Como é ter 25 anos e se sentir com 85: VIVA experimenta simulador de empatia
Ana Mello/VIVA
São Paulo - Imagine tentar abrir uma simples embalagem, caminhar até a esquina ou ler o rótulo de um remédio lidando com rigidez articular, visão embaçada e audição reduzida de um corpo acima dos 70 anos. Essa é a proposta do Simulador Realístico de Empatia Etária.
A ferramenta oferece uma vivência prática e imersiva que permite a qualquer pessoa sentir, na própria pele, os desafios físicos e sensoriais atrelados ao envelhecimento. Foi o que a gente aqui no VIVA fez.
A colunista Tati Gracia trouxe o equipamento para a redação e eu o testei realizando ações cotidianas de repórter. E, quem diria que apenas anotar a agenda do dia seria tão difícil? Ou até mesmo abrir a própria bolsa?! As talas presas nos braços e nas mãos enrijecem até mesmo os movimentos mais simples como o de pinça ao segurar uma caneta ou puxar um zíper.
Andar, então, é outro desafio. Para subir uma leva de escadas durante um dia qualquer, eu levo em torno de 12 segundos. Com o equipamento, esse tempo foi para mais de 30 segundos. A dificuldade não está somente nas pernas e na coluna, mas a visão também fica prejudicada ao usar os óculos que simulam comorbidades como glaucoma. Dessa forma, a sensação de insegurança reina no corpo todo.
O uso do celular é outro limitador. Existiu um tempo em que eu não entendia porque muitos idosos seguram o celular com uma mão e digitam com a outra, diferente de nós jovens, que unimos as duas e fazemos as ações ao mesmo tempo. Com o equipamento, percebi que a falta de agilidade e mobilidade das mãos não permite que esse tipo de ação seja feita com tanta facilidade. A leitura também não fica das melhores - para isso é preciso que as letras sejam maximizadas.
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Falta de preparo para o envelhecimento
No fim das contas, experimentar o simulador não é apenas sobre mimetizar a velhice, mas receber um convite prático à ação inclusiva.
Ao acompanhar o experimento, Tati Gracia, que é analista comportamental e gerontóloga, observou que na maioria das vezes o problema não está no corpo que envelhece, mas no entorno, no mundo que não foi pensado para acomodar essas mudanças.
O envelhecimento deixou de ser apenas uma pauta da saúde e passou a ser uma pauta de mercado, consumo, comunicação e liderança”.
Para preencher essa lacuna de compreensão mercadológica e social, a máquina de empatia busca reproduzir as alterações do tempo. Na prática, quem veste o traje experimenta o peso da rigidez articular, os sintomas de artrite e artrose, a drástica redução da força muscular e as alterações severas de equilíbrio e postura, como o natural arqueamento da coluna.
A vivência imersiva é aprofundada pelo uso de óculos especiais que simulam condições oftalmológicas limitantes, como a catarata, o glaucoma e a perda da visão periférica, somados a fones de ouvido que reproduzem os diferentes níveis de perdas auditivas típicas do avanço da idade.
O equipamento busca mostrar a realidade do envelhecimento já presente na sociedade, principalmente tendo em vista o cenário demográfico brasileiro que exige uma urgência nessa reflexão. Atualmente, os brasileiros com mais de cinquenta anos já representam 27% por cento da nossa população, com uma projeção de chegar a 44% por cento nas próximas duas décadas.
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Para se ter uma ideia, a cada vinte segundos uma pessoa entra nessa faixa etária no País. Trata-se da fundação de uma verdadeira economia da longevidade."
Esse público já movimenta R$ 1,8 trilhão por ano no consumo e deve alcançar a marca de R$ 3,8 trilhões até 2044, completa Gracia.
O paradoxo, no entanto, é evidente e doloroso: quatro em cada dez brasileiros com mais de cinquenta anos afirmam não encontrar nas prateleiras e nos serviços ofertas pensadas adequadamente para as suas necessidades, segundo dados da Data8.
Trajetória do equipamento
O especialista em longevidade Willians Fiori - do podcast Gerocast e co-autor do livro "Diversa-IDADE" junto com Tati Gracia - explica que a trajetória desse equipamento no Brasil começou em 2008, quando o primeiro exemplar foi trazido diretamente do Japão. “No início, o seu uso era restrito à área da saúde e à educação gerontológica, ajudando na formação de médicos e enfermeiros e no desenvolvimento de ambientes hospitalares mais humanizados e acessíveis”, explica.
Contudo, com o avanço da temática do envelhecimento, o simulador passou a apoiar pesquisas de mercado, consumo, comunicação e liderança nas corporações. Hoje, é utilizado por marcas, grandes redes de farmácias e supermercados com o objetivo de repensar desde o design de embalagens até o atendimento nos pontos de venda.
Essa inovação de olhar chegou também ao setor público, para ser aplicada na qualificação de motoristas de ônibus e gestores de políticas sociais, além de presença em universidades, como a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e a Fundação Getulio Vargas (FGV).
Fiori aponta que o impacto acumulado dessa iniciativa é expressivo, somando mais de 400 mil pessoas sensibilizadas em 15 Estados brasileiros ao longo dos últimos anos. Tal alcance rendeu ao projeto chancelas de prestígio, entre as quais o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) na América Latina por inovação social em saúde, em 2018, e o Selo de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo por três anos consecutivos. Além disso, o projeto foi citado pelo ecossistema de longevidade do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e, a partir de 2025, o traje tornou-se ferramenta oficial nos workshops práticos da pós-graduação em Geriatria do Hospital Israelita Albert Einstein.
Ao forçar o participante a lidar corporalmente com as barreiras de um ambiente não planejado, a vivência estimula ativamente a redução do etarismo, humaniza as culturas organizacionais e inspira inovações reais na sociedade.
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