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Publicado em 29/11/2025, às 14h00
São Paulo, 29/11/2025 – Os alimentos ultraprocessados estão substituindo rapidamente os alimentos naturais e minimamente processados nas refeições dos brasileiros. É o que aponta uma coletânea de artigos alarmantes publicados na revista científica internacional The Lancet.
O levantamento foi realizado por 43 cientistas de vários países, incluindo o Brasil, e analisou mais de 100 estudos sobre o tema, revelando que o crescimento do consumo de ultraprocessados é uma realidade presente em diversas nações.
A preocupação com a maior inserção dos alimentos ultraprocessados na alimentação diária aumenta drasticamente diante da tendência de diminuição dos preços desse tipo de produto, tornando-o mais acessível que as opções saudáveis.
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Um estudo sobre a tendência de preços para alimentos ultraprocessados e saudáveis em 2026, realizado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em parceria com dois grupos de estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – o GEIPS e o GEPPAAS – mostrou que, enquanto houve uma redução gradual nos preços dos ultraprocessados da pandemia até os dias atuais, os alimentos saudáveis se mostraram cada vez mais caros.
O estudo registrou uma queda de 16% nos preços médios dos ultraprocessados, que passaram de R$ 22,20 para R$ 18,80, entre 2018 e 2024. A tendência, de acordo com a pesquisa, é de queda contínua: para R$ 18,40 em 2025 e R$ 17,90 em 2026 para estes produtos.
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Esse movimento de queda nos preços é resultado de estratégias de mercado para reduzir custos e impulsionar o consumo. A série de artigos publicada no The Lancet destaca que as empresas utilizam ingredientes baratos e métodos industriais para diminuir os gastos, combinados com marketing agressivo e designs atraentes para despertar o desejo de consumo.
“Estratégias políticas são implementadas para bloquear a regulamentação governamental e suprimir a oposição, garantindo a continuidade do crescimento [desse mercado de ultraprocessados]”, afirmam os autores na publicação.
Na prática, o processo de ultraprocessamento é projetado para criar substitutos comerciais de marca para alimentos integrais e refeições preparadas, deslocando padrões de alimentação já estabelecidos. Assim, alguém que tomaria um suco natural de laranja acaba optando por um refrigerante sabor laranja.
O movimento de consumo segue um padrão específico: afeta primeiro as nações e grupos mais ricos, antes de se espalhar para os de menor renda.
É em países mais ricos, como nos EUA e no Reino Unido, que o padrão alimentar baseado em ultraprocessados já está bem estabelecido e a compra desses produtos se mantém maior.
Mas, embora as nações ricas consumam a maior quantidade absoluta (em kg por pessoa), o maior crescimento nas vendas está ocorrendo em nações em desenvolvimento. Em Uganda, por exemplo, as vendas de ultraprocessados aumentaram 60%. Esse movimento também é visto na América Latina e Caribe, região onde o Brasil se encontra, acentuado pela diferença de preços que afeta a população de menor renda.
O consumo constante de uma dieta rica em alimentos ultraprocessados é um motor fundamental para o aumento da carga global de diversas doenças crônicas relacionadas à alimentação, como obesidade, diabetes, doenças cardíacas, doença cerebrovascular, e demência. Tais consequências não acontecem de forma imediata, mas são ocasionadas pelo consumo diário desses alimentos, impactando diretamente a forma como o corpo envelhece.
As evidências reunidas em estudos ao longo dos últimos anos apontam que dietas ricas em ultraprocessados estão relacionadas a um perfil nutricional precário, caracterizado por:
A médica geriatra e diretora do Biobanco para Estudos em Envelhecimento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Claudia Suemoto, aponta que a constância de uma dieta rica em ultraprocessados ocasiona um “envelhecimento malsucedido”.
“Como são alimentos com conservantes, emolientes, gorduras, eles têm alto teor de sal e açúcar. Então, isso está realmente promovendo o aparecimento do número de casos de doenças crônicas, além de um envelhecimento cheio de incapacidades, quando chega a afetar a saúde cardiovascular e cerebral”, explica.
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O trabalho propõe que haja a responsabilização das grandes empresas pelo papel que desempenham na disseminação de dietas não saudáveis.
Assim, o texto ressalta que, para melhorar as dietas em escala global, são necessárias políticas específicas e corajosas, que complementem as legislações já existentes voltadas à redução do teor de gorduras, sal e açúcar nos alimentos.
O segundo artigo da série publicada elenca as seguintes ações prioritárias:
Claudia reforça o aumento dos impostos sobre os alimentos processados e destaca que esse movimento precisa ser feito em conjunto com políticas que facilitem o acesso a alimentos saudáveis ou minimamente processados para pessoas de baixa renda.
“É importante também educar a população sobre o malefício desse tipo de alimento. Hoje já há projetos que buscam fazer isso, mas a informação ainda não chega a todos. As pessoas têm que ter acesso à informação das consequências de se consumir diariamente ultraprocessados em grandes quantidades”, conclui.
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