Afastamentos pelo INSS por saúde mental dobram em 6 anos e superam dor na coluna
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São Paulo - Os afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental passaram a ocupar um espaço cada vez maior entre os benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Problemas psíquicos já ultrapassam a concessão de benefícios de auxílio-doença por dor na coluna, por exemplo.
Levantamento realizado pelo VIVA a partir da base de dados abertos do INSS mostra que as concessões de auxílio-doença relacionadas a transtornos mentais – especialmente ansiedade e depressão – cresceram 159% entre 2019 e 2025, mais que o dobro da expansão registrada no conjunto dos benefícios por incapacidade temporária no mesmo período.
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Entre 2019 e 2025, o número de concessões passou de 150.818 para 390.430. No mesmo intervalo, o total de auxílios-doença concedidos pelo INSS aumentou 73%, passando de 2,4 milhões para 4,16 milhões.
O avanço alterou o perfil dos afastamentos registrados pelo INSS. Em 2019, o recorte de saúde mental representava 6,3% dos auxílios-doença concedidos. Em 2025, essa participação chegou a 9,4%.
Quando considerados os grupos de diagnósticos utilizados no levantamento, a participação alcança 10% dos benefícios e supera a família CID M54, que reúne as lombalgias e historicamente concentra parte expressiva dos afastamentos do trabalho.
Há um marco simbólico importante nesses dados: em 2025, os transtornos mentais ultrapassaram as dores de coluna, que historicamente lideram os afastamentos no Brasil, como fatia do total, diz a especialista em medicina legal e perícia médica Caroline Daitx, CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE).
Isso significa que a mente do trabalhador brasileiro passou a adoecer, de forma incapacitante, mais do que a sua coluna".
O levantamento também mostra que os transtornos de ansiedade já aparecem como a quarta principal família de diagnósticos entre todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS no período analisado. Os episódios depressivos ocupam a sétima posição, indicando uma mudança no perfil das principais causas de incapacidade temporária para o trabalho.
Raio-X dos afastamentos por saúde mental no INSS
A análise do VIVA mostra que entre 2019 e 2025, as concessões relacionadas ao recorte de saúde mental cresceram 159%, enquanto o total de auxílios-doença aumentou 73%.
E quais os motivos? Para a perita Caroline Daitx, que também é doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), a pandemia de Covid-19 representou o primeiro grande ponto de inflexão da série histórica. Isso porque seus efeitos têm cauda longa: parte do adoecimento se manifesta e se agrava anos depois, o que ajuda a explicar os recordes de 2024 e 2025, mas não de fato isolado..
Do lado dos fatores externos, o principal é a pandemia por Covid-19. Somam-se a isso as transformações do mundo do trabalho, como hiperconectividade, metas abusivas, insegurança, fronteiras borradas entre vida pessoal e trabalho".
Além disso, ressalta Daitx, há também o fato de o Brasil já ser, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o País com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo.
Por outro lado, o quadro mostra que mais pessoas estão cuidando da saúde mental. "Há ainda um componente positivo: a redução do estigma. Mais gente busca diagnóstico e tratamento, e o que era invisível passa a ser registrado", complementa.
Segundo o levantamento, o perfil predominante dos beneficiários por concessões do INSS é de mulheres entre 30 e 49 anos residentes na Região Sudeste. A especialista em perícia médica diz que essa predominância reflete uma tendência global.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet mostra que em 2020 a pandemia acrescentou 53 milhões de casos de depressão e 76 milhões de transtornos de ansiedade no mundo, atingindo especialmente mulheres e jovens.
Estamos diante de um adoecimento que cresce mais que o dobro da velocidade de todas as outras doenças somadas."
O impacto do Atestmed
Os especialistas ouvidos pela reportagem destacam que desde julho de 2023 existe o Atestmed, que permite conceder o benefício por análise documental, sem perícia presencial, o que pode ter aumentado o acesso. Além disso, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que obriga as empresas a gerenciar riscos psicossociais, e a chegada do CID-11 aumentam o registro e a caracterização desses quadros.
Em resposta ao VIVA, o Ministério da Previdência Social afirmou que os transtornos mentais e comportamentais sempre estiveram entre os grupos mais prevalentes nos requerimentos de benefícios por incapacidade junto ao INSS, ao lado das doenças osteomusculares e ortopédicas.
Nesse sentido, o Ministério diz que "o Atestmed é uma modalidade de avaliação médico-pericial por análise documental e não altera o conceito previdenciário de incapacidade, não cria critério diferenciado por CID e não estabelece fluxo específico para transtornos mentais e comportamentais".
Para fins periciais, a concessão depende da comprovação da incapacidade laborativa, e não apenas do diagnóstico informado, diz a Previdência.
"Não houve mudança no critério pericial de análise da incapacidade para o trabalho em razão do Burnout ou de outros transtornos mentais e comportamentais", segundo a nota.
O eventual aumento de registros pode estar relacionado ao maior uso desse código diagnóstico por médicos assistentes, à possível substituição de códigos anteriormente utilizados para quadros relacionados a estresse, ansiedade ou depressão", explica.
"A análise permanece individualizada, técnica e fundamentada nos documentos médicos apresentados, na atividade habitual do segurado e nos demais elementos necessários à caracterização da incapacidade laborativa", completa a nota.
Quando a saúde mental é incapacitante
Para a especilista em perícia médica, associar o auxílio-doença ao diagnóstico de ansiedade ou depressão não dá a dimensão exata da gravidade dos casos. Segundo ela, o afastamento só é concedido quando o quadro compromete efetivamente a capacidade de trabalhar.
É preciso desfazer um mito. O trabalhador que consegue um afastamento por saúde mental não está apenas estressado ou desanimado. Ele está incapacitado. Não basta receber o diagnóstico. É preciso demonstrar, por meio da documentação médica ou da perícia, que a condição impede o exercício da atividade profissional por mais de 15 dias".
Os próprios dados da Previdência indicam a gravidade dos casos que chegam ao sistema. Em média, os trabalhadores permanecem cerca de três meses afastados, evidenciando que o benefício contempla apenas situações em que o adoecimento compromete significativamente a rotina profissional.
Na avaliação de Daitx, os números também sugerem que a maior parte dos casos chega ao sistema quando o quadro já está avançado. "O afastamento é a etapa final visível de um processo que começou muito antes. Quando observamos o crescimento das aposentadorias por incapacidade permanente por transtornos mentais, percebemos que parte desses trabalhadores não conseguiu se recuperar a tempo", diz.
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