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Pesquisa revela: conflito de interesse e assédio lideram riscos éticos

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Conflito de interesses e assédio moral superam riscos como de desvio de recursos - Envato
Conflito de interesses e assédio moral superam riscos como de desvio de recursos
Por Claudio Marques

11/06/2026 | 17h02

São Paulo - O maior risco ético dentro das corporações brasileiras não está necessariamente nos crimes evidentes, mas em situações ambíguas do cotidiano organizacional. É o que aponta o estudo “Atlas PIR – Dilemas da Integridade no Brasil”, conduzido pela S2 Consultoria com mais de 48 mil profissionais de 449 organizações e 13 setores econômicos. O levantamento foi lançado no congresso Behavioral Science Lab (BEL) da FEA/USP.

De acordo com o relatório, conflito de interesses, relações hierárquicas abusivas e recebimento de presentes superam práticas como desvio de recursos e sonegação fiscal em vulnerabilidade ética. O conflito de interesses lidera o ranking de baixa resiliência, com 18,2%, seguido por assédio moral (16,9%) e recebimento de presentes (15,1%). Em contrapartida, o desvio de recursos registrou 1% e a sonegação de impostos obteve 0,4% de aceitação.

O levantamento utilizou a metodologia PIR (Potencial de Integridade Resiliente), que mede a capacidade dos profissionais de resistir a pressões organizacionais que levam a decisões inadequadas. A análise parte do princípio de que a integridade depende da interação entre ambiente organizacional, relações de poder e contexto decisório.

Renato Santos, sócio-diretor da S2 Consultoria e doutor em Administração pela PUC-SP, explica que os maiores riscos não aparecem nas fraudes óbvias, mas nas chamadas "zonas cinzentas da integridade" — situações envolvendo favores, relações hierárquicas e metas que as pessoas conseguem racionalizar e normalizar no dia a dia. Por não serem percebidos imediatamente como crimes, tais comportamentos geram menor resistência moral.

Variações por hierarquia e setores

A pesquisa identificou disparidades entre os níveis hierárquicos das empresas. Executivos e lideranças estratégicas apresentam maior vulnerabilidade em dilemas financeiros, como fraudes, enquanto funcionários de posições operacionais demonstram maior dificuldade com questões relacionais.

No nível operacional, os principais riscos são:

  • Assédio moral: 23,3%
  • Conflito de interesses: 21,8%
  • Recebimento de presentes: 16,8%

no nível tático, a maior vulnerabilidade é o vazamento de informações, que atingiu 22,1% e se consolidou como um dos problemas mais recorrentes em quase todos os segmentos analisados, como indústria, financeiro, comunicação, logística e construção.

Fragilidades por setores econômicos


Comércio e varejo: Maior índice de vulnerabilidade em assédio moral (29,9%)
Saúde: Registrou 23,9% em conflito de interesses
Indústria: Conflito de interesses (22,4%) e vazamento de informações (22,2%) ficaram praticamente empatados.

Diante dos dados, Santos, autor da pesquisa, ressalta que os programas de integridade e compliance precisam ir além de códigos de conduta, punições formais e treinamentos simples contra crimes óbvios. Segundo ele, os resultados reforçam a necessidade de estratégias voltadas ao desenho organizacional, revisão de incentivos internos e gestão de liderança para o fortalecimento de uma cultura ética cotidiana.

O PIR 

PIR significa Potencial de Integridade Resiliente. Trata-se de uma ferramenta metodológica e um teste comportamental desenvolvido pela S2 Consultoria -- empresa brasileira especializada em segurança empresarial e auditoria baseada em ciência comportamental.

Em vez de focar apenas em descobrir se um profissional cometeu ou cometeria um crime grave óbvio, o PIR serve para mapear e medir a capacidade psicológica e comportamental de uma pessoa de resistir a pressões do dia a dia corporativo que afetam a ética.

Como o PIR funciona e o que ele avalia?

O PIR funciona geralmente por meio de questionários e cenários de negócios aplicados via internet (ou em etapas de processos seletivos e promoções). Ele coloca o profissional diante de dilemas éticos reais e situações ambíguas para analisar como ele tende a se comportar.

A metodologia se apoia em quatro grandes pilares para traçar o índice de resiliência do indivíduo:

Zonas Cinzentas da Integridade: Situações que não parecem necessariamente "crimes de novela" (como desviar milhões), mas envolvem favores, metas abusivas, pequenos conflitos de interesse, ou aceitar presentes de fornecedores. O PIR mede o quanto a pessoa consegue racionalizar e normalizar o erro nessas situações cotidianas.

Abordagem Temática Core: A ferramenta costuma avaliar a postura do profissional diante de temas como corrupção (incluindo suborno e conflitos de interesse), apropriação indevida (fraudes, pequenos furtos, manipulação de estoques/ativos), assédio e vazamento de informações.

Análise de Dissimulação: O teste conta com mecanismos científicos para identificar se o participante está tentando "manipular" as respostas para parecer mais ético do que realmente é (a famosa resposta socialmente aceitável).

Fatores de Contexto: Ele parte da premissa de que a integridade não é um traço fixo e imutável. Um profissional bom pode tomar uma decisão ruim dependendo do ambiente organizacional, das relações de poder (pressão da chefia) e de incentivos internos ruins.

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