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Como ser líder: transição exige mudança de atitudes e mentalidade

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Assumir o primeiro cargo de liderança é um dos momentos mais desafiadores da carreira - Magnific
Assumir o primeiro cargo de liderança é um dos momentos mais desafiadores da carreira
Por Claudio Marques

09/06/2026 | 08h09 ● Atualizado | 08h10

São Paulo – Quem nunca desejou ser chefe, ser um líder no trabalho? Mas assumir o primeiro cargo de liderança continua sendo um dos momentos mais desafiadores da carreira profissional. Mais do que dominar competências técnicas, a transição exige mudança de comportamento, desenvolvimento de habilidades relacionais, visão estratégica e a construção de uma nova identidade profissional.

Os especialistas afirmam que a preparação para a liderança começa muito antes da promoção formal e depende tanto do esforço individual quanto do ambiente oferecido pelas organizações.

A coordenadora geral de mestrado e doutorado profissional em Gestão de Negócios da FIA, professora Elza Veloso, diz que assumir um cargo de gestão não depende apenas da competência individual, mas da legitimidade construída junto às pessoas ao redor. "Nossa competência só existe se as pessoas acreditarem que ela existe”, afirma.

De acordo com Veloso, a ascensão ocorre quando o profissional conquista a confiança de subordinados, pares e gestores. Esse reconhecimento é construído no cotidiano, por meio da demonstração consistente de competências e da formação de relacionamentos profissionais sólidos.

Para termos um cargo de liderança, precisamos primeiro ser um líder. Não adianta a pessoa ter só o cargo, ela precisa ter postura e comportamento de liderança, porque a partir desse comportamento é que ela vai, muitas vezes, conquistar esse cargo”, afirma Anna Mussi, especialista em desenvolvimento profissional e presidente do capítulo Brasil do International Coaching Federation (ICF). 

Segundo Mussi, o profissional deve demonstrar desde cedo características como autorresponsabilização, colaboração, foco em resultados, autoconhecimento e agilidade de aprendizagem.

A chamada learning agility — capacidade de aprender rapidamente com experiências e aplicar novos conhecimentos — é apontada como um dos principais diferenciais para quem deseja continuar evoluindo na carreira.

Desenvolvimento além da técnica

A transição para a liderança altera profundamente as competências exigidas. Enquanto o desempenho de um profissional técnico é medido pela qualidade de suas próprias entregas, o sucesso do gestor passa a ser avaliado pela capacidade de mobilizar outras pessoas para alcançar resultados.

Frente a um notebook aberto sobre uma mesa, Elza Veloso sorri
A professora Elza Veloso diz que o líder precisa desenvolver visão estratégica - Reprodução/site elzaveloso.com

Segundo Veloso, o líder precisa abandonar gradualmente a lógica do “colocar a mão na massa” e desenvolver uma visão mais estratégica, capaz de negociar recursos, construir relacionamentos com outras áreas e compreender as necessidades da equipe.

A mudança também envolve decisões complexas, como distribuir recursos escassos, dizer não e, eventualmente, desligar colaboradores. Para a professora, esse processo exige a formação de uma identidade de líder, algo que nem sempre está previamente consolidado.

O que é preciso para ser líder, segundo os especialistas

Mudar a mentalidade: É preciso agir como líder antes de assumir o cargo, entender que a liderança exige uma mudança de identidade profissional e de comportamento.

Abandonar o "mão na massa": Entender que o líder precisa ter desprendimento para deixar de executar as tarefas operacionais diretamente.

Buscar o autoconhecimento: Avaliar genuinamente se deseja seguir uma trajetória gerencial ou se prefere uma carreira técnica (carreira Y).

Assumir o protagonismo: Ser o principal responsável pelo rumo da sua própria carreira, em vez de esperar que a empresa faça tudo.

Demonstrar autorresponsabilização: Chamar a responsabilidade para si e focar na entrega de resultados.

Ter iniciativa e proatividade: Tomar a frente de desafios e projetos, mesmo quando não souber de tudo inicialmente.

Construir legitimidade e confiança: Conquistar o respeito e a confiança de subordinados, pares e gestores.

Aprender com a experiência: Desenvolver a capacidade de absorver novos conhecimentos rapidamente na prática e aplicá-los no dia a dia.

Pensar de forma macro: Aprender a negociar recursos, construir pontes com outras áreas da empresa e compreender o negócio de forma ampla.

Os três pilares

Marisabel Ribeiro, diretora executiva de Estratégias de Talentos da consultoria Mercer, destaca que o desenvolvimento da liderança passa por três pilares principais: a decisão consciente de liderar, o desenvolvimento de competências comportamentais e a aquisição de conhecimentos técnicos de gestão.

Entre as habilidades consideradas essenciais para a liderança estão o desprendimento para deixar de executar tarefas diretamente, a capacidade de construir resultados coletivamente e a disposição permanente para aprender.

De acordo com ela, as exigências do mercado variam conforme o setor, mas compartilham fundamentos comuns. Entre eles estão a capacidade de trabalhar em grupo, lidar com a diversidade de pensamentos, promover segurança psicológica e atuar como mentor do desenvolvimento dos colaboradores. “As pessoas querem trabalhar com você e não para você”, destaca a executiva.

A presidente da ICF, Anna Mussi, posa sentada à frente de uma estante, , com a mão no queixo; ela é branca, usa um casaco azul escuro sbre uma blusa azul clara
Anna Mussi diz que líderes eficazes são aqueles capazes de equilibrar cobrança por resultados e cuidado com as pessoas - Divulgação

Segundo Mussi, líderes eficazes são aqueles capazes de equilibrar cobrança por resultados e cuidado com as pessoas. “Eu acho que hoje o que caracteriza um líder é aquele profissional que consegue desafiar, levar as pessoas para um resultado, mas com cuidado e com respeito. Uma liderança humanizada”, resume.

O papel de um líder 

Promover a colaboração: Incentivar o trabalho em grupo e saber lidar com a diversidade de pensamentos.

Garantir segurança psicológica: Criar um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para colaborar e errar.

Desenvolver inteligência emocional: Aprender a equilibrar a cobrança por resultados com o cuidado e o respeito pelas pessoas.

Praticar a comunicação assertiva e a escuta ativa: Garantir que a mensagem foi bem compreendida pelo outro e saber ouvir de verdade.

Controlar a autocrítica e a ansiedade: Aprender a não ser excessivamente rígido consigo mesmo e evitar criar cenários catastróficos antecipados (hipervigilância).

Ter sensibilidade interpessoal: Desenvolver empatia para criar conexões reais com o time.

Tomar decisões complexas: Estar preparado para dizer "não", gerenciar recursos escassos e, quando necessário, desligar colaboradores.

Manter-se em constante atualização: Buscar cursos, pós-graduações, conteúdos especializados e participar de projetos estratégicos na empresa.

As especialistas convergem para a ideia de que a liderança deixou de ser apenas uma posição hierárquica e passou a ser compreendida como uma combinação de comportamento, aprendizado contínuo e capacidade de gerar resultados por meio das pessoas.

Nesse contexto, a promoção para um cargo de liderança passa a ser consequência de competências já demonstradas na prática, e não o ponto de partida para desenvolvê-las.

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