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Enamed: CFM alerta que 13 mil médicos vão atuar sem 'competências mínimas'

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Por Bianca Bibiano

22/01/2026 | 18h58

São Paulo, 22/01/2026 - O Conselho Federal de Medicina (CFM) repercutiu hoje o debate em torno do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, cujos resultados foram divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) nesta semana.

Dos 39.256 concluintes de medicina que participaram da prova, 13.871 estão se formando em faculdades com conceitos 1 e 2, ou seja, abaixo da nota mínima aceitável pela própria metodologia adotada pelo MEC.

Para o presidente do CFM, José Hiran Gallo, os números confirmam um "alerta inequívoco que a autarquia vem fazendo sobre a formação médica no Brasil". Em posicionamento enviado ao VIVA, ele disse o Enamed cumpre seu papel ao tornar visível a má qualidade do ensino médico vinculada à abertura indiscriminada e desqualificada de escolas sob autorização do MEC.

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Quando mais de um terço dos egressos de Medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de 13 mil graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”, diz Gallo.

O médico diz que "96% da população brasileira reconhece a necessidade e é absolutamente necessário que o Congresso Nacional aprove o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed)", mencionando projeto que atualmente tramita no Senado Federal e poderá ser obrigatório para concessão do registro aos novos médicos - projeto que ficou conhecido como "OAB dos Médicos". 

"É responsabilidade dos Conselhos de Medicina fiscalizar a atividade médica no Brasil e isso precisa ocorrer desde a concessão do registro, pois temos que garantir que apenas profissionais capacitados se tornem médicos – fato que hoje, infelizmente, não é possível garantir”, destaca o presidente do CFM.

Gallo completa dizendo que "o CFM defende que todos os cursos de medicina em funcionamento no País tenham, no mínimo, nota 4 – o que significa que, pelo menos, 75% de seus alunos obtiveram um bom desempenho, segundo conceito definido pela metodologia do MEC."

Reforçando a importância do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) para emissão do registro profissional aos egressos, Gallo destacou a necessidade do CFM garantir que apenas profissionais minimamente capacitados atuem na medicina, o que o Enamed não garante ao permitir que faculdades com notas 1 e 2 certifiquem seus egressos a atuar em todos os ambientes de saúde do Brasil, como ocorre hoje.

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“O Profimed é absolutamente necessário para assegurar que apenas profissionais com conhecimentos teóricos, habilidades clínicas e parâmetros éticos para o atendimento médico recebam o registro e exerçam a medicina. Essa condição não é garantida pelo Enamed/MEC, que avalia a qualidade do ensino, mas, permite que um profissional mal formado atenda a população brasileira”, alerta o presidente do CFM.

Inep diz que dados estão corretos

Apesar de críticas do setor educacional, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) diz que os dados divulgados estão corretos e que não há " nenhum tipo de fragilização". Ao todo, 107 cursos tiveram conceito 1 ou 2, considerados inadequados como formação mínima para os médicos.

Em entrevista ao Estadão, o presidente do Inep, Manuel Palácios, disse que sanções nunca são imediatas, pois "há um processo para manifestação das próprias instituições, estabelecimento dos protocolos de supervisão".

"É um processo por meio do qual são produzidas mais informações, mais dados, para que as condições de oferta do curso e os resultados alcançados possam ser devidamente avaliados", destacou. A expectativa é de que o prazo corra entre segunda, 26, e sexta-feira, 30.

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Nesta semana, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) chegou a tentar uma ação junto à  3ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal e ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) para impedir a divulgação dos resultados, mas teve o pedido negado.

Repercussão continua

Outros instituições representativas do setor também criticaram a medida, destacando desde regras da metodologia até aspectos práticos, como a imposição ou não das medidas punitivas previstas. Nesta manhã, o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio José Gonçalves, disse que "o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil precisa deixar de lado vaidades políticas e enfrentar a realidade com seriedade".

"O Enamed não pode ser confundido como solução para os graves problemas da formação médica no País. Embora seja um instrumento de avaliação importante, ele não protege a sociedade. Ele avalia cursos, não profissionais. O médico que é reprovado no exame segue livre para exercer a Medicina, independentemente de sua capacidade técnica, preparo clínico ou habilidade prática. Em um País onde decisões médicas envolvem risco direto à vida, essa lógica é, no mínimo, preocupante."

Gonçalves diz ainda que os próprios números do exame "expõem a fragilidade do modelo atual". "A proposta de um exame de proficiência médica, defendida pela Associação Paulista de Medicina (APM), pela AMB e pelo CFM, surge exatamente para preencher essa lacuna. Diferentemente do Enamed, a proficiência não tem caráter meramente avaliativo. Ela é um instrumento de responsabilidade social, capaz de impedir que profissionais despreparados ingressem no mercado de trabalho."

E completa dizendo que "sem um exame de proficiência, o Brasil continua formando médicos sem garantir competência. E, nesse cenário, quem paga o preço mais alto é sempre a sociedade."

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