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Seu cérebro está sendo treinado pelos algoritmos a desejar comida? Entenda

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Fotos de comida em excesso e trends que reduzem alimentação a contagem de macros podem levar a decisões alimentares ruins - Adobe Stock
Fotos de comida em excesso e trends que reduzem alimentação a contagem de macros podem levar a decisões alimentares ruins
Por Bianca Bibiano

22/06/2026 | 14h45

São Paulo - Os algoritmos usados nas redes sociais já não refletem somente os interesses dos usuários. Cada vez mais eles ajudam a moldá-los. E na alimentação, esse fenômeno tem causado efeitos que vão do aumento do desejo por determinados alimentos à disseminação de informações enganosas sobre saúde, emagrecimento e longevidade.

O alerta é da nutricionista e pesquisadora em neurociência Sophie Deram, que coordena estudos em obesidade, transtornos alimentares e neurociência do comportamento alimentar no Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. 

Autora de best-sellers como 'O Peso das Dietas', ela conta em entrevista ao VIVA que tem estudado de perto o impacto dos algoritmos na prática alimentar de pessoas de várias faixas etárias para uma nova versão de seu livro, a ser lançada ainda este ano pela editora Sextante.

Em seus estudos, identificou que o mecanismo de repetição de conteúdos e narrativas usado pelos algoritmos nas redes influencia as decisões alimentares sem que a pessoa perceba.

A gente vê muitos riscos de aumento de  transtorno alimentar com essas plataformas, tanto pela questão da imagem corporal quanto pela questão da desinformação sobre nutrição. O algoritmo vai observar, de maneira totalmente fria, o seu ponto de interesse e vai jogar informação sobre o assunto. E não necessariamente uma informação filtrada. Corre o risco de receber uma lavagem cerebral."

A nutricionista destaca que não é preciso uma exposição muito longa para ter impactos no cérebro. "Na neurociência, notamos que quando vemos uma informação duas, três, quatro vezes, ela impacta nosso racional e a gente acaba seguindo um pouco o que está sendo falado ali".

Ver fotos de comida dá fome?

Deram explica que os efeitos observados pela neurociência englobam desde fotos e vídeos de alimentos até conteúdos que reduzem a alimentação a contragem de macronutrientes ou que induzem a dietas 'detox' radiciais e incentivam transtornos alimentares.

Nesse sentido, um dos efeitos observados é a capacidade das imagens de alimentos despertarem respostas cerebrais semelhantes às provocadas pela comida real.

Está muito bem mostrado hoje que, ao ver uma imagem, o cérebro não consegue fazer a diferença entre um prato que está na sua frente ou uma foto virtual". 

A pesquisadora cita como exemplo estudos com crianças que demonstraram que a exposição a imagens de alimentos, especialmente doces, pode influenciar o comportamento alimentar ao longo do dia.

Ela diz ainda que esse mecanismo ajuda a explicar por que vídeos de receitas, sobremesas e preparações altamente apetitosas costumam atrair tanta atenção e permanecer por mais tempo nos feeds dos usuários.

Quando a exposição se torna mais nociva?

retrato da nutricionista e neurocientista Sophie Deram
Pesquisora Sophie Deram diz que sensacionalismo é comum nas redes e estimula alerta cerebral de medo - Divulgação

Para além de imagens que estimulam o apetite, a pesquisadora destaca que há conteúdos potencialmente mais prejudiciais, como mensagens alarmistas sobre alimentação.

A preocupação sobre a comida, que vem desses perfis de blogueiros que querem ganhar seguidores falando que açúcar é droga, que vicia, eles fazem mais mal do que simplesmente receber fotos de bolo de pudim, exemplifica, e destaca que o cérebro humano é especialmente sensível a esses sinais de perigo.

"Essas redes sociais, especialmente Instagram e TikTok,  impactam muito dentro de nós aquele alerta ao perigo. E o cérebro humano está formatado para ficar o tempo todo em vigilância de alertas."

A especialista afirma que esse mecanismo ajuda a explicar o sucesso de mensagens mais radicais ou sensacionalistas nas plataformas digitais.

"Se eu falo 'açúcar em moderação não é veneno, pode comer pouco açúcar', é uma frase suave, gentil e ninguém vai ficar muito focado. Agora, se eu falo 'açúcar é uma droga e vicia', aí vou despertar dentro do cérebro daquela pessoa que vai ler um sistema de alerta de perigo, de preocupação. E essa pessoa vai ficar querendo me seguir, é um coisa subconsciente. E a gente vê que a informação hoje nas redes sociais está mais nesse lado de sensacionalismo, de alertas", complementa.

Menopausa e longevidade no feed

Nas faixas etárias mais avançadas, Sophie Deram observa um crescimento de conteúdos que exploram inseguranças relacionadas ao envelhecimento, especialmente entre mulheres na menopausa.

No entanto, alerta para o que classifica como uma "proliferação de informações pseudocientíficas" associadas à venda de suplementos, dietas e programas que prometem prevenir riscos ou desacelerar o envelhecimento.

Nessa linha, ela afirma que o aumento dos estudos sobre menopausa trouxe avanços importantes, mas também abriu espaço para conteúdos sem respaldo científico. 

Com essa nova onda de estudos sobre menopausa, a gente vê não somente uma fisiologia bem importante e complexa para entender, mas também que a mulher se coloca num risco cardiovascular muito alto nesse período. Aí vem uma onda de informação pseudocientífica para promover prevenção, vender dieta, suplementação e medo."

A mesma lógica, segundo ela, passou a ser aplicada ao mercado da longevidade. "Durante muito tempo o tema era emagrecer, depois se desinteressaram e começaram a entrar na tal longevidade, mas reduzir a longevidade a alimentos é mais uma pseudociência".

Ser mais magro significa ser mais saudável após os 60?

Outro ponto que preocupa a pesquisadora é o uso crescente de medicamentos para emagrecimento por pessoas mais velhas. Ela ressalta que o envelhecimento já está associado à perda natural de massa muscular e óssea, especialmente entre mulheres após a menopausa.

Nesse contexto, a perda rápida de peso pode aumentar riscos importantes para a saúde, levando à sarcopenia. "A pessoa idosa tende a perder massa magra naturalmente, músculo e massa óssea."

Segundo a especialista, estudos que avaliam índice de massa corporal (IMC) e mortalidade em idosos mostram que um leve sobrepeso pode estar associado a menor risco de morte quando comparado à magreza excessiva.

Todo mundo quer emagrecer quando, na realidade, para uma pessoa idosa ter um pouquinho de sobrepeso é um fator protetor do risco de morte, dá mais longevidade do que uma supermagreza."

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