicas relacionadas à alimentação, como obesidade, diabetes, doenças cardíacas, doença cerebrovascular, e demência. Tais consequências não acontecem de forma imediata, mas são ocasionadas pelo consumo diário desses alimentos, impactando diretamente a forma como o corpo envelhece.

As evidências reunidas em estudos ao longo dos últimos anos apontam que dietas ricas em ultraprocessados estão relacionadas a um perfil nutricional precário, caracterizado por:

  • Alta ingestão de calorias;
  • Má qualidade nutricional;
  • Excesso de açúcar e gorduras não saudáveis;
  • Baixo teor de fibras e proteínas;
  • Maior exposição a aditivos e substâncias químicas nocivas.

A médica geriatra e diretora do Biobanco para Estudos em Envelhecimento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Claudia Suemoto, aponta que a constância de uma dieta rica em ultraprocessados ocasiona um “envelhecimento malsucedido”.

“Como são alimentos com conservantes, emolientes, gorduras, eles têm alto teor de sal e açúcar. Então, isso está realmente promovendo o aparecimento do número de casos de doenças crônicas, além de um envelhecimento cheio de incapacidades, quando chega a afetar a saúde cardiovascular e cerebral”, explica.

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O que é preciso fazer

O trabalho propõe que haja a responsabilização das grandes empresas pelo papel que desempenham na disseminação de dietas não saudáveis.

Assim, o texto ressalta que, para melhorar as dietas em escala global, são necessárias políticas específicas e corajosas, que complementem as legislações já existentes voltadas à redução do teor de gorduras, sal e açúcar nos alimentos.

O segundo artigo da série publicada elenca as seguintes ações prioritárias:

  • Restrições rigorosas à publicidade;
  • Proibição de ultraprocessados em instituições públicas como escolas e hospitais;
  • Limitação da exposição e espaço desses produtos nas prateleiras de supermercados;
  • Taxação de determinados alimentos ultraprocessados para financiar subsídios a alimentos frescos.

Claudia reforça o aumento dos impostos sobre os alimentos processados e destaca que esse movimento precisa ser feito em conjunto com políticas que facilitem o acesso a alimentos saudáveis ou minimamente processados para pessoas de baixa renda.

“É importante também educar a população sobre o malefício desse tipo de alimento. Hoje já há projetos que buscam fazer isso, mas a informação ainda não chega a todos. As pessoas têm que ter acesso à informação das consequências de se consumir diariamente ultraprocessados em grandes quantidades”, conclui.

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