Brasil avança pouco na igualdade salarial entre mulheres e homens
Data celebrada hoje marca avanços e pequenas conquistas na luta pela equidade salarial entre gêneros. Mulher ganha 68% da remuneração dos homens
Por Fabiana Holtz
18/09/2026 | 16h10Envato
O Dia da Igualdade Salarial, celebrado em 18 de setembro, destaca a persistente disparidade salarial entre homens e mulheres no Brasil, que ocupa a 72ª posição no índice global de Disparidade de Gênero, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Apesar de um leve aumento na participação feminina no mercado de trabalho, a remuneração média das mulheres com ensino superior ainda é de 68,2% em relação aos homens, evidenciando desigualdades que podem levar 120 anos para serem superadas globalmente.
São Paulo - Celebrado nesta sexta-feira, 18, o Dia Internacional da Igualdade Salarial nos faz lembrar de uma realidade ainda muito presente no mercado de trabalho brasileiro. Criada em 2019 por uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), a data foi comemorada pela primeira vez em 2020, em plena pandemia de Covid-19.
Caminhando a passos lentos, a remuneração média das mulheres com formação de nível superior no Brasil ainda corresponde a 68,2% da remuneração dos homens. Nas profissões de nível técnico médio essa relação chega a 66,2%. Entre diretores e gerentes, a remuneração feminina representava cerca de 73% da masculina. Os dados constam no relatório nacional de transparência salarial mais recente divulgado pelo Ministério do Trabalho.
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Globalmente, o Brasil segue estacionado no 72º lugar no índice de Disparidade de Gênero, produzido pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) e divulgado nesta semana. Em sua metodologia o indicador verifica a equidade de gênero em quatro frentes: participação econômica, política, educação e saúde.
A Islândia mantém a liderança desse ranking há 17 anos, sendo a única economia a apresentar mais de 90% de paridade (93%), seguida por Finlândia (87,2%) e Noruega (85,7%).
Notícia a se comemorar, a participação feminina no mercado de trabalho apresentou uma melhora discreta, de 72,6% para 73,1%, conforme apurou o Relatório Global do Fórum sobre Disparidade de Gênero.
Sem dúvida, em 2026 a diferença salarial entre homens e mulheres continua expressiva e os especialistas calculam que mundialmente levaremos 120 anos para atingir a igualdade de gênero.
Igualdade é princípio constitucional
Essa luta pela equiparação salarial no Brasil ganhou um novo capítulo em julho de 2023, com a Lei 14.611 que reforça o princípio constitucional da remuneração igual entre homens e mulheres para trabalho de igual valor.
A norma estabelece medidas concretas para enfrentar desigualdades históricas e estruturais no mercado de trabalho, ao prever mecanismos de transparência salarial, monitoramento das práticas remuneratórias e fiscalização da discriminação salarial.
Mais um importante passo foi dado ao final de 2023, com o Decreto 11.795 e a Portaria 3.714 que vieram assegurar a aplicação da Lei, definindo os procedimentos operacionais para a implementação da política, incluindo protocolo de fiscalização contra a discriminação salarial e a disponibilização de canais para denúncias.
Todo esse movimento abriu caminho para o lançamento, em abril de 2025, do Plano Nacional de Igualdade Salarial e Laboral entre Mulheres e Homens. A iniciativa multisetorial envolve 11 ministérios é coordenada pelos ministérios das Mulheres e do Trabalho.
Entre as 79 ações que constam dentro do Plano Nacional, 36 visam remover barreiras de entrada para mulheres no mercado de trabalho, mencionado questões étnico-raciais, geracionais e de deficiência. Já a valorização da presença feminina em cargos de direção, gestão e liderança e em áreas estratégicas é abordada em 24 ações.
Outras 19 ações tratam da retenção no emprego, políticas de apoio à divisão sexual do trabalho e compartilhamento de responsabilidades familiares e de cuidado.
Momento é de profunda transformação
A evolução no mercado de trabalho é visível e o momento é de transformação profunda, diz Carolina Cavenaghi, fundadora e CEO da Fin4She. "Quando olho para a inserção de mulheres no mercado de trabalho vejo avanços muito importantes. Temos mais mulheres em posições de liderança, empreendendo, falando sobre dinheiro", afirma.
