Exclusivo: 'População idosa já é prioridade', diz ministro do Meio Ambiente
Rogério Cassimiro/MMA
São Paulo - Biólogo, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e com longa trajetória no terceiro setor — onde presidiu o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Fundação SOS Mata Atlântica —, João Paulo Ribeiro Capobianco assumiu o comando do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em abril.
A entrevista exclusiva ao VIVA deu-se após a cerimônia alusiva ao Dia do Cerrado, realizada em São Paulo na sexta-feira, 11. No Estado, a vegetação original de Cerrado encontra-se reduzida a apenas 3% (293.911 hectares).
O evento foi marcado pela divulgação de avanços expressivos na agenda ambiental: o segundo ano consecutivo de queda no desmatamento do bioma Cerrado, além do segundo melhor resultado para o mês de agosto na série histórica do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), com redução de quase 19% nos alertas.
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Contudo, para além dos números apresentados, o envelhecimento populacional expõe a vulnerabilidade das pessoas com 60 anos ou mais diante da emergência climática em um País com seis biomas continentais, megadiversidade e ecossistemas exclusivos.
O ministro detalha ao VIVA como a pasta tem articulado ações com a Saúde para proteger o público dessa faixa etária contra ondas de calor e fumaça, o desafio de comunicar riscos climáticos a populações sem letramento digital e o valor dos saberes preservados nas comunidades tradicionais.
A população idosa já é prioridade. Isso está no conjunto do governo, porque nós sabemos da importância de garantir qualidade de vida para um segmento que está aumentando em função do envelhecimento da população brasileira."
Leia a entrevista a seguir:
VIVA: Quais as ações de governo em relação a mudanças climáticas para a população idosa afetada pelas queimadas e problemas respiratórios?
João Paulo Capobianco: Essa é uma questão que tem mobilizado diretamente as ações do governo, as políticas e os programas. Na questão das queimadas, há uma mobilização muito grande. Nós estamos em campo com a maior operação já feita para prevenção e controle de incêndios, envolvendo o governo federal por meio do ICMBio, do Ibama e de todos os demais ministérios. Hoje temos 22 ministérios coordenados pela Casa Civil operando para a redução de queimadas, incluindo a Saúde, porque realmente isso é central.
As pessoas esquecem o impacto e acham que é apenas na questão ambiental da natureza, o que já é grave, evidentemente, mas o impacto na saúde pública é muito grande."
Tanto que agora implementamos uma rede de monitoramento da qualidade do ar em todas as capitais da Amazônia, que não tínhamos, por exemplo, para justamente ter mais dados para orientar a população a se proteger da fumaça de incêndios, ao mesmo tempo em que trabalhamos para a redução dos incêndios.
Além disso, há a questão da água: lançamos um estudo muito importante em relação ao Cerrado para garantir a qualidade de água, que é algo fundamental não apenas para a atividade econômica, mas principalmente para a qualidade de vida das pessoas que habitam os 13 Estados banhados pelas águas do Cerrado.
A população idosa será tratada como prioridade nas políticas ambientais em uma eventual continuidade de gestão?
A população idosa já é prioridade. Eu tive inclusive a oportunidade recente de visitar unidades de conservação em vários locais do País e é incrível como essas unidades de conservação vêm adotando medidas para favorecer a visitação de idosos e de pessoas com dificuldade de locomoção ou de visão, com ações específicas, passarelas adequadas e sistemas de rampa de acesso.
Nós estamos investindo muito nas nossas unidades de conservação para trazer as pessoas de mais idade, os idosos, para que frequentem mais as unidades de conservação, sejam aquelas mais próximas aos centros urbanos — como por exemplo nós temos no Rio de Janeiro os investimentos para melhorar o acesso ao Parque Nacional da Tijuca — para permitir que mais pessoas de maior idade ou com dificuldades possam se beneficiar da natureza.
Nós sabemos o bem que isso faz; isso contribui para a melhoria da qualidade de vida, da saúde e da saúde mental das pessoas idosas ou com dificuldades específicas.
Tudo isso está sendo feito, é uma prioridade. Isso está no SUS, está no Ministério da Saúde, está no Ministério da Cultura, está no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, está no conjunto do governo, porque nós sabemos da importância de garantir qualidade de vida para um segmento da população que está aumentando em função do envelhecimento da população brasileira.
Diante do processo de desertificação e da intensificação dos eventos extremos, existe um olhar mais atencioso a esses grupos em situação de maior vulnerabilidade?
