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'Consegui transformar dor em propósito', diz autora de livro sobre Alzheimer

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Em entrevista, a gerontóloga Claudia Alves fala sobre processo de escrita e repercute a vivência desafiadora de pessoas que atuam como cuidadoras de familiares - Galeria 32
Em entrevista, a gerontóloga Claudia Alves fala sobre processo de escrita e repercute a vivência desafiadora de pessoas que atuam como cuidadoras de familiares
Por Bianca Bibiano

26/01/2026 | 08h02 ● Atualizado | 09h07

São Paulo, 26/01/2026 - "Cuidar de um idoso doente pode destruir quem cuida, e fingir que isso não acontece só aumenta a culpa e o silencia." Impactante, a frase da gerontóloga Claudia Alves reflete a vivência desafiadora de pessoas que atuam em posição de cuidador, especialmente quando se trata de um familiar.

E ela fala de sua própria vivência, após atuar anos como cuidadora direta da mãe, uma missão que transformou sua vida e lhe deu novos propósitos pessoais e profissionais. Ao portal VIVA, a autora do livro 'O Bom do Alzheimer', lançado em 2025 pela editora Sextante, relatou como sua jornada de cuidados acabou levando a uma transição de carreira e à atuação na área da gerontologia e da formação de cuidadores. 

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Como foi sair do emprego para virar cuidadora

Antes de se tornar gerontóloga, Claudia Alves tinha outra trajetória profissional. A decisão de sair do mercado de trabalho para cuidar da mãe marcou um ponto de ruptura em sua vida pessoal e financeira - e, ao mesmo tempo, deu início a um novo caminho profissional.

"Quando eu parei de trabalhar, eu saí do mercado de trabalho para cuidar da minha mãe e a renda caiu. É um impacto muito grande. Eu tinha uma profissão e estava em ascensão. Eu era corretora de imóveis de alto padrão, estava dentro do que eu queria, mas virou tudo de cabeça para baixo. Parei tudo e fiquei dependendo financeiramente do meu marido".

Sem formação específica na área da saúde naquele momento, Claudia Alves começou como a maioria dos cuidadores familiares: aprendendo na prática.

"Eu aprendi tudo na prática, com dor e sofrimento. Eu nunca aceitei que certos comportamentos eram só da doença ou que não tinha jeito. Eu queria entender o processo", afirma.

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Pedagoga de formação, ela passou a aplicar seus conhecimentos prévios ao cuidado diário da mãe. "Eu usei muito o meu conhecimento para criar um roteiro do que dava certo, do que dava errado, onde eu errava para não repetir."

Com o tempo, o acúmulo de responsabilidades e a mudança radical de rotina cobraram um preço emocional.

"Eu comecei a ter ansiedade por medo do que ia acontecer no dia seguinte, medo de como ela ia acordar, de como seria o meu dia."

O início com anotações em diário

Para tentar entender o que estava acontecendo, Claudia criou um diário de bordo. "Eu comecei a escrever tudo o que acontecia no meu dia a dia para entender o que deu errado e por que deu errado."

O registro sistemático das vivências revelou padrões e ajudou a compreender melhor os comportamentos associados à demência.

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"A agressividade não vem só da doença. Muitas vezes, é uma reação a estímulos que a pessoa não consegue expressar ou alguma coisa que a gente não tem controle. A gente consegue controlar se a televisão ou a música estiver muito alta. Mas não tem controle da obra no vizinho, do cachorro, do latindo, da moto que passa fazendo um barulhão e assusta. Isso tudo pode criar uma reação, um gatilho de agressividade".

Esse processo de entender o que afetava sua mãe e como podia criar um ambiente mais agradável para ela levou Claudia a desenvolver uma metodologia própria de cuidado, que a motivou a estudar mais sobre Alzheimer e, mais adiante, buscar formação em gerontologia.

"O que começou como troca de apoio virou o meu trabalho. Eu consegui transformar tudo o que aprendi em profissão", resume.

Atualmente, além do livro e dos cursos, ela mantém uma forte presença nas redes sociais, onde tem mais de dois milhões de seguidores e recebe mensagens de pessoas de todas as regiões do País ao promover a troca de experiências entre cuidadores, que ela também caracteriza como uma rede de apoio. "Eu consegui transformar a dor em propósito".

Do que se trata o livro 'O Bom do Alzheimer'

O livro 'O Bom do Alzheimer', publicado pela editora Sextante em 2025, parte da sua vivência de Claudia Alves como filha e cuidadora de Francisca, diagnosticada com Alzheimer aos 76 anos, em 2010. Para ela, o processo de escrita foi também de "cura e reencontro com as memórias". E admite: "mexer em feridas que eu achava cicatrizadas doeu bastante".

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Além dos relatos pessoais, o livro traz informações práticas sobre sinais da doença de Alzheimer, que afeta especialmente pessoas idosas, além da importância de formar uma rede de apoio, da Lei Nacional do Alzheimer e outros temas relacionados ao cuidado, alguns deles assinados por especialistas convidados.

Além do livro, a autora compartilha a rotina de cuidados da mãe nas redes sociais e responde às dúvidas de seguidores, fator que chamou a atenção da editora ao convidá-la para escrever o livro. 

Uma profissão em expansão

A experiência pessoal levou Claudia a uma visão mais ampla sobre o envelhecimento da população. Para ela, o cuidador de idosos tende a ganhar cada vez mais espaço.

"A profissão de cuidador de idosos vai ser a profissão do futuro. O envelhecimento acelerado da população exige não apenas mais profissionais, mas também maior valorização de quem já exerce esse papel dentro de casa".

Ela defende que familiares que passam anos cuidando de pessoas com demência acumulam um conhecimento que pode ser reconhecido e profissionalizado. "Tem como transformar tudo o que você aprendeu cuidando em uma profissão."

Apesar dos desafios, Claudia se considera privilegiada por ter contado com uma rede de apoio familiar e de amigos. Segundo ela, esse suporte foi essencial para atravessar o processo de cuidado sem adoecer ainda mais.

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