No entanto, a executiva considera que temos um caminho muito grande pela frente, considerando que esse avanço não tem acontecido de forma homogênea. Somado a isso, as mulheres seguem sub-representadas justamente nas mesas de decisão.
Para Cavenaghi, o desafio é que não basta colocar mais mulheres no mercado de trabalho, mas sim garantir seu acesso, com oportunidades de crescimento, remuneração, patrimônio e poder de decisão.
Existe sim, algo velado ou não, que sustenta essa disparidade salarial entre homens e mulheres. Acredito que a próxima fronteira dessa agenda de equidade feminina tem que passar por educação, empregabilidade, mas principalmente independência financeira."
Carolina Cavenaghi, fundadora e CEO da Fin4She
Isso porque, conclui a executiva, a independência financeira dá esse poder de escolha, essa liberdade para a mulher. Uma mulher que está inserida no mercado e ainda assim não tem autonomia econômica, de fato não tem liberdade para falar, questionar e buscar esse espaço, defende Cavenaghi.
A liberdade financeira é uma das formas mais concretas, segundo a executiva, de ampliar essas oportunidades.
Para avançar novas casas nesse jogo, a executiva defende que é preciso mudar a lógica de que essa responsabilidade é somente das mulheres ou das empresas. Os homens, afirma ela, tem um papel fundamental nessa agenda como aliados para que todos esses avanços conquistados sejam convertidos em mudanças estruturais e duradouras.
Autocobrança e a maternidade
Melissa Artioli, executiva que hoje trabalha com mentoria de carreira, considera que a busca por igualdade salarial envolve uma reflexão mais profunda sobre a forma como as próprias mulheres percebem suas trajetórias.
Ao contar um pouco de sua vida profissional, Artioli diz ter aprendido que não precisamos aceitar situações injustas ou desistir de objetivos profissionais, mas sim reconhecer aquilo que não está sob o nosso controle e acreditar que temos recursos internos para lidar com o que vier depois.
Os efeitos da autocobrança feminina, especialmente para profissionais que conciliam carreira e maternidade, estão entre os fatores que mais pesam nessa conta, aponta ela. A necessidade de demonstrar competência, disponibilidade e produtividade constantemente pode fazer com que mulheres associem seu valor ao cargo, ao salário ou ao reconhecimento recebido.
Artioli conta que começou a trabalhar com 14 anos porque queria ser independente, conquistar coisas. Teve o primeiro emprego com carteira assinada aos 16 anos. E já percebia a diferença salarial entre profissionais da mesma área e se perguntava qual seria a justificativa para isso. "É uma incógnita, um ponto de interrogação e não é um achismo meu. São os critérios, as taxas salariais, isso tudo é comprovado com pesquisas e dados oficiais."
Formada em Letras, mestre em Finanças Corporativas e especialista em administração pela FGV, Artioli sentiu na pele os impactos da maternidade em sua carreira ao ser substituída na empresa em que trabalhava após a gestação do seu terceiro filho.
A executiva percebeu que algo estava diferente logo ao retornar ao trabalho. Deu de cara com uma nova liderança e percebeu que não havia reconhecimento ou qualquer tipo de diálogo. Pouco tempo depois veio o desligamento.
Para inspirar outras mulheres a confiarem mais no seu potencial, a executiva conta um pouco de sua história em "Solte, Entregue, Confie - Uma jornada para sua melhor versão", livro lançado pela DVS Editora.
E salário não é a única fonte de desequilíbrio quando se discute a questão de gênero no mercado de trabalho, afirma Artioli. É preciso garantir não apenas o acesso das mulheres, mas também a sua permanência, valorização e reconhecimento.
Para isso as mulheres, principalmente quando se tornam mães, precisam de mais flexibilidade e autonomia para evoluir na carreira, sempre contando com o apoio da empresa."
Melissa Artioli, executiva
A luta pela equidade salarial, como revelam as pesquisas, promete ser longa e exige a mobilização de todos para garantir que mesmo os mais discretos avanços continuem a ser comemorados.
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