Obra de Luiz Gama disputa selo de Patrimônio da Humanidade pela Unesco
Reprodução/Biblioteca Nacional (RJ)
São Paulo - O Brasil aguarda com expectativa o desfecho de um processo que promete consolidar uma marca histórica em nível global: o reconhecimento da obra de Luiz Gama como Patrimônio Documental da Humanidade pela Unesco. O conjunto de documentos, que detalha a trajetória do homem que utilizou as leis para atuar contra o sistema escravocrata por dentro, está sob análise para integrar o registro internacional da organização em 2027.
Ativista pela liberdade
A história de Luiz Gama é uma das mais potentes narrativas de resiliência do século 19. Nascido livre e vendido como escravizado pelo próprio pai aos 10 anos de idade, Gama conquistou sua alfabetização tardiamente e, de forma autodidata, tornou-se um dos maiores juristas do País.
Impedido de se formar oficialmente em direito pelo preconceito da época, ele atuou como rábula - profissional que atuava na advocacia sem possuir diploma de bacharel-, garantindo a liberdade de mais de 500 pessoas através de brechas legais e da denúncia do tráfico ilegal de africanos após a proibição de 1831.
Sua atuação era estratégica: enquanto trabalhava como escrivão de polícia, Gama identificava africanos recém-chegados que não falavam português, provando que haviam sido contrabandeados e, portanto, eram livres por lei. Essa coragem lhe rendeu a expulsão da polícia em 1869, mas imortalizou seu nome como o "articulador da liberdade".
Reconhecimento
Embora a candidatura ao registro global seja o próximo grande passo, a obra de Luiz Gama já possui um selo de relevância internacional. Em 2025, o acervo intitulado "Presença Negra no Arquivo: Luiz Gama, articulador da liberdade (1830-1882)" foi oficialmente inscrito no Programa Memória do Mundo pelo Comitê Regional para a América Latina e o Caribe (MoWLAC) da Unesco.
Este registro regional foi fundamental para embasar a candidatura mundial, que foi oficializada em 26 de novembro de 2025 pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Arquivo Nacional. O dossiê atual reúne manuscritos, cartas de alforria e artigos de imprensa que revelam não apenas a técnica jurídica de Gama, mas sua visão humanizada ao referir-se aos escravizados como "seus irmãos de infortúnio".
2027 e a memória global
O veredito final da Unesco está previsto para ser anunciado no final de 2027, durante a Conferência Geral da entidade. Se aprovado, será a primeira vez que a produção literária e jurídica de um abolicionista negro brasileiro receberá tal distinção mundial.
Além do valor histórico, o projeto atual utiliza inteligência artificial para transcrever documentos e tentar "dar rostos" às pessoas que Gama libertou, um esforço de reparação que busca devolver a humanidade a indivíduos que o Estado, na época, tratava como mercadoria.
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