Divulgação
São Paulo, 29/08/2025 - O Brasil é o quinto maior país no consumo de jogos digitais, segundo pesquisa realizada pela consultora Newzoo em 2022. Mesmo fora do imaginário popular, este setor inclui cada vez mais a "geração prateada", especialmente quando se fala de jogos como um treino para o cérebro.
Leia também: Brasileiros gastam até R$ 250 por mês com jogos digitais, aponta pesquisa
No serviço de reabilitação neuropsicológica (um processo terapêutico usado para combater declínios cognitivos, como na memória ou atenção), jogos sempre foram usados como parte do tratamento. A neuropsicóloga e professora de Avaliação Neuropsicológica do Idoso, Marina von Zuben, explica que qualquer atividade que faça o cérebro aprender coisas novas é efetiva, mas os videogames trazem várias vantagens, como diversidade e autonomia.
“O mundo digital oferece um universo de possibilidades muito maior do que tínhamos só no papel. E a reabilitação exige prática do paciente. Quando passamos um jogo físico, ele acaba dependendo de outra pessoa para jogar. Agora, no jogo virtual, ele pode pegar o próprio celular e treinar, seja em casa ou até em uma sala de espera”
Zuben complementa que, apesar de existir um forte mercado dos jogos para estímulo cognitivo; o mais importante está em como se usa. Mesmo jogos clássicos como batalha naval ou damas, hoje facilmente encontrados em aplicativos, podem servir de treino para o cérebro.
Apesar dos benefícios para o jogador +50, Zuben admite que a tecnologia ainda é uma barreira, especialmente em aplicativos com muita propaganda ou informações dispersas. Entender certas lógicas próprias, já naturais aos nativos digitais, exige um cuidado especial de quem cria o jogo; o desenvolvedor.
Doutora em Ciência da Computação e pesquisadora de desenvolvimento de jogos para idosos, Lucila Ishitani afirma que não se deve ter medo de explicar o que parece óbvio. “Tutoriais são importantes. Existe o medo de ‘clicar’ em algo errado, além da preocupação com a segurança; a tecnologia pode ser assustadora para o público mais velho. Às vezes, o que parece natural pode gerar dúvidas que nem imaginamos”, pontua ela.
Entre as várias minúcias da acessibilidade digital, desde o tamanho da fonte até o avatar usado pelo jogador, Ishitani aposta no Design Participativo (DP). Nele, a ideia é ouvir o público. Não tentar adivinhar quais alterações podem tornar o jogo mais acessível, mas construir o jogo em conjunto, consultado o futuro jogador.
Por fim, Ishitani também dá destaque aos jogos para celular. A mesma pesquia da Newzoo aponta que 60% dos gamers brasileiros jogam no celular, e a inclusão pode ser uma das causas. “Enquanto o uso de mouse, teclado e controles exige um costume, as telas de celular dependem do gesto muito mais natural de apontar”, explica.
Em 2014, Fábio Ota, fundador da International School Of Game (ISGAME), estava em uma festa de família, quando sua tia não o reconheceu; por estar com a doença de alzheimer. Neste dia ele começou a pesquisar o uso dos jogos para a prevenção da perda cognitiva; estudo que levou à criação do programa Cérebro Ativo.
O projeto começou com aulas de desenvolvimento de jogos para idosos. Usando programas de criação facilitados, os alunos aprendem os conceitos sem precisar saber a programação. Ota relembra de uma de suas alunas que, tendo se alfabetizado recentemente pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), conseguiu levar para casa o próprio jogo, para seus netos se divertirem.
Em 2018, foi lançado um aplicativo para celular. Em sua versão gratuita, os usuários têm acesso aos jogos de treinamento para o cérebro, enquanto a versão paga oferece análises de bem-estar, algoritmos de predição da depressão e a opção de conectar os dados com um profissional da saúde.
Ota fala que o diferencial da plataforma é a base cientifica. Após um estudo realizado em conjunto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a ISGame pode comprovar a efetividade dos jogos no reforço mental.
“Para montar o Cérebro Ativo, pensamos diretamente na acessibilidade para o público idoso. Com profissionais especializados no design, psicologia e pedagogia para os mais velhos, os treinos são montados para lidar com problemas que conseguimos observar na jogabilidade para eles, como a abstração dos jogos e a visualização do conteúd”, afirma Ota.
Com o aplicativo dependendo apenas de um aparelho celular, Fabio conseguiu aplicar o Cérebro Ativo mesmo onde não existem salas com computadores específicos, como ONGs e Igrejas.
O uso dos jogos é vantajoso, principalmente, por serem mais atrativos do que simples exercícios. Zuben conta que ao recomendar as atividades aos pacientes “eles adoram”, engajando mesmo quando antes usavam o celular somente para mensagens e ligações.
Ishitani diz que o mercado de jogos como treino mental está crescendo há algum tempo, mas tem esperança de que o setor pense cada vez mais no lazer para o idoso.
“Hoje, crescemos aprendendo a nos divertis jogando. Eu costumo perguntar para os meus alunos como eles se imaginam quando idosos, e com vão querer manter o passatempo nesta faze. Precisamos expandir a visão e criar jogos divertidos para, quando nos aposentarmos, termos muito o que jogar e aproveitar”, diz ela.
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.