Dia das Mães: a dor de quem perdeu um filho e busca por justiça
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São Paulo - Domingo é comemorado o Dia das Mães, momento em que as famílias se unem para homenagear essa pessoa que é a responsável pela vida. No entanto, também é uma data muito difícil para quem teve a maternidade interrompida.
Este é o caso da assessora parlamentar Mirtes Renata, mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, que caiu do 9º andar do prédio onde ela trabalhava como empregada doméstica, no Recife (PE).
“Está chegando o Dia das Mães. É uma data que eu tento não focar para não sofrer tanto. Não é fácil. Eu estou tentando praticamente esquecer que existe essa data. Eu evito até sair de casa. Porque dá uma dor no coração ver as mães com seus filhos, passeando, indo para restaurante, almoçando”, desabafa.
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No dia 2 de junho vai fazer seis anos que Mirtes perdeu seu filho e, desde o fatídico dia vem lutando por Justiça.
"Essa dor da perda do meu filho se transformou em uma grande saudade. Eu vejo todo aquele clima de felicidade, de festa e eu não posso estar com meu filho... Tudo bem, eu tenho minha mãe, mas e meu filho? É doloroso para mim ver essas mães tão felizes, e eu não poder ter essa felicidade plena que elas têm.”
Para as mães que tem seu filho ao lado, Mirtes manda uma mensagem: Aproveitem cada segundo com os filhos, abracem bastante, beijem bastante, brinquem com eles, curta cada segundo, porque, infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã.
Queria muito estar com meu pretinho aqui, agora, dando muito cheiro, dando muito abraço, sentindo o calorzinho dele, mas ele está lá em cima, olhando por mim.”
Além de viver a dor de não ter o seu filho, Mirtes também enfrenta desafios para conseguir justiça por Miguel, de cinco anos à época.
Entenda o caso
O caso aconteceu em 2020, no Recife, causou uma enorme comoção e também evidenciou a grande desigualdade social e racial no Brasil.
Mirtes trabalhava como empregada na casa de Sari Corte Real. Vale lembrar, que na ocasião o País passa pelo lockdown e o serviço de empregada doméstica não era considerado essencial. Mirtes levou o filho para trabalhar com ela, porque não tinha aula e a empregadora havia autorizado a ida da criança.
A pedido da empregadora, Mirtes desceu para passear com os cães durante o expediente, e informou a ela que não iria levar as crianças – o seu filho e o dela – porque eles estavam brincando. Após a criança chorar, Sari, segundo as imagens de segurança do prédio, levou o garoto até o elevador, apertou um botão e deixou o menino sozinho.
Sem a supervisão de um adulto, Miguel saiu do elevador no 9º andar, escalou uma grade de proteção no hall de serviço e caiu de uma altura de 35 metros.
O episódio culminou na condenação de Sari por abandono de incapaz com resultado de morte, embora o caso ainda siga em discussões judiciais sobre a reparação e a severidade da pena.
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Curso de Direito
Mirtes conta que durante o tempo em que trabalhou de empregada na casa de Sari, já pensava em fazer uma faculdade.
“Quando eu trabalhava como empregada doméstica, eu pensava em fazer uma faculdade, porque eu não queria passar o resto da vida trabalhando na casa dos outros. Eu queria ter um futuro melhor para mim e para o meu filho. Já estava até juntando dinheiro para comprar um notebook para fazer uma faculdade online”, explica.
Na ocasião, ela pensava em cursar Administração por EAD, porque assim ela estaria em casa estudando e poderia ficar perto do filho, já que ficava o dia todo fora de casa.
Ela revela que nunca tinha pensado em fazer Direito, que a ideia surgiu para tentar fazer justiça e também permitir ajudar outras pessoas que, assim como ela, têm dificuldades em buscar justiça.
“Nunca passou pela minha cabeça fazer o curso de direito. Eu resolvi fazer direito para entender melhor a lei e poder, realmente, cobrar de forma correta, com fundamentação”, explica.
Mirtes se forma em junho e diz que quer advogar e seguir carreira, e que o curso abriu muito seus olhos com relação a tudo que acontece com o processo do Miguel. “Eu quero continuar na área do direito. Vou fazer pós e mestrado para ser promotora”, revela.
“Tudo o que vem acontecendo é um total absurdo, tanto que vai completar seis anos, o processo não foi concluído, e a Sari foi condenada, mas ainda não está presa. Ela está respondendo em liberdade ”, afirma.
Ele ressalta que, enquanto muitas pessoas cometem crime de menor potencial que o cometido pela empregadora, e já estão presas, sem direito a pagar uma fiança, ela teve direito a fiança e a recorrer em liberdade. “Ela está tendo a sorte da justiça, estar agindo de forma correta com ela. Sorte não, o privilégio do judiciário estar agindo de forma correta”.
A assessora parlamentar reclama da morosidade com que o processo está sendo tratado e diz que agora está fazendo todos os trâmites para que a ação seja julgada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Eu preciso que o processo de Miguel saia daqui de Recife para que realmente ele tenha andamento. Com certeza vai ser (processo) mais justo e célere”.
Família influente
Mirtes atribui a morosidade no processo do seu filho ao fato de a família de Sari e de seu marido Sérgio Hacker Corte Real, ex-prefeito de Tamandaré, Pernambuco, serem pessoas influentes na sociedade pernambucana.
“Eu só quero que realmente a justiça seja feita, não só a condenação de Sarita, mas a prisão dela, porque ela cometeu um crime. Ela cometeu um crime contra meu filho, uma criança de cinco anos de idade que tinha o futuro pela frente. Ela tem que pagar pelos atos dela”, afirmou.
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