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Aos 73 anos, professora aposentada realiza o sonho de estudar Medicina

Divulgação/Universidade Anhembi Morumbi

A expectativa de Lourdes Moraes Del Guingaro é concluir o curso aos 80 anos - Divulgação/Universidade Anhembi Morumbi
A expectativa de Lourdes Moraes Del Guingaro é concluir o curso aos 80 anos
Por Bianca Bibiano

29/04/2026 | 12h43 ● Atualizado em 11/06/2026 | 11h24

São Paulo - Aos 73 anos, a professora aposentada Lourdes Moraes Del Guingaro decidiu reescrever a própria trajetória. Depois de uma carreira consolidada na Educação e duas graduações concluídas, ela agora encara o desafio de cursar Medicina, um sonho antigo que começou ainda na infância e que, por diferentes razões, foi adiado ao longo da vida.

"Eu sempre quis estudar Medicina, desde menina, mas nunca vi a possibilidade", contou em entrevista ao VIVA no Dia da Educação. A oportunidade surgiu anos depois da aposentadoria, quando Lourdes passou a guardar dinheiro e decidiu tentar o vestibular. "Eu via a propaganda na internet, me inscrevi, fiz o vestibular, consegui passar e eles me chamaram. E eu estou lá."

A nova rotina exige disciplina e disposição. Moradora de Cotia, na Grande São Paulo, ela enfrenta diariamente longas horas no trânsito para chegar a Universidade Anhembi Morumbi, parte integrante da Inspirali.

Lourdes tem que sair 4h30 de casa para chegar à faculdade, o que 'judiado', segundo ela. Ainda assim, não desanima. "Para minha idade, é pesado, mas eu chego lá. Eu hei de conseguir."

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Da Educação à Medicina

Lourdes Del Guingaro, 73 anos, voltou a estudar para realizar sonho de fazer medicina
Estudante aos 73 anos, Lourdes planeja se formar aos 80 anos e não descarta trabalhar como médica - Acervo pessoal

Antes de iniciar a nova graduação, Lourdes construiu uma carreira sólida no magistério. Formada em geografia, também cursou pedagogia e atuou como professora, diretora e supervisora escolar. 

Após a aposentadoria, a vida pessoal trouxe novos caminhos. Ela se mudou para o litoral com o marido, que se recuperava de um infarto, e aproveitou o período para cursar Arquitetura, sua segunda graduação. Ao terminar, retornou para Cotia.

A decisão de estudar novamente ganhou força após enfrentar problemas de saúde, como a diabetes. "Eu falei: 'Ah, ficar curtindo doença eu não vou, não, vou voltar a estudar, fazer uma coisa que eu sempre quis'."

Desafios e aprendizado

Mesmo com a experiência acadêmica, Lourdes reconhece as dificuldades de voltar aos estudos décadas depois. Segundo ela, como parou de estudar há algum tempo, já "não guarda muitas coisas" e tem dificuldade em memorizar. Além disso, diz que  "precisa estudar muito, pois o conteúdo é extenso".

Apesar dos entraves iniciais, ela destaca o acolhimento que recebeu na universidade e a convivência com colegas mais jovens. "Entrei numa turma muito boa, maravilhosa, uma moçada linda. Não tenho o que falar não, eu adoro eles e sei que eles me adoram também."

O ambiente presencial, segundo ela, faz diferença no aprendizado. "Essa relação que há entre as pessoas é o segredo do seu sucesso, porque você aprende com eles e eles aprendem com você. Com a tela é muito frio."

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Apoio da família

Casada, mãe de um filho de 42 anos e avó de um menino de 8, Lourdes conta com o apoio da família para seguir em frente. O marido é peça-chave na rotina. Ele a leva todo dia e vai buscar, dá "a maior força" para ela continuar.

A expectativa é concluir o curso aos 80 anos. E ela já pensa no próximo passo.

Se Deus me permitir chegar lá, eu vou estar com 80 anos. Eu quero trabalhar! Se eu tiver condições, eu vou."

Ainda sem uma especialidade definida, Lourdes demonstra interesse pela área de saúde mental. "Eu acho que é mais a parte de psiquiatria. As pessoas estão num estresse muito grande ou têm depressão. Se eu puder ajudar, vou ajudar dessa forma."

Inspiração 

Lourdes espera que sua história possa inspirar outras pessoas. "Tem pessoas que já ligam para mim e falam: 'Nossa, você entrou, eu também quero!’", conta. Para ela, o exemplo pode incentivar quem ainda tem sonhos guardados. "Nunca é tarde para estudar e realizar seus sonhos."

Mais do que uma conquista pessoal, ela acredita que o aprendizado constante também impacta a saúde e o bem-estar. "Você tem que lutar, tem que querer ser alguma coisa. A sua saúde até melhora."

Tendência nacional

A história da aposentada Lourdes Moraes Del Guingaro representa uma tendência nacional. De acordo com dados do último Censo da Educação Superior, divulgados ano passado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), houve um aumento de mais de 400% no número de ingressantes com 50 anos ou mais de idade entre 2010 e 2024 em cursos de ensino superior.

Ao todo, 211.237 pessoas nessa faixa etária ingressaram em faculdades, universidades, institutos federais e centros universitários no ano passado, número superior a todas as edições anteriores do levantamento. Em 2010, foram registrados 42.063. O recorte de idade foi feito a partir de dados do Inep pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) a pedido do VIVA.

Considerando todas as faixas de idade, o Brasil registou em 2024 mais de 5 milhões de alunos ingressantes na graduação. O recorte é feito anualmente e traça um panorama da educação a nível superior, considerando números de ingressantes, concluintes, matriculados e docentes das 2.561 instituições desse nível em funcionamento no País.

EAD prevalece no acesso

O Censo da Educação Superior também mostrou a prevalência de ingressantes na modalidade de educação a distância (EAD). Em 2024, do total de ingressantes 50+, 35.416 entraram para cursos presenciais, enquanto 175.821 ingressaram em cursos EAD.

O total de concluintes 50+ foi de 67.619 em 2024, também com prevalência na modalidade a distância, que registrou 48.975 formandos naquele ano. Nesse sentido, os dados do Inep apresentam um desafio em relação aos estudantes mais velhos, com uma taxa de conclusão mais baixa (59,7,) em relação a universitários de 20 a 22 anos (77,3).

Quando analisada a evasão, as diferenças são ainda maiores: no grupo etário mais jovem a taxa foi 11, enquanto entre os 50+ foi 23,4. Entre grupos etários de 30 a 49 anos a taxa foi semelhante, mostrando que a evasão nessa etapa pode estar ligada à múltiplos fatores da vida adulta, não apenas à idade.

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