O Ministério da Saúde, em parceria com o do Meio Ambiente, vem desenvolvendo políticas específicas voltadas aos mais vulneráveis. Crianças e idosos são aqueles que sofrem de forma mais direta o impacto tanto da mudança do clima, envolvendo ondas de calor, quanto do aumento de poluentes na atmosfera por meio de queimadas, por exemplo.
De fato, é fundamental ter políticas dirigidas a esses segmentos e vem sendo feito exatamente isso, com orientações específicas para esses públicos, inclusive com o plano de enfrentamento ao El Niño deste ano, em que o Ministério da Saúde tem uma força-tarefa grande.
Como comunicar esses riscos climáticos e alertas de saúde para a população idosa que, muitas vezes, não possui letramento digital para acessar as informações técnicas?
No plano de enfrentamento ao El Niño deste ano — que se apresenta como um dos mais severos da história, e embora os dados científicos ainda estejam sendo analisados, os indicativos infelizmente vão nessa direção —, nós temos ações concentradas em alguns ministérios. Um deles é o Ministério da Saúde, exatamente com um conjunto de informações, dados e alertas para a questão da saúde pública.
Problemas de ondas de calor, problemas de excesso de chuvas e piora da qualidade do ar têm sido trabalhados com recortes específicos para esses segmentos. Estão sendo divulgados de forma mais ampla, inclusive orientando os postos de saúde a terem um olhar mais específico para esses públicos neste momento em que o clima deve apresentar situações mais desafiadoras para o meio ambiente e para a saúde pública.
De que maneira a pasta enxerga as comunidades tradicionais, detentoras de conhecimento sobre preservação e saberes ancestrais, sobretudo por idosos e mulheres?
A participação de povos, comunidades tradicionais e povos indígenas nas políticas do governo federal é muito grande. Nós criamos o Ministério dos Povos Indígenas, que foi dirigido por uma ministra indígena até recentemente e agora por um ministro indígena que a sucedeu, trazendo, por meio de ações concretas envolvendo a Funai, toda essa participação necessária de povos indígenas.
Assim como criamos também uma Secretaria no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Secretaria de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs), justamente para garantir esta integração de ideias, propostas e saberes na formulação das políticas. Nós reativamos o Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, que estava desativado e é um espaço gerido pelas comunidades tradicionais e populações locais que define propostas de políticas que influenciam as ações do governo.
Eu diria que todas as políticas que o governo vem implementando em relação aos territórios de povos tradicionais e de povos indígenas vêm sendo feitas em discussão com esses atores, que são centrais, conhecem o território melhor do que ninguém e têm soluções e propostas muito concretas para os problemas que enfrentamos na implantação da conservação, preservação e promoção dessas populações. Portanto, eu acredito que isso vem evoluindo de forma muito positiva.
Considerando o envelhecimento da população em comunidades ribeirinhas e indígenas, o que o Brasil perde quando não auxilia na retenção e propagação desse conhecimento ancestral dos idosos para as novas gerações?
O Brasil perde um dos seus maiores patrimônios. O que caracteriza o nosso País é a sua diversidade ambiental e cultural. É exatamente esse encontro dessas diferentes visões e conhecimentos sobre a natureza e com a natureza que faz uma enorme diferença.
Nós não podemos permitir que o Brasil perca essa riqueza porque é nesses conhecimentos que estão soluções para os desafios que nós enfrentamos hoje."
Por exemplo, a questão da conservação da natureza diretamente: os povos indígenas e as populações tradicionais são responsáveis diretamente pela proteção de extensas áreas naturais, não apenas de floresta, mas de savanas, de Cerrado, da Caatinga e do Pantanal.
E esse conhecimento tem sido vital para aprimorar as políticas públicas que, ao proteger esses biomas, protegem e valorizam essas comunidades e geram benefícios para todo o país com a infraestrutura verde e os serviços ecossistêmicos.
Nós sabemos hoje que as chuvas que abastecem e viabilizam toda a produção de energia, o abastecimento público e toda a questão do agronegócio fora da Amazônia — na região Centro-Oeste, Sudeste e Sul — dependem, por exemplo, da conservação da Floresta Amazônica, o que está comprovado cientificamente.
E esses povos estão lá na linha de frente ajudando concretamente a proteger esses territórios para que eles permaneçam gerando soluções que auxiliam a formulação de políticas públicas mais apropriadas e mais efetivas. Portanto, o Brasil não pode abrir mão disso, não pode permitir essa perda e não pode, de forma alguma, ignorar esses conhecimentos na formulação das suas políticas públicas.
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