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CIDH diz que operação com 122 mortos no Rio falhou na segurança pública

Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo o relatório, a ação aumentou o sofrimento dos moradores e ampliou a desconfiança em relação às instituições - Tomaz Silva/Agência Brasil
Segundo o relatório, a ação aumentou o sofrimento dos moradores e ampliou a desconfiança em relação às instituições
Por Alexandre Barreto

06/03/2026 | 14h57

São Paulo, 06/03/2026 - Um relatório publicado nesta sexta-feira, 6, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) aponta que a Operação Contenção, realizada pelo governo do Rio de Janeiro em outubro de 2025 na Penha e no Alemão, deixou 122 mortos e imagens fortes de corpos nas ruas, mas não trouxe resultados efetivos para a segurança pública.

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Elaborado após quatro meses de apuração, o relatório apontou diferenças entre os objetivos anunciados pelo governo e o que de fato ocorreu e recomenda que o caso seja investigado novamente por órgãos independentes, sem ligação com a polícia fluminense, responsável pela operação.

Operação aumentou o sofrimento dos moradores

A CIDH afirma que a intervenção não conseguiu enfraquecer o crime organizado e acabou trazendo mais consequências negativas para as comunidades. Segundo o relatório, a ação aumentou o sofrimento dos moradores, ampliou a desconfiança em relação às instituições e fez crescer o nível de violência praticada pelo Estado.

Protesto contra a operação policial em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado
Protesto contra a operação policial em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado - Fernando Frazão/Agência Brasil

De acordo com membros da comissão, a Operação Contenção segue um modelo antigo de segurança pública no Brasil com grandes operações policiais, presença intensa de forças armadas nas comunidades e uso frequente da força. Isso significa muitas ações com troca de tiros e alto risco para moradores.

Mesmo com o aumento de mortes nessas operações, os especialistas afirmam que o crime não diminui.

Eles explicam que, quando integrantes de grupos criminosos morrem ou são presos, outros ocupam o lugar, e as redes ilegais acabam sendo reorganizadas.

Por isso, além de provocar violações de direitos humanos, esse tipo de estratégia é considerado pouco eficaz para reduzir a criminalidade.

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Relatório aponta falhas nas investigações

Integrantes da comissão estiveram na cidade nos primeiros dias de dezembro de 2025 para apurar os desdobramentos da operação. Durante a visita, ouviram autoridades de diferentes esferas do governo, representantes da sociedade civil, especialistas, defensores de direitos humanos e familiares das vítimas.

A análise apontou falhas nas investigações, como ausência de preservação adequada das cenas de crime, questionamentos sobre a independência das perícias, problemas na guarda de provas e um número elevado de casos encerrados sem responsabilização.

"Foi informado que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro possui 13.000 câmeras corporais com gravação contínua e armazenamento em nuvem. Contudo, na Operação Contenção, o uso dos dispositivos foi limitado e marcado por falhas relevantes, o que suscita dúvidas quanto à rastreabilidade e à responsabilização em operação de elevada letalidade", pontua o relatório.

Enfrentar a violência exige mudanças de políticas públicas

O relatório da CIDH aponta que enfrentar a violência exige mudanças profundas nas políticas públicas como investir em inclusão social, prevenção e investigações eficazes é essencial para reduzir o ciclo de mortes, prisões e impunidade que afeta favelas e periferias no Brasil.

"A Comissão adverte que, apesar da magnitude do fenômeno, não há uma política pública sistemática de transparência que permita conhecer, de forma desagregada e acessível, o número de casos investigados, arquivados, denunciados ou com condenação", pontua a CIDH.

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"A disponibilização de dados confiáveis e detalhados constitui obrigação mínima do Estado para fins de controle democrático, formulação adequada de políticas públicas e reconstrução da confiança das comunidades afetadas", complementa.

O que foi a Operação Contenção

A Operação Contenção foi realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro com o objetivo de frear o avanço da facção Comando Vermelho e cumprir cerca de 280 ordens judiciais, entre mandados de busca e de prisão, incluindo decisões expedidas pela Justiça do Pará.

Moradores protestam contra Operação Contenção na comunidade da Vila da Penha
Moradores protestam contra Operação Contenção na comunidade da Vila da Penha - Tânia Rêgo/Agência Brasil

A ação mobilizou cerca de 2,5 mil policiais e terminou com 122 mortes, 113 prisões e a apreensão de 118 armas e cerca de uma tonelada de drogas.

Considerada a maior e mais letal operação no Estado nos últimos 15 anos, a ação provocou tiroteios, fechamento de vias, escolas, comércios e UBSs.

Moradores, familiares das vítimas e organizações sociais classificam a operação como “chacina”.

O que é a CIDH

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) é um órgão da Organização dos Estados Americanos responsável por acompanhar e defender os direitos humanos nas Américas. A entidade recebe denúncias, produz relatórios, faz visitas aos países e pode encaminhar casos graves de violações à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

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