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Dia das Mães: a dor de quem perdeu um filho e busca por justiça

Divulgação

"Queria muito estar com meu pretinho aqui", diz Mirtes Renata - Divulgação
"Queria muito estar com meu pretinho aqui", diz Mirtes Renata
Por Alessandra Taraborelli

09/05/2026 | 08h34 ● Atualizado | 08h36

São Paulo - O domingo de Dia das Mães, tradicionalmente marcado por celebrações e reuniões familiares, carrega um peso devastador para mulheres que tiveram a maternidade interrompida.

É o caso da assessora parlamentar Mirtes Renata, mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, que morreu após cair do 9º andar do prédio onde ela trabalhava como empregada doméstica, no Recife (PE).

No dia 2 de junho, a tragédia completa seis anos. Desde aquele fatídico dia, Mirtes transformou o luto em uma luta incansável nos tribunais.

Menino Miguel Otávio Santana da Silva
Miguel Otávio Santana da Silva, 5 anos - Divulgação

Para Mirtes, o segundo domingo de maio é um gatilho emocional. "É uma data em que tento não focar para não sofrer tanto. Não é fácil. Eu estou tentando praticamente esquecer que existe. Evito até sair de casa, porque dá uma dor no coração ver as mães com seus filhos, passeando, indo para restaurante", desabafa.

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"Essa dor da perda do meu filho se transformou em uma grande saudade. Eu vejo todo aquele clima de felicidade, de festa e eu não posso estar com meu filho... Tudo bem, eu tenho minha mãe, mas e meu filho? É doloroso para mim ver essas mães tão felizes, e eu não poder ter essa felicidade plena que elas têm.”

Apesar da dor, ela deixa um recado para as mulheres que poderão celebrar a data com seus filhos: "Aproveitem cada segundo. Abracem e beijem bastante, brinquem com eles. Curtam cada segundo, porque, infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã".

Queria muito estar com meu pretinho aqui, agora, dando muito cheiro, dando muito abraço, sentindo o calorzinho dele, mas ele está lá em cima, olhando por mim.”

Entenda o caso Miguel

A morte de Miguel, de 5 anos, ocorreu em 2020, em meio ao lockdown provocado pela pandemia. O caso gerou comoção nacional e escancarou o debate sobre a desigualdade social e o racismo no Brasil.

Mirtes trabalhava como empregada na casa de Sari Corte Real. Como o serviço doméstico não era considerado essencial e as escolas e creches estavam fechadas, Mirtes precisou levar o filho para o trabalho, com a autorização da empregadora.

Durante o expediente, Sari pediu para que Mirtes descesse e passeasse com o cachorro da família. Mirtes avisou que deixaria as crianças — Miguel e a filha da empregadora — no apartamento, pois estavam brincando.

Após a mãe descer, Miguel começou a chorar. Imagens do circuito de segurança do condomínio mostraram que Sari colocou o garoto no elevador, apertou um dos botões dos andares superiores e deixou a criança sozinha.

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Sem a supervisão de um adulto, Miguel saiu no 9º andar, escalou uma grade de proteção no hall de serviço e caiu de uma altura de 35 metros.

Sari Corte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado de morte, mas recorre em liberdade.

Curso de Direito

Mirtes conta que, ainda na época em que trabalhava como empregada doméstica, já planejava fazer uma faculdade para dar um futuro melhor a Miguel.

O plano inicial era cursar Administração a distância, para poder estudar em casa e ficar mais perto da criança. A tragédia, no entanto, mudou sua trajetória.

“Quando eu trabalhava como empregada doméstica, eu pensava em fazer uma faculdade, porque eu não queria passar o resto da vida trabalhando na casa dos outros. Eu queria ter um futuro melhor para mim e para o meu filho. Já estava até juntando dinheiro para comprar um notebook para fazer uma faculdade on-line”, explica.

A ideia de ingressar no curso de Direito surgiu da necessidade de compreender o sistema judiciário para lutar pelo filho e, futuramente, ajudar outras pessoas na mesma situação.

Nunca passou pela minha cabeça fazer Direito. Eu resolvi fazer para entender melhor a lei e poder, realmente, cobrar de forma correta, com fundamentação."

Prestes a colar grau em junho, ela tem planos ambiciosos. "Quero continuar na área. Vou fazer pós-graduação e mestrado para ser promotora", revela.

O domínio das leis abriu os olhos de Mirtes para as falhas e os privilégios dentro do processo que julga a morte de seu filho. “Tudo o que vem acontecendo é um total absurdo, tanto que vai completar seis anos, o processo não foi concluído, e a Sari foi condenada, mas ainda não está presa. Ela está respondendo em liberdade”, afirma.

Ela aponta a disparidade no tratamento do Judiciário: "Enquanto muitas pessoas cometem crimes de menor potencial e já estão presas, sem direito a fiança, ela teve direito de pagar e recorrer em liberdade. É o privilégio do Judiciário estar agindo dessa forma com ela".

A assessora parlamentar reclama da morosidade com que o processo está sendo tratado e diz que agora está fazendo todos os trâmites para que a ação seja julgada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Eu preciso que o processo de Miguel saia daqui de Recife para que realmente ele tenha andamento. Com certeza vai ser (processo) mais justo e célere”.

Família influente

Mirtes atribui a lentidão processual à influência da família da ex-empregadora — o marido de Sari, Sérgio Hacker Corte Real, é ex-prefeito da cidade de Tamandaré (PE).

Agora, a assessora parlamentar atua para que a ação seja julgada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). "Eu preciso que o processo saia do Recife para que realmente tenha andamento. Com certeza, será mais justo e célere", projeta.

"Eu só quero que a justiça seja feita. Não só a condenação de Sari, mas a prisão dela. Ela cometeu um crime contra meu filho, uma criança de cinco anos que tinha o futuro pela frente. Ela tem que pagar pelos atos dela", finaliza.

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