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A vez das conselheiras 50+: maturidade vira ativo estratégico nas empresas

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Para executivas experientes e maduras, um posto no conselho representa o próximo nível da carreira - Adobe Stock
Para executivas experientes e maduras, um posto no conselho representa o próximo nível da carreira
Por Claudio Marques

23/03/2026 | 10h48

São Paulo - A presença de mulheres nos conselhos de empresas ainda é minoritária. No entanto, para executivas, após décadas de atividades, os conselhos representam o próximo nível da carreira: um espaço onde a vivência estratégica e a maturidade profissional são convertidas em alto valor agregado.

O motivo é que a atividade exige experiência e conhecimento a respeito de vários assuntos que envolvem o desempenho de uma corporação – privada ou pública. Também deve ser alguém comprometido e que exerça suas funções com confidencialidade e equilíbrio emocional.

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Por isso, embora o assento em conselhos de administração não seja restrito a uma faixa etária, a natureza da função favorece profissionais 50+, homens ou mulheres, de acordo com Adriane de Almeida, diretora de Ensino e Inovação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), entidade que congrega conselheiros.

A atividade exige saber navegar na complexidade. Normalmente, só se atinge isso com mais idade."  

Falta diversidade

Elvira Presta sentada, sorrindo, tem cabelos à altura dos ombros; usa camisa cor de rosa
Elvira Presta é conselheira do grupo Gerdau - Divulgação

Historicamente, porém, os conselhos foram espaços pouco diversos. Os números refletem essa realidade. O estudo "Mulheres em Ações", realizado pela B3 e divulgado oficialmente em setembro de 2024, mostra que 56% das empresas listadas na bolsa brasileira não têm mulheres na diretoria estatutária e 37% não possuem nenhuma conselheira.

De acordo com Elvira Presta, ex-vice-presidente financeira da Eletrobras e atual conselheira fiscal da Gerdau, durante décadas predominou um perfil bastante específico: homens acima dos 60 anos, muitas vezes com formação em finanças ou direito e ligados às famílias controladoras das empresas. 

Para ela, a pluralidade de perspectivas fortalece a governança. “Toda unanimidade é ruim. Quando todos pensam parecido, as decisões podem até ser mais rápidas, mas não necessariamente serão as melhores”, afirma a executiva. E completa:

"Aprovar balanços ou tratar de questões técnicas não é uma questão de gênero. Mas o olhar feminino pode trazer discussões diferentes, que influenciam decisões que afetam o clima organizacional ou a relação com clientes e mercado." 

O maior desafio hoje, na visão da conselheira, é furar a bolha, "porque o mundo corporativo continua predominantemente masculino — mesmo em setores considerados femininos, como a moda".

Porém, para chegar a um posto em um conselho, há obstáculos para as mulheres.

A busca e escolha de um nome para o conselho (a ser referendado da maneira prevista pelo estatuto da empresa) pode contribuir para esse quadro. Ela pode ser feita pela própria empresa, internamente ou via headhunter, ou por indicação de grupos de acionistas. Mas é muito comum, segundo Adriane de Almeida, do IBGC, um conselheiro que deixar o posto indicar alguém para a vaga.

À medida que as empresas buscam estruturas de governança mais modernas e alinhadas às expectativas da sociedade, cresce o reconhecimento de que experiência e pluralidade caminham juntas.

Chris Aché de cabelos longos à altura do peito, sentada sorrindo usando camisa rosa aberta sobre uma blusa ocre com uma corrente por cima dela
Chris Aché é diretora da ABP-W, na Escola de Negócios Saint Paul - Divulgação

Diretora da "Advanced Boardroom Program for Women" (ABP-W) na Escola de Negócios Saint Paul – programa que desenvolve cursos de formação e atualização voltados à atuação feminina em governança corporativa - Chris Aché acreditra que o quadro está mudando.

“As conselheiras 50+ têm contribuído de forma significativa para quebrar esse monopólio tradicional, facilitando o ingresso de novos perfis considerando a diversidade de forma mais ampla”, afirma.

E acrescenta: “Um conselheiro eficaz hoje não é apenas experiente; ele precisa ser estrategicamente relevante, intelectualmente curioso e emocionalmente maduro”. 

Experiência acumulada 

Também atuando em conselhos fiscais e consultivos, Ava Cohn considera que a conselheira 50+ traz uma combinação muito valiosa de experiência acumulada, vivência e visão sistêmica para a tomada de decisão.

“Quem chega a essa fase da carreira já atravessou diferentes ciclos econômicos, crises e transformações nas empresas”, acrescenta.

“A diversidade é um processo”, afirma  a profissional. “Tem sido lento, é verdade, mas está acontecendo — e é essencial porque diminui o viés das decisões.”

Preparação constante

Para executivas que chegam aos conselhos, a trajetória costuma ser marcada por preparação constante. “Não dá para entrar em uma reunião de conselho sem ter estudado e se preparado”, afirma Cohn.

Segundo ela, muitas mulheres desenvolvem, ao longo da carreira, uma disciplina intensa de atualização profissional. “A mulher tende a se cobrar mais. Sabemos que seremos muito avaliadas e, por isso, buscamos nos preparar continuamente.”

Essa preparação envolve tanto os fundamentos da governança quanto temas emergentes no ambiente corporativo.

“Fui estudar tecnologia porque percebi que precisava compreender melhor a transformação digital que estamos vivendo”, conta Cohn

Nesse contexto, programas de formação e redes profissionais voltadas à governança têm ganhado relevância.

10 características para atuar em conselhos de empresas

Para a diretora do programa de conselheiras (ABP-W) na Saint Paul, Chris Aché, é necessário desenvolver algumas habilidades para atuar como conselheiro ou conselheira de empresa. A seguir:

1) Visão estratégica
Capacidade de sair do operacional e enxergar de cima (visão de helicóptero) itens como:
• Tendências de mercado e disrupções
• Posicionamento competitivo
• Alocação de capital no longo prazo

2) Pensamento crítico e independência
• Questionar sem confrontar de forma destrutiva
• Evitar pensamento de grupo (“groupthink”) que prevaleça sobre análise individual
• Julgar com base em evidências, não em narrativas

3) Governança e responsabilidade fiduciária
• Entendimento de deveres legais e éticos
• Gestão de conflitos de interesse
• Compliance e transparência

4) Alfabetização financeira
Não precisa ser CFO, mas tem que:
• Ler balanços com fluidez
• Entender geração de valor e retorno sobre capital
• Avaliar riscos financeiros 

5) Capacidade de fazer perguntas poderosas
• Clarificar o que não está explícito
• Identificar riscos invisíveis
• Expandir o pensamento da gestão

6) Inteligência emocional e dinâmica de grupo
• Saber quando falar e quando silenciar
• Ler o ambiente político e humano
• Construir confiança com executivos

7) Conhecimento de inovação e disrupção
• Novos modelos de negócio
• Transformação digital 

8) Mentalidade de risco 
• Identificar riscos estratégicos, não só operacionais
• Equilibrar prudência e ousadia
• Pensar em cenários

9) Curiosidade intelectual e aprendizado contínuo
• Abertura a novas ideias
• Atualização constante (geopolítica, ESG, tecnologia)
• Capacidade de desaprender

10) Comunicação clara e influência sem autoridade
• Sintetizar temas complexos
• Influenciar sem mandar
• Ser direto/a, sem perder elegância

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